Depois de uma fase particularmente fértil para o terror psicológico, especialmente no espaço indie, Apartment No. 129 surge como uma proposta curiosa vinda da Turquia, um país pouco representado no panorama dos videojogos de terror. Inspirado numa alegada lenda urbana, o jogo aposta numa narrativa curta e focada, onde o horror não nasce apenas do sobrenatural, mas também do peso cultural e religioso que envolve os acontecimentos. Com uma duração aproximada de duas horas, esta é uma experiência compacta que tenta fazer muito com pouco, recorrendo a ambientes claustrofóbicos, notas enigmáticas e uma forte ligação ao Islão. Nem tudo funciona da melhor forma, sobretudo na adaptação às consolas, mas há aqui ideias suficientemente interessantes para justificar a atenção dos fãs do género.
Jogabilidade
Apartment No. 129 é um jogo de terror na primeira pessoa com uma abordagem bastante clássica à jogabilidade. A maior parte do tempo é passada a explorar corredores, apartamentos abandonados e divisões escuras, recolhendo itens-chave e resolvendo pequenos puzzles para desbloquear novas áreas. O combate existe, mas é residual. O jogador tem acesso a uma arma de fogo relativamente cedo, mas o seu uso é limitado a poucos momentos específicos, funcionando mais como um elemento de tensão do que como uma mecânica central.
O foco está claramente na exploração e na resolução de enigmas. Estes passam por introduzir códigos, observar padrões, interpretar mensagens deixadas em papéis escritos em turco e relacionar pistas espalhadas pelo edifício. Não são puzzles particularmente complexos, mas cumprem o seu papel de abrandar o ritmo e obrigar o jogador a prestar atenção ao espaço que o rodeia. Em alguns momentos, a progressão é deliberadamente lenta, o que ajuda a criar um clima de desconforto constante.
No entanto, a jogabilidade sofre bastante com as escolhas de controlo, sobretudo nas versões de consola. A sensibilidade da câmara vem definida num nível exageradamente alto, tornando a simples tarefa de olhar em redor algo caótico até ser ajustada manualmente. Mesmo depois disso, há inconsistências evidentes entre a movimentação normal e a interação com puzzles, onde o cursor se move de forma demasiado lenta, criando uma frustração desnecessária. É um daqueles casos em que se sente claramente que o jogo foi pensado para rato e teclado, e só mais tarde adaptado para comando.

Mundo e história
O cenário de Apartment No. 129 é um complexo de apartamentos abandonado desde 2009, cuja existência oficial nunca foi confirmada. Fala-se de um terramoto que nunca chegou a ser registado, de um local cuja localização foi apagada dos mapas e de acontecimentos tão perturbadores que levaram à evacuação total do edifício. É neste mistério que o jogo constrói a sua base narrativa.
O jogador assume o papel de um aspirante a criador de conteúdos que recebe uma dica de um amigo da família sobre a possível localização do complexo. Apesar do cepticismo inicial, decide investigar, dando início a uma descida lenta e desconfortável a um espaço marcado por tragédia. Rapidamente se torna evidente que não se trata apenas de um edifício abandonado, mas de um local preso a acontecimentos passados, onde as escolhas e os pecados dos antigos residentes deixaram marcas profundas.
Um dos elementos mais distintivos da narrativa é a forma como o jogo integra o Islão e excertos do Alcorão na sua história. Em vez de recorrer a mitologias mais comuns no terror, como o folclore europeu ou japonês, Apartment No. 129 explora conceitos religiosos ligados à obediência a Deus, à punição divina e às consequências de tentar contornar ou desafiar as regras de Allah. O protagonista assume-se como ateu, o que cria um contraste interessante entre o seu cepticismo e os acontecimentos cada vez mais difíceis de explicar de forma racional.
A história centra-se particularmente num grupo de jovens raparigas, mas acaba por envolver vários residentes do complexo, mostrando como as ações individuais tiveram impacto em toda a comunidade. Sem entrar em spoilers, o jogo constrói uma narrativa moralista, onde se sugere que muitos dos horrores poderiam ter sido evitados caso os ensinamentos religiosos tivessem sido seguidos.
Grafismo
Visualmente, Apartment No. 129 é modesto e, por vezes, rudimentar. Os modelos são simples, as animações algo rígidas e as texturas deixam a desejar em vários momentos. Não é um jogo que impressione do ponto de vista técnico, mesmo tendo em conta o seu estatuto indie. Os ambientes, apesar de eficazes na criação de tensão, são relativamente limitados e pouco detalhados, com várias áreas do complexo que existem apenas como decoração, sem qualquer razão prática para serem exploradas.
Ainda assim, há um mérito na forma como o jogo utiliza a iluminação e a composição dos espaços. Corredores mal iluminados, apartamentos em decomposição e detalhes perturbadores, como cadáveres em estado avançado de decomposição ou objectos cobertos por panos, contribuem para uma atmosfera pesada e desconfortável. Alguns momentos específicos, especialmente aqueles que envolvem aparições súbitas, conseguem ser genuinamente eficazes, mesmo com os recursos limitados de que o jogo dispõe.

Som
O trabalho sonoro é um dos pilares da experiência. A banda sonora é discreta, muitas vezes quase inexistente, dando lugar a sons ambientes que mantêm o jogador constantemente em alerta. Rangidos, passos distantes, ruídos indefinidos e silêncios prolongados ajudam a criar uma sensação constante de perigo iminente. Os jump scares, embora pouco frequentes, são bem colocados e conseguem apanhar o jogador desprevenido. O facto de não serem usados em excesso faz com que mantenham o impacto ao longo do jogo. A dobragem, presente sobretudo nas sequências em vídeo no início e no fim da experiência, é de qualidade irregular, lembrando produções de baixo orçamento. Ainda assim, cumpre o seu papel narrativo e não compromete significativamente a imersão.
Conclusão
Apartment No. 129 é um jogo de terror imperfeito, mas com identidade própria. A sua maior força reside na narrativa e na forma pouco comum como utiliza a religião islâmica como motor do horror, oferecendo uma perspectiva cultural diferente daquilo a que estamos habituados no género. A curta duração joga a seu favor, evitando que as limitações técnicas e a falta de variedade se tornem excessivamente cansativas.
Por outro lado, os problemas de controlo, especialmente nas consolas, são difíceis de ignorar e prejudicam a experiência de forma significativa. A sensação constante de que o jogo funciona melhor com rato e teclado torna difícil recomendá-lo sem reservas a quem joga exclusivamente em consola.
Ainda assim, para quem aprecia terror narrativo, experiências curtas e propostas fora do circuito habitual, Apartment No. 129 merece ser explorado. Idealmente num PC, onde as suas fragilidades são menos evidentes e as suas ideias conseguem brilhar com mais clareza.