Análise: Guild Wars 2

Guild Wars foi sem dúvida uma grande surpresa no seu lançamento original, seja pela sua qualidade ou até pelo sistema de pagamento, que eliminava por completo as mensalidade, sendo apenas necessário adquirir o jogo. Isto pode não parecer grande inovação, mas na altura os jogos “free-to-play” não tinham a qualidade que têm hoje e todos os MMORPGs pagos do mercado implicavam o pagamento de uma mensalidade.

Ao contrário desses jogos, Guild Wars não fazia atualizações constantes, nem adicionava grande conteúdo nas que fazia, guardando todo o conteúdo extra para as suas expansões enormes, Factions, Nightfall e Eye of the North. Além destas diferenças, o Guild Wars original não era propriamente um MMORPG, sendo mais próximo de um RPG cooperativo, onde apenas de pode contar com a ajuda da nossa party.

Os jogadores que não façam parte do nosso grupo apenas são visíveis nas cidades, sendo o resto do jogo dividido em instances. Desta forma é quase impossível jogar sozinho, havendo “henchmen” que substituem jogadores humanos quando for necessário e depois do lançamento de Factions foi introduzido o sistema de Heroes, que era bastante semelhante mas possibilitava maior controlo sobre estes “bots”.

Além de tudo isto, Guild Wars não exigia nem metade do tempo que outros MMORPGs exigem, primeiro porque o nível máximo é apenas 20, que é atingido em menos de uma semana no Factions por exemplo e segundo porque não é tão dependente de equipamento como grande parte dos RPGs. A vantagem em PVP vem muito mais das skills escolhidas e distribuição dos pontos e o facto de existirem centenas e centenas de skills para cada class vem mostrar isso mesmo. Havia milhares de combinações possíveis, cada uma com uma utilidade diferente, tanto para PVE como PVP e juntamente com o facto de Guild Wars ter que ser obrigatoriamente jogado em equipa tornava este um dos jogos online mais difíceis e com maior curva de aprendizagem.

A ArenaNet veio mudar completamente este paradigma, eliminando grande parte do que do Guild Wars original um grande jogo, mas por incrível que pareça conseguiu fazer de Guild Wars 2 um jogo ainda melhor que o primeiro. Manteve a ausência de mensalidades, que era um dos maiores atrativos do original e mudou grande parte do que tornava o original diferente do restante.

Mas tornará isto este novo Guild Wars simplesmente igual a tudo ao resto que existe? Não há muita coisa realmente nova em Guild Wars 2, não existe nada que se possa dizer que foi mesmo criado de raiz pela ArenaNet, no entanto todos os elementos e mecânicas presentes no jogo são evoluções e perfeições de sistemas já existentes.

Os jogadores mais experientes irão encontrar semelhanças com bastantes jogos conceituados da atualidade. Há ainda muita mistica do Guild Wars original mas é preciso estar com atenção para as encontrar, existindo muito mais semelhanças com jogos como Rift ou até Borderlands, especialmente este ultimo, primeiro pelo aspecto visual e segundo pelo sistema utilizado na morte do jogador. Para evitar muito tempo de viagens, além da quantidade enorme de “teleports”, o jogador não morre automaticamente quando a sua vida chega a zero, havendo um sistema muito semelhante ao de Borderlands, onde o jogador é premiado voltando à vida se conseguir matar um inimigo num pequeno espaço de tempo depois de morrer, recorrendo a quatro habilidades básicas.

Este sistema permite poupar bastante tempo, no entanto é inútil se o único inimigo for um boss, porque não irá ser possível acabar com ele com estas habilidades, a não ser que esteja praticamente morto. Mas, ao contrário do primeiro jogo, todos os jogadores são capazes de ressuscitar um aliado caído, aumentando muito a cooperação dos jogadores e diminuindo a necessidade vital de ter um “healer” próximo.

Como referi há ainda algumas semelhanças com Rift, especialmente nas quests publicas, ou seja quests em que muitos jogadores podem participar, independentemente de fazerem ou não parte de um grupo. No entanto em Guild Wars 2 este sistema está praticamente perfeito e é responsável em grande parte pela diversão que se consegue ter com o jogo. É a principal razão pela qual Guild Wars 2 é melhor MMORPG a ser lançados nos últimos anos e talvez de sempre. Há sempre algo para fazer em Tyria e o percurso entre as quests da estória tanto pode ser completamente pacifico ou recheado de aventura e percalços.

Não há qualquer jogo que me tenha transmitido uma sensação de aventura e conquista sobre o desconhecido como Guild Wars 2. Qualquer pequeno percurso é uma incerteza, tanto podemos fazer uma travessia em que apenas encontramos um ou dois veados pacíficos, como fazendo exatamente o mesmo percurso temos que salvar uma aldeia de hordas de minotauros. E se acham que tudo isto são apenas pequenos eventos sem consequências esperem até chegarem a níveis mais altos, onde a desenrolar destes eventos altera o próprio mundo sendo comum a destruição e reparação de edifícios. Ao subir o nível máximo para 80 os jogadores irão também passar mais tempo a explorarpó mundo de Tyria.

Aquilo que começa como uma fácil proteção de uma caravana pode acabar com uma batalha épica de dezenas jogadores contra um boss, batalha essa que tanto pode acabar com uma honrosa vitoria ou uma embaraçosa derrota para todos os que estavam presentes. Dependendo da vossa sorte também pode ter um bom numero de aliados convosco ou estarem completamente sozinhos sem grande escolha senão bater em retirada ou morrer sem gloria.

Estes eventos são a principal forma de quests, sem contar com as principais da estória, e são responsáveis por grande parte do XP que irão ganhar, por isso o melhor é estar presente no maior numero possível e ignorar apenas as que sejam impossíveis de ganhar.

Tal como no primeiro Guild Wars não existem duas facções, todos os jogadores independentemente da raça, lutam pelo bem comum, logo não irão encontrar jogadores inimigos em áreas de nível baixo simplesmente a matar os jogadores que por lá andam. Por outro lado também não irão encontrar jogadores de nível muito alto a limpar facilmente as zonas mais fáceis, pois o nível de cada personagem tem um limite dependendo da zona onde se encontram. Uma zona inicial por exemplo está limitada a nível 5, portanto independentemente do vosso nível irão estar no máximo a nível 5 enquanto aí se encontrarem.

O facto de todos os jogadores serem aliados elimina também as perturbações de cooperação que por vezes ocorrem em jogos de duas facções, como World of Warcraft, provando que o sistema de facções tem mais desvantagens que vantagens.

O grafismo e arte é também muito importante atualmente e apesar do bom grafismo do primeiro jogo, este não se distanciava muito dos jogos que existiam. O estilo realista do primeiro contraste com o cellshading do novo jogo. O grafismo de Guild Wars 2 pode ser descrito muito brevemente como simplesmente lindo, mas mais detalhadamente poderia descreve-lo como o mais próximo possível de um quadro que irão encontrar. Juntamente com um dos ambientes mais belos de um mundo virtual podem imaginar o que podem encontrar em termos gráficos e de arte. Se tiverem o hardware suficiente para se aproximarem das definições máximas irão sem duvida ver a beleza de Tyria que abandonou um pouco do caos do primeiro jogo, havendo muito mais beleza agora.

Esta beleza em Tyria não apareceu por acaso, ao contrário do primeiro jogo, onde o mundo estava bastante destruído devido à guerra entre os Humanos e os Charr, agora o mundo tem cidades majestosas, bem mais belas do que Lion’s Arch o foi no primeiro jogo. Sim Tyria já tinha belas praias e belas montanhas, mas o novo motor trás pormenores inalcançáveis com o motor antigo. A estória começa 250 anos depois dos acontecimentos dos primeiros Guild Wars e os humanos deixaram de ser a unica raça. As raças introduzidas na expansão Eye of the North em NPCs e Heroes estão agora disponíveis para criar personagens.

Os humanos continuam presentes e fazem companhia aos seus antigos inimigos Charr, à raça que ficou conhecida no Eye of the North por Vekk, os Asura, os Norn que conseguem tomar a forma de animais e aqueles que não nascem, simplesmente acordam, os Sylvari. Todas estas raças têm oito classes (chamadas aqui de profissões) diferentes, iguais para todas as raças. Warriors dispensa apresentações para quase todos os jogadores, uma vez que é uma classe comum a praticamente todos os jogos, é o tradicional guerreiro capaz de aguentar mais dano que qualquer outra classe.

Elementalist, Necromancer, Ranger e Mesmer são nomes que quem jogou o primeiro Guild Wars irá reconhecer mas foram bastante revistas, especialmente porque o numero de “skills” foi fortemente reduzido. Elementalist continua a ser o mago que controla os elementos, seja com fogo ou gelo os Elementalists são os que mais dano conseguem dar mas em contrapartida são os menos resistentes. Os Necromancer tiram partido da morte para o seu poder, convocando os espíritos e os mortos e até trazendo os seus aliados de volta do mundo dos mortos ou enganar a morte.

Os Ranger são peritos em arcos e utilizam companheiros animais para se manterem longe da batalha, atacando à distancia. Juntamente com os Elementalists conseguem altas doses de dano e conseguem cancelar invocações. Os Mesmers são também mágicos, peritos em confusão e ilusão, utilizando o engano e clones para enganar os seus inimigos.

Algumas classes desapareceram como Dervish, Monk ou Assassin mas apareceram o Thief, Guardian e Engineer. O Thief pode ser comparado ao Assassin, sendo uma personagem bastante ágil que se movimenta das sombras e pode tirar partido dos itens do adversário. Guardian é o suporte de Guild Wars 2, substituindo o Monk e tornando-se o derradeiro suporte neste jogo. O Engineer não tem propriamente comparação dentro do universo do primeiro Guild Wars, utiliza desde explosivos a torres de defesa, conseguindo controlar uma área com as suas criações.

Ao contrário do primeiro Guild Wars não existem centenas de “skills” sendo que as existentes estão ligadas às armas equipadas e são desbloqueadas com o uso da arma, no entanto há ainda várias habilidades exclusivas da profissão escolhida e que são desbloqueadas com pontos ganhos em “quests” espalhadas pelo mapa e marcadas com um simbolo azul. Estas “quests” variam entre simplesmente ir até ao ponto marcado e interagir com o sitio ou derrotar um inimigo nesse local.

No final do jogo Guild Wars 2 mostra ainda melhor as suas qualidades com eventos muito mais elaborados que demoram largos minutos e têm até uma história própria até ás batalhas em larga escala chamadas de World vs World em que jogadores de vários servidores de confrontam entre si, sendo este o principal evento PvP.

Guild Wars 2 é um mundo gigantesco recheado de pormenor com mecânicas inovadoras aperfeiçoadas até à perfeição. O grafismo é brilhantemente belo e é acompanhado de uma banda sonora épica e vozes praticamente perfeitas nos diálogos principais, contando até com Felicia Day na pele de uma Asura. Pode haver algumas falhas como é obvio mas não irão sequer notar que existem porque todo o jogo é praticamente perfeito. É sem duvida o melhor MMORPG que saiu nos últimos anos e aquele que mais se distancia da formula tradicional, marcando um novo rumo para o gênero. A unica questão que falta responder é ver como será o apoio da ArenaNet, se irá manter a sua estratégia de expanções pagas regulares ou irá adotar outro qualquer método, mas no que diz respeito a Guild Wars 2 propriamente dito há conteúdo para horas e horas pelo que falta muito tempo até alguém sentir necessidade de uma expanção.

O lançamento não foi livre de percalços com algum lag , jogadores que não conseguiam entrar no jogo e mais preocupante muitas contas a serem roubadas (incluindo a minha) mas tudo foi resolvido prontamente pela ArenaNet que corrigiu os problemas e implementou sistemas de segurança em tempo record. Jogos 10/10 não são muito comuns de encontrar, no entanto Guild Wars 2 é sem duvida uma dessas pérolas que aparecem uma vez num par de anos e merece ser apreciada pelo maior numero de jogadores possível.

Tiago Roque

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