Darkway: Murder of King Mere é um daqueles jogos que surgem quase de mansinho, mas rapidamente se impõem pela força da sua identidade. À primeira vista, parece apenas mais um mistério indie com arte em pixel art, mas bastam poucos minutos na Cidade da Tinta para perceber que estamos perante algo muito mais ambicioso. Aqui seguimos a jornada de um jovem cão, aprendiz do Detective-Mestre, chamado a investigar o assassinato do Rei Mere, uma figura central do Império dos Cães, conhecido pela sua diplomacia e influência. O crime já aconteceu há quatro dias quando chegamos ao local, o sangue ainda marca a neve, e o culpado oficial, o irmão do rei, August, já foi condenado. Cabe-nos perceber se a verdade foi realmente encontrada ou se foi convenientemente apagada com tinta.
O jogo assume desde logo um tom intimista e acolhedor, quase contraditório com a gravidade do crime que lhe dá nome. Darkway aposta num ritmo calmo, numa exploração cuidada e numa narrativa profundamente ramificada, onde cada decisão tem peso. Não é um jogo que nos pegue pela mão nem que nos apresente respostas fáceis. Pelo contrário, convida-nos a desconfiar, a observar e a ouvir com atenção, criando uma experiência que vive sobretudo da escrita, das personagens e do mundo que as rodeia.
Jogabilidade
Em termos mecânicos, Darkway é surpreendentemente simples, mas essa simplicidade joga a seu favor. Controlamos o aprendiz numa perspectiva lateral, com movimentos suaves e acessíveis, complementados por secções de parkour leves que nos permitem escalar paredes, saltar entre telhados e encontrar passagens escondidas na Cidade da Tinta. Não estamos perante um jogo de plataformas exigente, nem pretende sê-lo. O parkour serve sobretudo para reforçar a ideia de exploração e de descoberta, dando-nos acesso a novas áreas e atalhos que se tornam essenciais à medida que vamos conhecendo melhor a cidade.
O verdadeiro coração da jogabilidade está na investigação. Podemos falar com quem quisermos, quando quisermos, na ordem que entendermos. Não existe uma linha narrativa rígida nem uma sequência obrigatória de missões. Cada jogador constrói o seu próprio percurso, escolhendo que pistas seguir, que personagens pressionar e em quem confiar. Esta liberdade resulta num número impressionante de finais, mais de vinte, incluindo várias variações mesmo quando se chega à condenação considerada correcta.
As conversas são densas e frequentemente cheias de subtilezas. Uma frase mal interpretada ou uma pergunta feita no momento errado pode fechar portas ou levantar suspeitas. O jogo incentiva-nos a pensar não só no que perguntar, mas também em como e quando o fazer. Há uma constante sensação de que a informação é valiosa demais para ser partilhada levianamente, e essa tensão é uma das maiores forças da experiência.

Mundo e história
A Cidade da Tinta é, sem dúvida, uma das grandes protagonistas de Darkway. Este espaço urbano de inspiração medieval, frio e labiríntico, transmite uma sensação constante de isolamento e desconfiança. Ruas estreitas, becos escondidos e corredores sinuosos fazem com que, inicialmente, nos sintamos completamente perdidos. No entanto, com o tempo, a cidade vai-se tornando familiar, quase íntima. Aprendemos atalhos, reconhecemos zonas-chave e começamos a perceber as dinâmicas sociais que ali se desenrolam.
A história do assassinato do Rei Mere é apenas a superfície de algo muito mais complexo. À medida que investigamos, percebemos que o Império dos Cães está cheio de tensões políticas, ressentimentos antigos e segredos bem guardados. Cada personagem tem a sua própria versão dos acontecimentos, moldada pelas suas experiências, lealdades e medos. Não há vilões óbvios nem heróis puros, apenas indivíduos a tentar sobreviver num sistema que começa a mostrar fissuras profundas.
O facto de jogarmos como um forasteiro reforça ainda mais esta sensação de desconforto. Somos vistos com curiosidade, desconfiança ou até hostilidade, e raramente nos dizem tudo de forma directa. Há sempre algo por trás das palavras, algo que exige atenção e interpretação. Esta abordagem narrativa cria uma paranoia subtil, mas eficaz, onde nunca temos a certeza absoluta de quem está a dizer a verdade.
Grafismo
Visualmente, Darkway destaca-se pelo seu estilo painterly-pixel, uma fusão entre pixel art tradicional e pinceladas suaves que conferem ao mundo um aspecto quase pictórico. A Cidade da Tinta é representada com tons frios e contrastes fortes, reforçando a atmosfera invernal e melancólica que atravessa todo o jogo. A neve, a pedra escura e a tinta negra são elementos recorrentes que ajudam a criar uma identidade visual muito própria.
As personagens são outro ponto forte. Cada cão tem um design distinto, tanto no modelo em jogo como nos retratos usados durante os diálogos. Estas diferenças visuais ajudam imenso a caracterizar cada figura, tornando-as imediatamente reconhecíveis e reforçando a sua personalidade. Mesmo com um elenco relativamente reduzido, nunca sentimos que as personagens se confundem entre si.
A animação é contida, mas expressiva, e o uso de enquadramentos durante as conversas dá um toque quase cinematográfico a momentos-chave da narrativa. Tudo aqui parece feito com cuidado e intenção, sem excessos, mas também sem atalhos visuais fáceis.

Som
O trabalho sonoro acompanha de forma exemplar a experiência visual e narrativa. A banda sonora é discreta, muitas vezes quase imperceptível, mas está sempre lá para reforçar o tom emocional das cenas. Melodias suaves e melancólicas acompanham a exploração, enquanto momentos de maior tensão são sublinhados com composições mais densas, mas nunca intrusivas.
Um dos grandes destaques é o facto de todas as personagens serem totalmente dobradas. Com um elenco relativamente pequeno, cada voz consegue destacar-se e transmitir nuances importantes da personalidade de cada cão. O tom, o ritmo e a entoação ajudam a perceber estados de espírito e intenções, acrescentando camadas adicionais às conversas e tornando-as ainda mais envolventes.
Os efeitos sonoros são igualmente eficazes, desde o som dos passos na neve até aos ruídos subtis da cidade, contribuindo para a sensação de estarmos num espaço vivo, ainda que marcado pelo frio e pela desconfiança.
Conclusão
Darkway: Murder of King Mere é uma experiência rara, daquelas que ficam connosco muito depois dos créditos finais. Não impressiona pela complexidade mecânica nem pelo espectáculo visual exuberante, mas pela forma como conjuga narrativa, personagens e mundo num todo coerente e profundamente envolvente. A sensação de juntar pistas, confrontar suspeitos e, finalmente, chegar a uma conclusão bem fundamentada é genuinamente recompensadora.
É um jogo que respeita a inteligência do jogador, que não tem medo de deixar perguntas em aberto nem de nos confrontar com as consequências das nossas escolhas. A escrita é de um nível elevadíssimo, o mundo é rico e credível, e a liberdade dada ao jogador resulta numa rejogabilidade assinalável.
Para quem aprecia boas histórias, mistérios bem construídos e experiências mais contemplativas, este é um título absolutamente obrigatório. Darkway não é apenas um jogo sobre resolver um crime, é sobre compreender um mundo em desequilíbrio e o peso que a verdade pode ter quando finalmente vem à tona.