Análise: Saviors of Sapphire Wings / Stranger of Sword City Revisited

Tal como o nome indica, Saviors of Sapphire Wings / Stranger of Sword City Revisited não é um jogo, mas sim um pacote de dois jogos, dois dungeon crawlers da NIS que ganham nova vida com este relançamento. Os fãs do género irão reconhecer ambos e esses mesmos jogadores irão saber que um pack com os dois jogos significam horas e horas de jogo e uma proposta bastante difícil de ignorar, especialmente numa altura como a atual em que apesar de já não estarmos em confinamento, ainda passamos muito tempo em casa e a sombra de um possível regresso à prisão domiciliária ainda existe.

Apesar de a lógica nos dizer o contrário, não há nenhuma ligação em termos de narrativa entre os dois jogos. Além da excelente qualidade de ambos, a realidade é que são dois jogos que nada partilham além do género em que se inserem e alguns elementos dentro do jogo que vou referir mais abaixo. Saviors of Sapphire Wings foi lançado originalmente para Xbox 360 no já distante ano de 2014 e o segundo basicamente nunca foi lançado já que Stranger of Sword City chamava-se originalmente Azure-Winged Chevalier e foi lançado em 2019. Stranger of Sword City é sem dúvida um título bem mais fácil de dizer e a decisão foi acertada.

Esta nova edição de ambos os jogos vem com obviamente muitas melhorias, mas poder simplesmente jogar em hardware mais moderno é por si só uma melhoria tremenda. Os dois jogos não partilham grande coisa além da jogabilidade e alguns elementos e referências. É como se ambos tivessem a mesma mitologia e muitos monstros aparecem nos dois jogos, mas são em locais e épocas diferentes, por isso não interessa a ordem em que os joguem por exemplo.

A história de Saviors of Sapphire Wings conta-nos com um grupo de guerreiros que basicamente eram a última linha de defesa contra o mal, acaba por perder a derradeira batalha, deixando o mal invadir a terra. Um século depois o lider o grupo ressuscita por alguma razão e tem de recrutar um novo grupo de guerreiros para enfrentar o mal e libertar o mundo. Não há nada de muito original nesta premissa, mas a forma como a história é contada e se desenrola ao longo do jogo é realmente interessante e as personagens têm tempo para crescer e desenvolver-se. O jogo está recheado de personagens interessantes e com histórias para contar, algo que é intensificado pelo sistema que permite às personagens conversar em certos lugares.

Ambos os jogos não são perfeitos, mas são batante únicos naquilo que apresentam. Não existe praticamente conteúdo que fosse facilmente descartado sem impactar o resultado final e isso é impressionante num jogo com esta duração. A escrita é também bastante razoável, apesar de se refugiar em alguns clichés do género RPG como várias formas de racismo entre as raças habituais do género. A história não é realmente nada de surpreendente, mas o jogo apresenta grande qualidade no que toca às relações entre as várias personagens e acaba por tornar todo o percurso da história bem mais interessante por causa disso.

Stranger of Sword City tem lugar num mundo mais moderno, onde há um acidente e a nossa personagem acorda nas ruínas. Depois disso o jogo volta a apresentar as mesmas ideias de fantasia, com magia, espadas e monstros a habitarem esta versão alternativa do mundo moderno. Tanto a nossa personagem como algumas outras não são verdadeiramente deste mundo, mas sim da nossa terra e são vistos de forma diferente aqui e são encaminhados para explorar as masmorras do jogo, como a personagem do jogador a ter ainda de encontrar cristais de sangue nos inimigos para desbloquear os seus poderes mágicos, já que ele é o escolhido. Este jogo é mais “cheio” que o anterior, com mais personagens logo de início e muita coisa para decorar. Saviors of Sapphire Wings é bem mais suave na sua introdução e o ritmo do jogo acaba por ser mais agradável por causa disso.

Também a forma como as personagens se juntam ao nosso grupo é mais brusca e sem grande contexto. Enquanto que em Saviors of Sapphire Wings acabamos por conhecer as personagens antes de termos de lutar com elas no nosso grupo, aqui elas juntam-se e só depois as conhecemos. A forma mais acelerada de Stranger of Sword City não é de todo ideal num jogo deste género, mas felizmente o jogo dá-nos na mesma várias ocasiões para ficar a conhecer as personagens do jogo à media que o jogo vai progredindo. Stranger of Sword City também acaba por ter uma história mais interessante do que Saviors of Sapphire Wings.

Em termos de jogabilidade os dois jogos são muito semelhantes. Ambos utilizam uma perspectiva na primeira pessoa, com a gestão do grupo e dos itens a ser feita através de opções “fora” do jogo. Quem já jogou outro jogo do género, especialmente se for um jogo da NIS America como Etrian Odyssey por exemplo irá estar completamente à vontade. Não há aqui nada que surpreenda, mas também nada aqui compromete a qualidade. No entanto existem pequenas diferenças entre os dois jogos. Já falei da história e do cenário, mas existem outras pequenas diferenças. Saviors of Sapphire Wings por exemplo é mais polido e tem um ritmo perfeito. É também mais acessível e intuitivo. Stranger of Sword City por outro lado parece direcionado para jogadores mais habituados ao género. É tudo um pouco menos acessível, com mais elementos a ter em conta e a maioria das mecânicas de jogo parecem versões mais “hardcore” daquelas presentes em Saviors of Sapphire Wings.

Visualmente os dois jogos também são muito semelhantes, com o mesmo estilo de arte presente em ambos os jogos, com apenas as personagens a terem um estilo ligeiramente diferente. Mas nenhum deles fica aquém, ambos são jogos bonitos, com talvez uma diferente atmosfera em cada um, com Stranger of Sword City a ter uma atmosfera mais sombria. Também o som é realmente bom, especialmente no que toca a efeitos e soms ambientais e atmosféricos. Não há propriamente uma faixa memorável, mas há sons realmente muito bons e imersivos por todo o lado.

Saviors of Sapphire Wings / Stranger of Sword City Revisited é um pacote impressionante. Ambos os jogos são muito bons e longos. Aquilo que vos espera são horas e horas de excelentes dungeon crawlers. A minha recomendação é que além de o comprarem, talvez seria melhor começar por Saviors of Sapphire Wings se não estiverem muito familiarizados com o género, não porque a história assim o exija, mas simplesmente porque é mais acessível.

Tiago Roque

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