Lançado originalmente em 2020, Animal Crossing: New Horizons tornou-se rapidamente num fenómeno cultural. Em plena fase de isolamento global, milhões de jogadores encontraram naquele conjunto de ilhas virtuais um espaço de conforto, criatividade e socialização inesperada. Agora, vários anos depois, o jogo regressa à conversa com a chegada da Nintendo Switch 2 Edition e com a atualização gratuita 3.0.0, dois lançamentos simultâneos que tornam esta análise tudo menos simples.
Por um lado, estamos perante uma das edições de nova geração mais baratas disponíveis, com um custo de atualização bastante reduzido. Por outro, o conteúdo exclusivo desta edição é relativamente modesto quando comparado com outras propostas semelhantes. A situação torna-se ainda mais curiosa quando percebemos que a atualização 3.0.0, gratuita para todos os jogadores, introduz melhorias tão profundas que acabam por ofuscar parte das novidades da Switch 2 Edition.
Esta análise olha para o jogo como um todo, usando o texto fornecido como base informativa, mas procurando enquadrar a experiência completa de Animal Crossing: New Horizons em 2026. Mais do que discutir se vale a pena pagar pela atualização, importa perceber se este continua a ser um jogo relevante, cativante e capaz de nos prender durante dezenas ou centenas de horas, mesmo depois de tantos anos no mercado.
Jogabilidade
A base jogável de Animal Crossing: New Horizons mantém-se inalterada e isso é, simultaneamente, uma das suas maiores forças e uma potencial barreira para novos jogadores. A progressão assenta numa rotina diária feita de pequenas tarefas: apanhar insectos, pescar, recolher fósseis, plantar árvores, decorar a casa e interagir com os habitantes da ilha. Não há pressa, não há pressão e não há um verdadeiro estado de falha. O jogo avança ao ritmo do jogador e do relógio interno, sincronizado com o tempo real.
A atualização 3.0.0 introduz uma quantidade significativa de melhorias de qualidade de vida que tornam esta rotina muito mais fluida. A possibilidade de andar de lado pode parecer um detalhe menor, mas revela-se fundamental durante processos mais delicados como a terraformação ou a colocação precisa de objectos. O crafting em massa elimina uma das maiores frustrações do jogo original, poupando tempo e cliques desnecessários. Já a opção de repor partes da ilha, ou até criar uma ilha completamente nova através das Slumber Islands, oferece uma liberdade criativa que antes exigia decisões drásticas.
A grande novidade jogável é o Hotel, uma funcionalidade que funciona quase como um jogo dentro do jogo. Ao longo de vários dias, somos convidados a desenhar quartos para turistas, com exigências mínimas e uma enorme margem de criatividade. O jogo não penaliza escolhas simples, mas recompensa a experimentação, permitindo criar espaços elaborados ou absurdamente minimalistas. A presença destes turistas na ilha, a circular e a usar roupa temática criada pelo jogador, ajuda a dar uma sensação de vida e dinamismo adicionais.
No contexto da Nintendo Switch 2 Edition, surgem ainda os controlos por rato. Em teoria, esta é uma adição perfeita para um jogo focado na decoração e no design de interiores. Na prática, a implementação é inconsistente. O rato funciona muito bem para mover e posicionar objectos, mas deixa de estar activo assim que se abre um menu, obrigando a uma alternância constante entre controlos. Esta decisão de design quebra o ritmo e retira parte do potencial da funcionalidade, embora seja inegavelmente útil para quem gosta de criar padrões e arte personalizada.

Mundo e história
Animal Crossing nunca foi um jogo guiado pela narrativa tradicional e New Horizons não é exceção. A história, se assim lhe podemos chamar, resume-se a estabelecer uma nova vida numa ilha deserta, sob a supervisão descontraída mas financeiramente implacável de Tom Nook. A partir daí, o mundo desenvolve-se organicamente, moldado pelas escolhas do jogador e pela passagem do tempo.
A ilha é mais do que um simples cenário; é uma extensão da personalidade de quem joga. Cada rio desviado, cada ponte construída e cada bairro planeado conta uma história silenciosa de tentativa, erro e evolução criativa. A atualização 3.0.0 reforça este aspeto ao permitir recomeços sem perdas totais, algo que incentiva a experimentação a longo prazo.
Os habitantes da ilha continuam a ser o coração emocional da experiência. Mesmo com diálogos limitados e rotinas simples, criam laços surpreendentemente fortes com o jogador. A introdução do megafone tenta ajudar a localizá-los, mas a sua utilidade é discutível, sobretudo quando as personagens se encontram dentro de edifícios. Ainda assim, o simples acto de cruzar a ilha e encontrar um vizinho a cantar ou a observar flores continua a ser um dos pequenos prazeres que definem Animal Crossing.
No modo multijogador, a possibilidade de ter até 12 jogadores numa ilha representa uma expansão significativa, embora bastante específica. Exige condições técnicas e logísticas que nem todos terão, e o caos resultante de entradas e saídas constantes pode rapidamente tornar-se cansativo. É uma opção interessante, mas longe de essencial para a maioria dos jogadores.
Grafismo
Visualmente, Animal Crossing: New Horizons envelheceu de forma notável. O seu estilo artístico aposta numa estética limpa, colorida e intemporal, evitando realismo em favor de charme e clareza. Na Nintendo Switch 2 Edition, a principal melhoria surge na resolução em modo docked, que sobe para uma apresentação em 4K através de upscaling.
O resultado é subtil, mas perceptível. As linhas são mais definidas, os cenários ganham um pouco mais de nitidez e a profundidade de campo torna-se mais evidente. Continuam a existir algumas arestas visíveis, mas o conjunto beneficia claramente da resolução superior, sobretudo em televisores de grandes dimensões.
É importante notar que, em modo portátil, grande parte destas melhorias perde relevância. Uma atualização independente já tinha aumentado a resolução para 1080p, mesmo sem a edição de nova geração, o que faz com que o salto visual seja quase irrelevante fora do modo docked. Ainda assim, o jogo continua a ser extremamente agradável de se ver, com animações subtis, ciclos de dia e noite bem marcados e um uso de cor que transmite uma sensação constante de conforto.

Som
O trabalho sonoro de Animal Crossing: New Horizons é um dos seus elementos mais subestimados. A banda sonora dinâmica, que muda a cada hora do dia, cria uma ligação quase inconsciente entre o jogador e o passar do tempo. As melodias são simples, mas eficazes, acompanhando o ritmo da jogabilidade sem nunca se tornarem intrusivas.
Os efeitos sonoros seguem a mesma filosofia minimalista. O som de uma cana a tocar na água, o estalido de um insecto capturado ou o toque suave de passos na areia contribuem para uma paisagem sonora coesa e relaxante. As vozes caricatas das personagens, compostas por sílabas simuladas, continuam a ser estranhamente expressivas e memoráveis.
Não existem grandes novidades nesta área com a atualização ou com a edição Switch 2, mas também não era necessário. O som já cumpria exemplarmente o seu papel e continua a ser um dos pilares da identidade do jogo.
Conclusão
Animal Crossing: New Horizons continua a ser um jogo singular no panorama dos videojogos. A sua abordagem lenta, deliberadamente desprovida de urgência, contrasta com a maioria das experiências modernas e é precisamente isso que o torna especial. Em 2026, regressar à ilha sabe tão bem como antes, graças sobretudo à atualização gratuita 3.0.0, que melhora significativamente a experiência base sem custos adicionais.
A Nintendo Switch 2 Edition é uma proposta curiosa. As melhorias visuais em 4K e os tempos de carregamento ligeiramente mais rápidos são bem-vindos, mas dificilmente essenciais. Os controlos por rato mostram potencial, mas ficam aquém do que poderiam ser devido a decisões de interface pouco felizes. Para jogadores que jogam maioritariamente em modo docked, têm uma televisão 4K e passam muito tempo a decorar espaços, a atualização pode fazer sentido. Para todos os outros, é perfeitamente possível ignorá-la sem perder o essencial.
No final, não há melhor altura para voltar a Animal Crossing: New Horizons do que agora, mas não necessariamente pelas razões associadas à nova edição. O verdadeiro destaque está no conteúdo gratuito e nas melhorias que respeitam o tempo e o investimento emocional dos jogadores. A ilha continua lá, à espera, pronta para mais um dia tranquilo.