Perfect Tides é um daqueles jogos que chegam de mansinho, sem grandes ambições técnicas ou promessas grandiosas, mas acabam por se colar à pele do jogador de uma forma surpreendentemente profunda. Desenvolvido por Meredith Gran, este point-and-click narrativo transporta-nos para o ano 2000 e para a vida de Mara Whitefish, uma adolescente de quinze anos a crescer numa pequena ilha turística da costa leste dos Estados Unidos. É uma história de amadurecimento, de frustração, de desejos mal definidos e de uma vontade quase física de fugir para algo maior, mesmo sem saber exatamente para onde. No fundo, Perfect Tides é um jogo sobre aquele período estranho e intenso em que já não somos crianças, mas ainda estamos longe de ser adultos, e em que cada pequeno acontecimento parece ter um peso desmedido.
No estilo muito próprio que encaixa bem no ADN do Combocaster, Perfect Tides não tenta impressionar com sistemas complexos ou desafios elaborados. Em vez disso, aposta numa escrita afiada, personagens credíveis e numa forte ligação emocional com o jogador. É um jogo que vive da empatia e da identificação, especialmente para quem cresceu antes da omnipresença dos telemóveis e das redes sociais, numa altura em que a internet ainda parecia uma porta secreta para o mundo.
Jogabilidade
A jogabilidade de Perfect Tides segue a tradição clássica dos jogos de aventura point-and-click, claramente inspirada nos títulos da Sierra dos anos 90. O jogador controla Mara numa perspetiva na terceira pessoa, explorando os diferentes cenários da ilha, interagindo com objetos e personagens, e resolvendo puzzles que permitem avançar a narrativa. A interface apresenta os verbos clássicos como andar, observar, falar e usar, acessíveis através de um menu no topo do ecrã ou alternáveis com o botão direito do rato.
O jogo está dividido em quatro capítulos, correspondentes às estações do ano, da primavera ao inverno, e cada um deles tem objetivos centrais que precisam de ser cumpridos para que o tempo avance. Para além disso, existe uma grande quantidade de tarefas opcionais, pequenos projetos pessoais e escolhas que não são explicitamente sinalizadas ao jogador. Muitas destas atividades surgem de forma orgânica, quase como descobertas acidentais, o que reforça a sensação de estarmos a viver o dia-a-dia de uma adolescente curiosa, entediada e à procura de algo que quebre a monotonia.
Os puzzles, de um modo geral, são simples e integrados de forma natural no contexto da história. Alguns envolvem a utilização de objetos do inventário, outros dependem de conversas específicas ou da ligação entre diferentes personagens. O jogo raramente pega pela mão, o que pode levar a momentos de alguma indecisão ou vaguear sem rumo pela ilha, mas essa sensação acaba por servir o tema central da experiência: o tédio e a estagnação de viver num lugar pequeno, onde parece que nada acontece.

Mundo e história
O grande trunfo de Perfect Tides está na sua narrativa. A ilha onde a história decorre é um destino turístico sazonal, cheio de vida no verão e quase morto durante o resto do ano. Para Mara, este cenário é uma prisão. Ela sonha em ser escritora, em sair dali e tornar-se alguém diferente da rapariga tímida e insegura que sente ser. No entanto, está presa à escola, à família e às limitações impostas pela idade.
A história acompanha Mara ao longo de um ano particularmente marcante, pouco tempo depois da morte do pai. Este acontecimento deixou marcas profundas na dinâmica familiar, com uma mãe emocionalmente distante e um irmão mais velho excessivamente protetor. Fora de casa, Mara também se sente deslocada. A sua melhor amiga começa a afastar-se, atraída por novos círculos sociais, e os adultos à sua volta tendem a desvalorizar os seus sentimentos e ambições por a considerarem demasiado nova.
É na internet que Mara encontra algum conforto, partilhando a sua escrita num fórum online, embora o acesso seja limitado e condicionado ao seu comportamento. Perfect Tides retrata de forma extremamente honesta este equilíbrio frágil entre a vontade de crescer depressa e a frustração constante de não ser levada a sério. A narrativa não tenta embelezar as decisões de Mara. Pelo contrário, mostra-a a errar, a ser injusta, impulsiva e, por vezes, ingrata. Mas fá-lo sem julgamento, permitindo ao jogador compreender as motivações e inseguranças por trás dessas atitudes.
Grafismo
Visualmente, Perfect Tides aposta num estilo pixel art que, apesar de simples à primeira vista, revela uma enorme atenção ao detalhe. Os cenários da ilha são variados e cheios de personalidade, mudando de forma significativa consoante a estação do ano. Os caminhos verdes e tranquilos da primavera dão lugar a praias cheias e ruas movimentadas no verão, para depois mergulharem numa melancolia quase silenciosa no outono e inverno.
As personagens, embora representadas com modelos de baixa resolução, são incrivelmente expressivas. As animações, sobretudo nos planos aproximados, conseguem transmitir uma vasta gama de emoções, algo essencial para um jogo tão centrado nos sentimentos e conflitos internos da protagonista. Há um contraste interessante entre o visual algo cartoonesco e a seriedade emocional da história, que funciona muito bem e evita que o jogo se torne demasiado pesado ou melodramático.

Som
O trabalho sonoro de Perfect Tides é discreto, mas eficaz. A banda sonora acompanha os diferentes momentos da narrativa com temas suaves e introspectivos, que reforçam a sensação de nostalgia e introspeção sem nunca se tornarem intrusivos. Muitas vezes, a música parece quase fundir-se com o ambiente, deixando espaço para que os diálogos e a narração interior de Mara tenham o devido destaque.
Os efeitos sonoros ajudam a dar vida à ilha, desde o som do mar aos pequenos ruídos do quotidiano, contribuindo para a imersão no mundo do jogo. Embora não seja um título que se destaque pela grandiosidade sonora, Perfect Tides usa o som de forma inteligente para apoiar a narrativa e o tom emocional da experiência.
Conclusão
Perfect Tides é um jogo profundamente humano. Não é apenas uma boa história sobre crescer, é uma tentativa sincera de recordar o que é viver essa fase da vida por dentro, com todas as suas contradições, exageros e dores aparentemente insuperáveis. Ao permitir que Mara esteja errada, que falhe e que magoe os outros sem a punir moralmente por isso, o jogo demonstra um enorme respeito pelas emoções da adolescência.
Para jogadores mais velhos, Perfect Tides funciona quase como uma viagem no tempo, uma oportunidade de revisitar quem fomos e perceber que esses sentimentos intensos e confusos eram tão reais quanto os que sentimos hoje. Para jogadores mais novos, é um espelho honesto e, por vezes, desconfortável, do que significa crescer num mundo que nem sempre tem espaço para ouvir.
No final, Perfect Tides prova que a aventura não precisa de dragões, espadas ou mundos fantásticos. Crescer, encontrar o nosso lugar e tentar ser levado a sério num mundo que insiste em dizer que ainda não é a nossa vez pode ser uma das maiores aventuras de todas. É um jogo tocante, inteligente e memorável, que merece ser jogado com tempo, atenção e alguma abertura emocional.