Num mercado cada vez mais saturado de RPGs de ação, distinguir um bom jogo de um fiasco tornou-se quase uma arte. Blood of Mehran, desenvolvido pela Permanent Way Game Co. e publicado pela Blowfish Studios, surge como mais um título a tentar captar a atenção dos fãs do género com o brilho da Unreal Engine 5. À primeira vista, parece um épico inspirado em Prince of Persia, com ambientes desérticos, luzes cintilantes e promessas de aventura. No entanto, o que parece um diamante pode, afinal, ser apenas vidro polido. Blood of Mehran é um exemplo claro de como a tecnologia moderna pode mascarar as limitações de um projeto que, no fundo, nunca consegue alcançar as suas ambições.
Jogabilidade
A estrutura de Blood of Mehran é a de um RPG de ação clássico: combates corpo a corpo, árvores de habilidades, alguns puzzles ocasionais e um toque de furtividade. O problema é que tudo isso é apresentado de forma tão derivada e desinspirada que rapidamente se percebe que o jogo não tem muito para oferecer além de repetições. O combate é o centro da experiência, mas depressa se torna frustrante. Os inimigos atacam em grupos que esmagam o jogador em espaços apertados, e o sistema de esquiva raramente responde de forma eficaz. Bloquear ou aparar golpes é inconsistente, e os pontos de controlo são escassos, o que obriga a repetir longas secções após uma derrota.
A jogabilidade alterna entre fases de hack and slash e sequências de furtividade que, surpreendentemente, acabam por ser as mais satisfatórias. Contudo, essa impressão talvez se deva ao facto de o combate direto ser tão caótico que qualquer alternativa parece melhor. As batalhas contra chefes, que deveriam ser momentos de destaque, resumem-se a enfrentar versões maiores e mais resistentes dos inimigos normais, geralmente em três fases idênticas. Há uma exceção interessante numa luta contra uma bruxa num cemitério, onde a furtividade é usada de forma mais criativa, mas são raros os momentos em que o jogo consegue manter esse nível.
No geral, Blood of Mehran é um título de ação sem frescura, sem equilíbrio e sem ritmo. Os níveis são excessivamente lineares, o design de missões é repetitivo e a exploração pouco recompensa o jogador. É um jogo que se joga quase por inércia, sem nunca gerar aquela sensação de descoberta que define o melhor do género.

Mundo e história
A narrativa de Blood of Mehran é tão rasa quanto o deserto que procura retratar. Controlamos Mehran, um guerreiro relutante que parte numa jornada de vingança após o assassinato da sua família. É uma premissa básica, já usada até à exaustão, e o jogo nada faz para lhe dar profundidade. O enredo segue uma linha reta, sem reviravoltas, e os diálogos são mecânicos e desprovidos de emoção. As atuações vocais agravam o problema: todas as falas são ditas num tom monótono, sem qualquer sentimento ou naturalidade, o que destrói qualquer tentativa de envolvimento narrativo.
O jogo tenta capturar o espírito dos clássicos de aventura inspirados no Médio Oriente, como Prince of Persia, mas falha em todos os aspetos que tornavam esses títulos memoráveis. O mundo é vazio, sem vida e sem identidade própria. Mesmo quando o cenário parece vibrante, rapidamente se percebe que é apenas um pano de fundo estático, uma ilusão criada por texturas modernas e iluminação dinâmica.
Blood of Mehran recorre a clichés constantes: memórias espectrais para ilustrar flashbacks, monólogos expositivos que interrompem a ação, e o típico comerciante que inexplicavelmente aparece em zonas dominadas por mortos-vivos. Nenhum destes elementos acrescenta substância ou coerência à narrativa. No final, é uma história de vingança sem alma, contada com a superficialidade de um filme B que tenta ser épico, mas acaba por ser apenas aborrecido.
Grafismo
Se há algo que Blood of Mehran tenta vender bem, é a sua aparência. O jogo usa a Unreal Engine 5 para criar ambientes que, à primeira vista, impressionam. Os reflexos na água, o brilho da areia e as sombras dinâmicas são tecnicamente competentes. Contudo, basta alguns minutos de jogo para que o encanto desapareça. As animações são rígidas e datadas, lembrando produções da era da PlayStation 3. As cenas de combate, especialmente nas cutscenes, parecem coreografias de teatro amador, com movimentos desajeitados e sem peso.
As personagens, por sua vez, têm expressões artificiais e modelos que parecem feitos de borracha. O cavalo de Mehran, que deveria ser um companheiro de viagem épico, move-se de forma absurda, como se tivesse acabado de descobrir que tem patas traseiras. O resultado é um grafismo que quer ser realista, mas que acaba por expor as limitações do estúdio.
Ironicamente, o estilo visual é ao mesmo tempo a maior força e a maior fraqueza do jogo. Se os criadores tivessem optado por um estilo artístico mais estilizado e menos dependente do realismo, talvez Blood of Mehran tivesse conseguido manter uma identidade própria. Assim, fica a sensação de um jogo afogado nas suas próprias ambições gráficas, belo à distância, mas quebrado de perto.

Som
O design sonoro de Blood of Mehran segue a mesma linha do resto do jogo: ambicioso na intenção, pobre na execução. As vozes são uma das maiores desilusões. Falas sem emoção, pausas artificiais e uma completa falta de química entre personagens tornam impossível levar a sério o enredo. Os efeitos sonoros também deixam a desejar: os golpes de espada soam leves e genéricos, as criaturas inimigas emitem grunhidos repetitivos, e o ambiente carece de textura auditiva.
A banda sonora tenta compensar com melodias orquestrais inspiradas na cultura persa, mas acaba por se repetir rapidamente. Há bons momentos em que a música cria alguma atmosfera, sobretudo nas secções mais calmas, mas são raros. Na maior parte do tempo, o som apenas reforça a sensação de que se está perante um produto inacabado.
Conclusão
Blood of Mehran é um exemplo de como a aparência pode enganar. À superfície, parece um RPG de ação moderno com visuais impressionantes e uma história de vingança intensa. No entanto, bastam algumas horas de jogo para perceber que tudo não passa de fumo e espelhos. A jogabilidade é datada, a narrativa é genérica, o mundo é vazio e o combate é frustrante.
Ainda assim, há algo de curioso neste desastre: é um jogo estranhamente jogável. Pela sua linearidade e simplicidade, acaba por ser acessível e quase relaxante. Não exige grande atenção, nem desafia demasiado o jogador. É, no fundo, o equivalente a um jogo de conforto, um título que se joga sem pensar, talvez entre experiências mais complexas e exigentes.
Mas isso não o salva. Blood of Mehran é um RPG que tenta emular os clássicos, mas falha em capturar a sua alma. O resultado é um jogo medíocre, preso entre ambição e limitação, bonito à distância e desastroso de perto. Uma aventura que queria ser Prince of Persia, mas acaba por ser apenas mais um nome esquecido na areia do tempo.