Análise: Blade Runner 2049

O primeiro Blade Runner é pura e simplesmente um dos melhores filmes alguma vez feitos. É quase perfeito em todos aspectos e é fácil enumerar todos eles. As personagens são
soberbas, juntamente a interpretações perfeitas de ponta a ponta tanto em personagens principais como secundárias. O mundo criado por Ridley Scott mas inspirado pela obra de Philip K. Dick tem tanto de credível como de fantástico. Apesar de ser futurista em todos os aspectos, tem uma base na realidade tão sólida que é difícil não acreditar no mundo de Blade Runner. E por fim temos uma história que tem uma simplicidade aparente que permite a toda a gente aproveitar o filme, mas que permite a um olho mais atento encontrar toda a uma série de complexidade e riqueza mitológica e filosófica que permitem que visualizações múltiplas acrescentem sempre algo de novo. Mas esta não é uma análise ao primeiro filme, mas sim à sequela que veio com 30 anos de atraso.

Denis Villeneuve trouxe-nos um dos melhores filmes de ficção cientifica do ano passado, Arrival, e quem conhece o seu trabalho tinha confiança de que 2049 estivesse em boas mãos. As três curtas que antecederam o filme apenas aumentaram o entusiasmo e o resultado final é muito provavelmente o melhor filme do ano e um dos melhores do género da década. Tal como o titulo indica, o filme passa-se em 2049, 30 anos depois da história de Deckard e Rachael. Um novo modelo de Replicantes foi criada, um que é mais fiável e tal como ficou demonstado numa das curtas, completamente obediente. Estes novos replicantes são tão obedientes que são utilizados como Blade Runners para caçar outros replicantes. A personagem principal de 2049 é o oficial KD6-3·7, um replicante encarregue de caçar aqueles que escaparam antes do apagão de 2022, um evento explorado também numa outra curta em anime lançada como promoção ao filme.

O filme começa com KD6-3·7, interpretado por Ryan Gosling, a investigar um replicante que trabalha numa exploração agricula. Sapper Morton interpretado por Dave Bautista é quem dá inicio a toda a historia, falando do milagre que presenciou, que após a investigação se relevou tratar-se de um nascimento de um filho de um replicante. A história traz consigo ainda mais questões do que é ser humano, introduzindo a gravidez de um ser artificial. Será um filho de um ser artificial tão humano como os humanos naturais? Mas além disso introduz ainda a personagem Joi, interpretada por Ana de Armas, a namorada holográfica de KD6-3·7 e que tem o papel de brincar com os sentimentos do espectador, sendo o ser mais artificial do filme, emulando todos os sentimentos de um humano, mas sendo o mais longe de estar a esse nível.

O regresso de Deckard era o ponto mais esperado e para minha surpresa esse momento foi bem tarde no filme. Estava à espera de bem mais de Harrison Ford no filme dada a importância da sua personagem naquilo que é agora a saga Blade Runner, mas também porque desde cedo no filme percebemos a sua importância também neste filme. Mas ao manter a sua personagem resguardada o filme cresce, não expondo demasiado a personagem. Sempre que Deckard está no ecrã rouba a cena e isso em ultima análise ia prejudicar o filme, prejudicando todas as cenas em que não estivesse presente. Ao estar tão pouco exposto acabamos por não dar tanta importância à sua ausência.

Niander Wallace é o vilão de serviço. O poderoso Wallace é quem em ultima análise salva a humanidade, encontrando solução para a fome que devastava a Terra, sendo também o responsável pelo renascimento da produção de Replicantes. Wallace, interpretado por Jared Leto é no entanto a personagem que tenho maior dificuldade em saber se gosto ou não. Não tenho critica nenhuma relativamente à interpretação de Jared Leto que é simplesmente fantástica. É da personagem em si que tenho duvidas se funciona ou não. Primeiro não há quaisquer grandes consequências dos seus actos. Wallace é poderoso e pode safar-se de muito do que faz e enquanto que matar replicantes não é provavelmente crime neste mundo, o que ele faz a humanos certamente o é, ou então a teoria de que Deckard é um replicante seria confirmada aí. Mas o maior problema que tenho é que Wallace é apesar de tudo um verdadeiro vilão. Roy Batty do primeiro filme além de ser um vilão que faz escolhas condenáveis, é uma personagem complexa, um corpo de adulto numa mente acabada de nascer praticamente e que procura viver um pouco mais. Tudo isto culminando num monólogo que ficará na história do cinema. Wallace fala bem bem dos que Roy e tudo o que diz tem significado literal e filosófico, mas as suas motivações aparentam ser simples. É o tipo mau que quer mais. Mas esta é uma critica apenas possível porque o filme é tão bom que podemos analisar as pequenas coisas que pessoalmente gostaríamos que fossem diferentes.

Blade Runner 2049 não é perfeito, mas é tão perfeito quanto possível neste século. É um filme de uma beleza surreal, uma fotografia e cinematografia ao nível do original e tão bela como o melhor que se faz nesta arte. A direcção faz com que cada actor encaixe e interprete estas personagens como personagens reais e credíveis e isso apenas é possível com um guião bem escrito com uma história que nos agarra até ao fim num filme com quase 3 horas mas que parece meia hora. E depois temos ainda diálogos, efeitos visuais e por fim a banda sonora, e que banda sonora. Um filme de 2017, passado em 2049 e que será visto e lembrado bem depois desse ano.

Tiago Roque

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