Análise: Anthem

A BioWare é um dos estúdios com jogos mais  memoráveis dentro do género RPG que ainda se encontra em actividade.  Jogos como Baldur’s  Gate ou Neverwinter Nights deixaram marcas significativas nos jogos do género que se seguiram, sendo o seu impacto na industria facil de ver noutros jogos de outros estúdios. Mais recentemente Mass Effect e Dragon Age conseguiram ter um impacto semelhante na indústria, no entanto depois de um Mass Effect Andromeda que parece ter ficado um pouco aquém, Anthem parece não conseguir ser o jogo que traz a BioWare de volta ao patamar que merece.

Anthem é na sua génese um jogo muito semelhante a jogos como Destiny, com um foco muito grande em aspectos multijogador, com áreas comuns, muito loot e ainda um foco na história um pouco mais vincado do que num MMO tradicional. Ao contrário do que muita crítica tem dito sobre o jogo a realidade é que pessoalmente não tenho muito de mal para dizer relativamente a Anthem. Isto não quer dizer que o jogo seja revolucionário ou o melhor que podem jogar no momento, mas está longe de ser uma desgraça, pelo menos na maioria dos seus componentes.

Graficamente Anthem é simplesmente soberbo. O seu mundo é colorido e cheio de pequenos e fantásticos pormenores. No centro de tudo isto temos Fort Tarsis, uma espécie de central do jogo que está longe do que foi mostrado na E3 mas mesmo assim consegue ser um local interessante onde temos NPCs que novamente poderiam ter um pouco mais a acrescentar mas nada aqui é realmente inferior ao que outros jogos oferecem e esse é o maior problema de Anthem, a promessa. Tal como o primeiro Destiny prometeu bem mais do que ofereceu também Anthem ou The Division foram jogos que impressionaram tanto quando foram revelado que dificilmente conseguiriam atingir esse patamar. Acaba por ser a expectativa ao redor destes jogos que lhes traz críticas mais negativas do que os seus criadores gostariam. Esse ficar aquém é o principal problema do jogo e à medida que forem lendo esta análise mais fica vincada essa ideia dado que além do grafismo de topo do jogo também a jogabilidade é excelente e altamente gratificante.

A jogabilidade de Anthem é no meu ponto de vista o seu ponto forte e aqueele elemento que além de o diferenciar da concorrência, conseguirá manter o jogo vivo até conseguir resolver os seus problemas que descreverei mais à frente.  O grande objectivo da jogabilidade é o loot e esse ciclo básico do jogo envolve assumir um contrato, voar para uma área e disparar contra alguns inimigos ou outros objectos, recolher as novas armas e acessórios que saem dos baús e equipar novo e melhor equipamento e depois repetir até se fartar. A repetição é um aspecto que une todos estes jogos e pode afectar mais alguns jogadores do que outros, mas isso não faz desta uma boa mecânica de jogo. Uma lista de desafios de final de jogo requer que os jogadores joguem 25 das missões Stronghold, mas há apenas três para escolher por exemplo, o que exemplifica o aspecto de repetição que referi. O jogador é emparelhado com até três outros jogadores humanos, o que dá às missões um tom de corrida, especialmente quando somos teletransportado para o líder sempre que nos afasta-mos demais, o que infelizmente retira toda a imersão que estamos a ter nesse momento. É bom porque mantém a equipa unida e impede que um jogador simplesmente abandone a equipa, mas retira alguma liberdade aos jogadores.

A jogabilidade em si, ao melhor, o combate, é bem mais semelhante a Mass Effect do que outra coisa. Mass Effect apenas conseguiu oferecer um bom combate no terceiro jogo e Anthem oferece uma versão ainda melhor e mais refinada dessa jogabilidade. A sensação do tiro em terceira pessoa é semelhante aqui mas os quatro fatos ou armaduras, como lhe queiram chamar, dá ao jogo uma variedade maior do que os jogos anteriores do estúdio. A classe Interceptor é mais parecida com um jogo de ação como Bayonetta por exemplo, focando-se em ataques corpo a corpo onde armas são usadas apenas para nos aproximar-mos dos inimigos. A classe Storm é essencialmente um mago, com armamento bélico mas que é tão semelhante ao que chama-mos de magia noutros jogos que só lhe posso chamar isso mesmo. Os inimigos começam a parecer demasiado semelhantes e repetitivos com o tempo mas o equipamento que vai crescendo, assim como as opções e possibilidades que isso traz fazem com que o combate em si acabe por ir variando e o jogador pode implementar novas táticas para abordar os mesmos inimigos mas de forma mais eficaz.  Um aspecto que torna a jogabilidade de Anthem tão boa é também o facto de o jogador poder voar. Este pequeno pormenor traz uma verdadeira dimensão extra ao jogo e a forma como progredimos, navegamos no mapa, abordamos o combate e até os poucos puzzles que o jogo pode criar são muito afectados no sentido positivo pela possibilidade do jogador poder voar e planar.

Olhando para Anthem como um “game as service”, categoria onde facilmente se insere, Anthem tem muito tempo para conseguir atingir os seus objectivos a que se propôs, faltando saber se irá conseguir chegar aos números de vendas que precisa para ter fundos para chegar aí. Esse é aliás o grande problema de jogos que se inserem nesta categoria. Em vez de oferecerem aquilo a que se propuseram logo no lançamento, normalmente chegam lá ao fim de alguns meses de correcções como por exemplo aconteceu com The Division ou numa sequela. Às vezes, é difícil ver em Anthem algo de único e que consiga separar o jogo da concorrência, mas quando começamos a ver por baixo do combate e grafismo e olhamos para os sistemas que jogo vai implementando para nos manter a jogar, vemos que Anthem não faz muito realmente. Temos os mesmos sistemas de grind e opções cosméticas que os outros e não posso dizer que faça estas coisas de forma melhor. No entanto a BioWare é conhecida pelos seus mundos, personagens e história e se a história não surpreende e o mundo pode por vezes parecer demasiado artificial, o mesmo não posso dizer sobre as personagens pois essas são na minha opinião o que mantém o jogo vivo durante a história.

Anthem não faz nada de realmente muito diferente ou original, mas pessoalmente não posso crucificar o jogo por isso. Explorar as cavernas do jogo não é tão gratificante como aquilo que podemos fazer em Horizon Zero Dawn,  Destiny tem uma espécie de aura mais interessante que lhe dá mais personalidade e certamente existem jogos que fazem isto e aquilo melhor, no entanto nenhum jogo funciona ou oferece nada realmente igual a Anthem. Um jogo é mais do que a soma das suas partes e Anthem é mais do que um combate e uma história e loot, é uma experiência de jogo diferente que tem um percurso a percorrer e talento na BioWare mais do que suficiente para concretizar uma visão, mas ainda precisa de tempo para aí chegar.

 

Tiago Roque

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