Análise: Confidential Killings

Confidential Killings é um daqueles jogos que entram pela porta da frente com estilo e confiança, como um detective privado de gabardina impecável, cigarro aceso e um passado que pesa tanto como a arma no coldre. Desenvolvido por BRANE e Lorenzo Boni e publicado pela Surefire.Games, este título chega ao PC via Steam com uma proposta muito clara: contar uma história de crime e corrupção através de uma estética film noir moderna, apresentada como se estivéssemos a folhear uma banda desenhada animada.

Situado numa cidade que vive de aparências, luxo e promessas quebradas, Confidential Killings coloca-nos na pele de um investigador solitário envolvido numa série de homicídios que rapidamente se revelam interligados. O que começa como um caso aparentemente simples transforma-se numa teia complexa de traições, ambições pessoais e jogos de poder, onde cada personagem tem algo a esconder. Não há aqui ação frenética nem perseguições de carro, mas sim um ritmo pausado, quase contemplativo, que aposta tudo na atenção ao detalhe e na capacidade de dedução do jogador.

É um jogo que não tem pressa, e isso é tanto uma virtude como um potencial obstáculo. Confidential Killings sabe exatamente o que quer ser e não faz concessões para agradar a todos, o que o torna uma experiência muito própria dentro do género de aventuras point-and-click e jogos de investigação narrativa.

Jogabilidade

A jogabilidade de Confidential Killings assenta numa estrutura clássica de point-and-click em 2D, onde o jogador explora cenários, recolhe pistas, interroga suspeitos e organiza informação para chegar a conclusões lógicas. Não existem quebra-cabeças tradicionais nem desafios mecânicos elaborados; o verdadeiro puzzle está na interpretação correta dos factos e na forma como estes se relacionam entre si.

Uma das mecânicas centrais do jogo é a reconstrução dos acontecimentos. À medida que vamos recolhendo pistas e testemunhos, somos chamados a organizar essa informação num ecrã dedicado, ligando diálogos, objetos e conclusões parciais numa narrativa coerente. Se a reconstrução estiver errada, o jogo avisa que a história não faz sentido, mas não explica exatamente onde está o erro. Isto obriga o jogador a rever tudo com atenção e a confiar no seu próprio raciocínio.

Esta abordagem faz lembrar outros jogos de investigação mais cerebrais, como The Last Case of John Morley, onde a progressão depende mais da compreensão do que da experimentação. No entanto, Confidential Killings vai ainda mais longe ao exigir que o jogador tome notas manualmente num diário interno. Embora exista espaço para escrever observações, nada é automatizado, o que significa que a responsabilidade de organizar a informação recai quase totalmente sobre quem está a jogar.

Este sistema é eficaz no papel, mas pode tornar-se cansativo quando a quantidade de pistas ultrapassa várias dezenas de itens. Em particular, jogar sem teclado e rato, como no Steam Deck, torna a escrita de notas um processo pouco prático. É um jogo claramente pensado para PC tradicional, onde a escrita rápida e a alternância entre ecrãs é mais fluida.

Sente-se também a falta de um sistema de dicas mais claro. O jogo só oferece feedback mais concreto quando estamos muito perto da solução correta, o que pode frustrar jogadores menos experientes ou menos pacientes. Confidential Killings não pega pela mão, e isso faz parte da sua identidade, mas também limita o seu público.

Mundo e história

O grande trunfo de Confidential Killings está na forma como constrói o seu mundo e a sua narrativa. A cidade onde tudo se passa é um personagem em si mesma, um espaço de luxo superficial que esconde corrupção, violência e jogos de influência nos bastidores. Mansões elegantes, clubes noturnos, escritórios sombrios e ruas iluminadas por néon servem de palco a uma história que bebe diretamente da tradição do cinema noir clássico.

À medida que avançamos, percebemos que os crimes não são incidentes isolados, mas peças de um plano maior, cuidadosamente orquestrado por alguém que está sempre um passo à frente. Cada personagem tem motivações próprias, muitas vezes contraditórias, e cabe ao jogador separar a verdade da mentira. O texto é o principal veículo narrativo, já que não existe dobragem, o que coloca ainda mais peso na escrita e na interpretação dos diálogos.

A história desenvolve-se de forma lenta, quase como um romance policial, e exige atenção constante. Pequenos detalhes num diálogo ou numa descrição podem fazer toda a diferença mais tarde. Esta densidade narrativa é recompensadora para quem gosta de histórias complexas, mas pode afastar quem procura algo mais imediato ou com maior sensação de urgência.

Apesar disso, há uma clara paixão pelo género, e o jogo nunca perde de vista o tom que pretende manter. É uma história de ambição, culpa e consequências, contada com respeito pelas suas inspirações e sem cair em clichés excessivamente óbvios.

Grafismo

Visualmente, Confidential Killings é simplesmente deslumbrante. O jogo apresenta-se como uma banda desenhada noir animada, com um uso magistral de contrastes fortes, sombras profundas e cores vibrantes, especialmente tons de néon que remetem para uma estética mais oitocentista. É uma combinação que resulta surpreendentemente bem, criando uma identidade visual muito própria.

Embora os cenários sejam maioritariamente estáticos, há pequenos elementos animados que dão vida a cada cena: água a ondular numa piscina, luzes a piscar, reflexos em espelhos. Estes detalhes subtis fazem toda a diferença, sobretudo num jogo sem vozes, onde a imagem tem de carregar grande parte da expressividade emocional.

É impossível não estabelecer paralelos com jogos como Scarlet Hollow ou Slay the Princess no que toca ao domínio estético, mesmo que o tom e a temática sejam bastante diferentes. Confidential Killings demonstra uma compreensão profunda do impacto visual e usa-o de forma consistente para reforçar a narrativa.

Não é um jogo tecnicamente complexo, mas é artisticamente muito seguro do que quer fazer, e isso nota-se em cada enquadramento e escolha de cor.

Som

No campo sonoro, Confidential Killings opta por uma abordagem contida, mas eficaz. A ausência de dobragem pode surpreender alguns jogadores, mas acaba por reforçar o carácter literário e introspectivo da experiência. A leitura torna-se mais pessoal, quase como se estivéssemos a folhear um livro ilustrado interativo.

A banda sonora acompanha bem o ambiente noir, com temas discretos, melancólicos e carregados de tensão subtil. Nunca se impõe demasiado, mas está sempre presente, a sublinhar momentos-chave e a manter uma sensação constante de mistério. Os efeitos sonoros são usados com parcimónia, mas ajudam a dar peso a ações importantes, como a descoberta de uma pista ou a conclusão de uma dedução crucial.

É um trabalho sonoro que não procura protagonismo, mas que cumpre a sua função de forma competente, reforçando a atmosfera sem distrair do essencial.

Conclusão

Confidential Killings é um jogo de investigação feito claramente para um público específico. Não tenta agradar a todos, nem suavizar as suas arestas para se tornar mais acessível. Exige paciência, atenção ao detalhe e gosto por narrativas densas e bem construídas. Para jogadores que apreciam este tipo de desafio intelectual, a experiência é profundamente recompensadora.

A jogabilidade pode parecer limitada e até frustrante em alguns momentos, sobretudo pela falta de sistemas de ajuda mais claros e pela dependência excessiva de notas manuais. No entanto, estas escolhas também reforçam a sensação de estarmos realmente a desempenhar o papel de um detective, sozinho contra um caso complicado e cheio de zonas cinzentas.

Com um grafismo soberbo, uma história envolvente e uma identidade muito bem definida, Confidential Killings destaca-se como um dos exemplos mais elegantes de narrativa noir no panorama indie recente. Não é um jogo para jogar de forma casual ou distraída, mas para saborear com tempo e atenção.

Para quem, depois de resolver o último caso, ainda sentir o chamamento da investigação, experiências mais leves como The Duck Detective podem servir de complemento, embora com um tom bastante diferente. Confidential Killings, por seu lado, deixa uma marca mais pesada e duradoura, como uma verdade incómoda que preferíamos não ter descoberto, mas que já não conseguimos esquecer.

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