Há jogos que procuram entreter e há outros que procuram fazer pensar. 1998: The Toll Keeper Story pertence claramente à segunda categoria. Este é um título que mistura simulação com visual novel, mas que acima de tudo serve como uma reflexão sobre o poder das escolhas e sobre o impacto moral das pequenas decisões do dia a dia. Desenvolvido com uma clara inspiração em acontecimentos reais, mais precisamente na crise financeira asiática de 1997-98, o jogo transporta-nos para Janapa, um país fictício do Sudeste Asiático, onde a crise social e económica está prestes a explodir.
O jogador assume o papel de Dewi, uma mulher grávida que trabalha num posto de portagem enquanto tenta sobreviver num ambiente cada vez mais opressivo. A sua função parece simples — controlar quem pode passar e quem deve ser impedido —, mas rapidamente se torna evidente que cada escolha tem consequências reais, tanto para a sua própria sobrevivência como para o futuro do país. 1998: The Toll Keeper Story é um jogo que nos obriga a tomar decisões sob pressão, colocando-nos perante dilemas morais difíceis e situações de injustiça que refletem, de forma inquietante, realidades ainda muito atuais.
Jogabilidade
À primeira vista, 1998: The Toll Keeper Story faz lembrar Papers, Please, e a comparação é inevitável. Também aqui passamos os dias dentro de uma cabine, analisando documentos, verificando matrículas, pesos de veículos, e lidando com uma lista crescente de regras impostas pelo governo. Cada dia de trabalho traz novas restrições, e cada erro cometido significa uma multa pessoal para Dewi.
O sistema de jogo é simples, mas eficaz. Os carros chegam um a um, e o jogador deve verificar se cumprem as normas impostas. Placas ilegais, dinheiro falsificado, excesso de peso ou passageiros proibidos são apenas alguns dos problemas possíveis. Cabe-nos decidir se os deixamos passar, se aplicamos uma multa ou se procedemos à detenção. O twist está no facto de que cada decisão tem um impacto não só financeiro, mas também moral e narrativo. A tentação de aplicar uma multa injusta para pagar o aluguer, ou de fechar os olhos a uma irregularidade por compaixão, é constante.
No entanto, o jogo não permite total liberdade. Há limites claros impostos pelo sistema. Uma postura demasiado rebelde resultará em despedimento; seguir as regras à risca pode significar a ruína moral. É um equilíbrio delicado, um exercício de sobrevivência num sistema corrupto, onde cada erro pesa. Apesar de alguns momentos em que a interface se torna confusa, sobretudo nas fases mais avançadas, a jogabilidade mantém-se sólida e coerente com o tema.

Mundo e história
O mundo de Janapa é fictício, mas as suas raízes históricas são bem reais. O jogo inspira-se fortemente na crise financeira que devastou a Indonésia e outros países asiáticos no final dos anos 90. Este contexto é explorado com inteligência, mostrando um país em colapso económico, com protestos nas ruas, leis cada vez mais restritivas e uma população a lutar pela sobrevivência.
Dewi é o centro emocional desta história. Grávida e prestes a dar à luz, ela representa a luta de quem tenta manter a dignidade num sistema em falência. O marido, Haru, tenta ajudar através do seu trabalho como taxista, mas até isso se torna perigoso quando o governo proíbe veículos pequenos de transportar manifestantes. Um momento particularmente marcante ocorre quando Dewi tem de decidir se deixa o marido passar a portagem — um simples gesto que pode determinar o destino de ambos.
A narrativa desenvolve-se através de pequenos fragmentos: diálogos curtos, entradas de diário e interações repetidas com personagens recorrentes. Cada uma delas tem a sua história e motivações, e todas se lembram das ações do jogador. Esse detalhe confere peso às decisões, tornando o jogo mais humano e credível. Não há heróis nem vilões claros; há pessoas comuns, apanhadas numa teia de leis injustas e circunstâncias desesperadas.
Grafismo
Visualmente, 1998: The Toll Keeper Story aposta numa estética discreta, mas evocativa. O estilo desenhado à mão, com traços pesados e sombreados, remete diretamente para o final dos anos 90, conferindo-lhe uma identidade visual única. As cores são suaves, quase desbotadas, reforçando a sensação de desespero e degradação progressiva.
Cada novo dia no posto de portagem mostra sinais de deterioração. As janelas rachadas, o pó acumulado e a luz cinzenta que invade o cenário criam um ambiente de clausura e desgaste. Esta atenção ao detalhe visual serve para transmitir a ideia de que o mundo de Dewi está a desmoronar-se lentamente, tanto física como emocionalmente.
As personagens são desenhadas com simplicidade, mas expressivas o suficiente para transmitir emoções. Pequenas animações e transições subtis ajudam a manter o ritmo narrativo, sem nunca distrair da mensagem principal. É um estilo artístico que não procura o realismo, mas a empatia — e consegue isso com grande eficácia.

Som
O design sonoro de 1998: The Toll Keeper Story é minimalista, mas intencional. Em vez de melodias constantes, o jogo aposta em silêncios e sons ambientais — o ruído dos motores, o som da chuva a cair sobre o vidro, o bater de carimbos e o estalar de papéis. Esta abordagem reforça o sentimento de solidão e monotonia que domina a vida de Dewi.
A banda sonora aparece apenas em momentos-chave, com temas melancólicos que sublinham a tensão emocional da narrativa. É música discreta, mas poderosa, que nunca rouba o protagonismo à história. Os efeitos sonoros, por outro lado, são precisos e funcionais, ajudando o jogador a manter o foco nas tarefas repetitivas.
Embora simples, o som é um dos elementos que mais contribui para a imersão. O contraste entre o silêncio da cabine e o tumulto distante das manifestações cria uma atmosfera opressiva e inquietante, lembrando-nos constantemente do mundo em colapso do lado de fora.
Conclusão
1998: The Toll Keeper Story é um retrato duro e honesto da vida sob um regime em colapso. É um jogo sobre escolhas, mas também sobre a ausência delas. Obriga o jogador a confrontar-se com dilemas morais e a sentir o peso das pequenas decisões que, no contexto certo, se tornam grandes.
Mais do que um simples simulador, é uma experiência narrativa que mostra como a rotina pode tornar-se uma forma de resistência e como a obediência pode ser tão perigosa quanto a rebelião. Dewi é uma protagonista inesquecível, e o seu percurso espelha o de milhões de pessoas que tentam sobreviver entre a injustiça e a esperança.
Apesar de alguns problemas na interface e de uma estrutura um pouco rígida, o jogo destaca-se pela força do seu argumento, pela sensibilidade artística e pela sua pertinência política e moral. Num tempo em que o mundo volta a enfrentar incertezas económicas e sociais, 1998: The Toll Keeper Story surge como um espelho e um aviso. É uma experiência que incomoda, mas que precisa de ser vivida.