Análise: Ghost of Tsushima

A Sony tem-se tornado uma editora especializada em grandes aventuras cinematográficas e desde o primeiro Uncharted que os seus lançamentos se têm tornado mais e mais semelhantes em si, mas no bom sentido. Ghost of Tsushima é o mais recente jogo lançado pela Sony e criado por um dos seus melhores estúdios, a Sucker Punch Productions, responsável pelas sagfas inFamous e Sly Cooper. Ghost of Tsushima segue o esquema de sucesso de jogos Days Gone e Uncharted oferecendo um maior foco no mundo aberto, mas uma experiência muito cinemática e inspirada no cinema, em especial nos filmes de Akira Kurosawa que empresta o seu nome a um dos modos visuais do jogo.

Ghost of Tsushima é um jogo bastante familiar em termos de jogabilidade e pode sofrer um pouco com isso já que não há nada aqui que não tenhamos visto antes. Em vez de ser um jogo inovador é sem duvida um jogo sólido que recolhe todas as boas ideias e sensibilidades modernas num pacote fantástico e com uma apresentação soberba. Além de tudo o resto Ghost of Tsushima é um jogo visualmente impressionante, juntamente o grafismo realista com um apurado sentido de estética que lhe dá o tom cinematográfico de que tanto gostamos.

A história de Ghost of Tsushima começa no ano da primeira invasão Mongol do Japão. Este não é um jogo que segue eventos completamente reais, misturando a realidade com a ficção. Khotun Khan é um chefe mongol fictício e neto do grande Genghis Khan que pretende utilizar a ilha de Tsushima para criar uma base de operações na invasão. Apesar de largamente em minoria, os samurais tentam evitar a invasão, sendo que praticamente todos os samurais morrem, ficando apenas a nossa personagem, Jin Sakai que é salvo por uma ladra chamada Yuna que também tem os seus motivos. Jin vive preso pelos seus ideais e é Yuna que lhe mostra que nem sempre a honra pode ser a opção e que por vezes estes ideais são um luxo que poucos podem ter. A realidade da guerra acaba por ser um choque para Jin que se vê obrigado a recorrer a técnicas que não considera dignas.

Ghost of Tsushima tem uma componente narrativa realmente forte, em especial a luta interior de Jin e o sacrifício pessoal que vive diariamente para colocar de lado tudo o que acredita. É isto que dá origem à identidade do “fantasma” que dá nome ao jogo. Para lidar com tudo o que tem de fazer de forma sem honra, ele assume esta identidade. Ghost of Tsushima é essencialmente um jogo de samurais mas a jogabilidade e a história possibilitam que se assassine alguém pelas costas, se envenene a comida e todo um outro leque de ações que não são dignas de um samurai. É realmente impactante ver Jin a deixar de lado a sua identidade para se tornar quem precisa de ser num momento tão importante para a sobrevivência de uma nação e para proteger quem não se consegue proteger a si próprio.

Os filmes de Akira Kurosawa são a inspiração do jogo e não há muito aqui que não podesse fazer parte de um dos seus filmes. Existe até um modo chamado “Modo Kurosawa” que além de colocar o jogo em Japonês com legendas, coloca a jogo a preto e branco e com grão. Apesar de ser uma ideia fenomenal, a realidade é que um dos aspectos que faz de Ghost of Tsushima um jogo visualmente tão apelativo é o seu uso de cores vibrantes, por isso não posso deixar de recomendar em jogar pelo menos a primeira vez num modo mais “tradicional” e depois voltar ao jogo para uma playthrough de homenagem ao cinema de Kurosowa.

A história de Jin leva-o a percorrer toda a ilha e a Sucker Punch consegue realmente criar a ideia de uma pequena força que luta contra um exército, criando personagens crediveis a quem nos vamos apegando. Isto faz com que o jogo nos faça realmente sentir algo quando estas estão em perigo e Jin quer mais do que tudo salvar o povo. O jogo está recheado de momentos calmos e diálogos à volta de uma garrafa de saquê que ficam na memória. Espalhadas estão também quests que nos lançam para batalhas e muito para fazer. O jogo está recheado de pontos interessantes e quem está habituado a jogos de mundo aberto com muito para fazer irá certamente adorar mais um. Há tanto para fazer aqui que é difícil não nos distrairmos da quest principal para saír numa demanda por melhor equipamento por exemplo, ou seguir pássaros dourados que nos indicam o caminho para saunas onde recebemos upgrades de vida permanentes.

Um ponto menos explorado do jogo é o facto de não convidar o jogador a procurar todos os locais calmos e de tirar o fôlego que compõe a ilha do jogo. Seja a explorar a ilha de Tsushima ou a combater num circulo de duelo onde as folhas caiem suavemente, este é um dos jogos mais bonitos que irão jogar. O jogo pode tentar puxar o jogador para fazer isto e aquilo mas se o desafiarem um pouco irão encontrar um dos jogos mais gratificantes de explorar do mercado.

A jogabilidade de Ghost of Tsushima não é muito arrojada, baseando-se em ideias e mecânicas que a Sucker Punch sabe que funcionam e pessoalmente não vejo mal nenhum disso. Pessoalmente prefiro jogar algo que realmente funciona do que algo inovador que falha tanto como acerta. As possibilidades da jogabilidade são familiares, como lançar bombas de fumo ou libertar animais para lançar o caos num acampamento, mas são implementadas da melhor forma possível. Mesmo o combate obriga o jogador a utilizar uma série de técnicas diferentes para ter sucesso nos duelos, sendo muito mais profundo do que um simples hack n slash.

Um dos elementos mais impressionantes do jogo são os confrontos. Este momentos são bastante dramáticos e cinematográficos, sendo um dos momentos em que Jin está mais vulnerável. Estes combates podem ser uma grande vantagem ou desvantagem, já que alertam os inimigos para a nossa presença, mas se correrem bem podemos eliminar um inimigo com um simples ataque. Os combates contra bosses também são fenomenais já que eliminam todas as ferramentas que temos normalmente, sendo um combate um para um com um adversário. Temos de perceber os padrões de ataque e encontrar a melhor estratégia para abordar o combate. Enquanto conseguimos facilmente derrotar todos os adversários normais do jogo, os combates contra bosses são realmente complicados e temos de os abordar com muito mais calma.

Ghost of Tsushima é talvez o último grande lançamento que vamos ver na PS4 e que lançamento é. É o culminar de toda a inovação que foi feita esta geração e uma verdadeira carta de amor à cultura e cinema japonês, mesmo que o estúdio seja ocidental. É um jogo obrigatório para os jogadores da PS4 e um dos melhores “open world” na plataforma, rivalizando com Web Horizon Zero Dawn.

Tiago Roque

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