Dead Format é um jogo de survival horror que se destaca pela sua abordagem única e cuidadosamente trabalhada. Apesar de manter muitos dos elementos clássicos do género, consegue inovar ao dobrar criativamente algumas regras, criando uma experiência que mistura Survival Horror com Analog Horror, num registo semelhante ao que se viu no ano passado em Among Ashes. O jogo consegue ser ao mesmo tempo assustador, intrigante e divertido, apresentando algumas ideias originais que dão uma identidade própria à experiência, embora existam pequenos detalhes que poderiam ser aprimorados.
A premissa inicial coloca o jogador na pele de alguém que decide invadir o apartamento do seu irmão desaparecido. Ao investigar o local, encontra notas misteriosas e um presente de aniversário: uma cassete de vídeo em formato GHL, que funciona como uma VHS comum mas com propriedades perturbadoras. Ao colocar a fita na videocassete, o jogador é transportado para dentro do universo do filme. A partir daí, o objetivo passa por encontrar outros filmes, alternando entre eles para resolver enigmas, enfrentar inimigos e tentar desvendar o mistério do desaparecimento do irmão. Esta narrativa inicial estabelece desde cedo uma atmosfera de mistério e tensão que se mantém ao longo do jogo.
Jogabilidade
Dead Format equilibra de forma sólida a exploração, a resolução de puzzles e o combate, embora este último não seja o ponto mais forte. O sistema de inventário é limitado, obrigando o jogador a gerir cuidadosamente os recursos, mas há recursos a mais relativamente ao número de inimigos, o que diminui um pouco a sensação de perigo constante típica do género. Apesar disso, a presença de um inimigo do tipo stalker, que persegue o jogador de forma implacável, cria momentos de tensão genuína e faz com que alguns encontros sejam verdadeiramente intimidantes.
Os puzzles são variados e bem concebidos. Cerca de metade baseia-se em interações simples com o inventário, enquanto o restante apresenta desafios originais e inteligentes que exigem raciocínio e observação. O combate combina elementos clássicos de Resident Evil com encontros inspirados no estilo Tyrant, mas não chega a ser memorável. O verdadeiro foco do jogo está na exploração, na resolução de enigmas e na atmosfera que cada nível consegue criar.
A navegação pelos ambientes é em geral intuitiva, mas a ausência de um mapa pode ser frustrante em alguns momentos, sobretudo durante as idas e vindas entre áreas já visitadas. Apesar disso, o design de níveis é sólido e consegue manter o jogador imerso, com segredos opcionais que recompensam a curiosidade e incentivam a exploração detalhada.

Mundo e história
Cada mundo dentro de Dead Format representa um universo cinematográfico diferente, com a particularidade de que antes de entrar nesse mundo é possível assistir a uma sequência de live action na televisão. Estas sequências são excelentes e incluem desde horror expressionista alemão extremamente convincente, passando por efeitos práticos ao estilo Evil Dead, até filmes slasher dos anos 80, coloridos e com uma estética vibrante típica da época. Além disso, cada mundo possui filtros visuais que reforçam a sensação de estar dentro de um determinado período cinematográfico, contribuindo significativamente para a imersão.
A história principal é intrigante e mantém o jogador motivado a descobrir o que aconteceu ao irmão desaparecido. O enredo é apresentado de forma fragmentada, com pistas espalhadas pelos filmes e notas encontradas pelo caminho, exigindo atenção e curiosidade. Apesar de o final ser um pouco abrupto, existem elementos que sugerem múltiplas possibilidades de replay e potenciais finais alternativos, aumentando o valor de rejogabilidade.
O uso de filmes dentro do jogo serve como um interessante comentário meta sobre o próprio meio e adiciona camadas de profundidade narrativa que nem todos os jogos de survival horror conseguem atingir. A sensação de transitar entre diferentes estilos e eras do cinema cria uma experiência rica e variada, sem nunca perder o foco na tensão e no suspense.
Grafismo
O grafismo de Dead Format é um dos seus pontos fortes, não apenas pela qualidade visual, mas pela forma como o estilo de cada filme é adaptado para o jogo. Cada universo possui cores, filtros e efeitos que refletem a época ou o estilo cinematográfico que procura emular. O resultado é uma variedade estética impressionante que consegue ser visualmente apelativa e, ao mesmo tempo, reforçar a atmosfera de cada segmento.
O design de níveis mostra cuidado e atenção aos detalhes. Os cenários transmitem autenticidade e ajudam a construir tensão, seja pela iluminação, pelo uso de sombras ou pela composição dos espaços. Os efeitos práticos e digitais nos mundos inspirados em filmes de terror clássico são particularmente bem conseguidos, tornando cada entrada num novo filme uma experiência distinta e memorável.
Apesar de não ser um jogo que dependa de gráficos ultra-realistas, a estética escolhida é coerente com a experiência e demonstra que a criatividade pode ser tão eficaz quanto o poder de processamento para criar um ambiente imersivo. A consistência artística ajuda também a reforçar a sensação de estar a viver dentro de diferentes géneros cinematográficos.

Som
O som em Dead Format é outro elemento que contribui de forma decisiva para a atmosfera. Os efeitos sonoros são cuidadosamente posicionados, seja para indicar a presença de inimigos, criar tensão ou destacar interações com objetos importantes. A mistura de efeitos ambientais com música e ruídos característicos de cada era cinematográfica torna a experiência mais rica e envolvente.
As sequências de live action também beneficiam de uma banda sonora e efeitos de som que reforçam a autenticidade do filme simulado, ajudando o jogador a mergulhar ainda mais naquele universo. Os momentos de silêncio são usados estrategicamente para aumentar o suspense, e o som do stalker inimigo contribui para criar ansiedade constante.
O conjunto sonoro consegue complementar a narrativa e o design visual de forma harmoniosa, mantendo o jogador em alerta e aumentando a tensão nos momentos certos, o que é essencial em qualquer jogo de survival horror de qualidade.
Conclusão
Dead Format é uma experiência de survival horror inovadora e altamente recomendável. Consegue equilibrar exploração, resolução de puzzles e combate, oferecendo momentos de tensão genuína e uma narrativa intrigante que prende o jogador do início ao fim. A mistura de estilos cinematográficos diferentes e a utilização de sequências de live action dão-lhe uma identidade única no género, enquanto os puzzles inteligentes e os segredos opcionais incentivam a exploração e a atenção aos detalhes.
Apesar de alguns pontos de melhoria, como a escassez exagerada de inimigos relativamente aos recursos, a ausência de um mapa e um final ligeiramente abrupto, o jogo entrega uma experiência sólida e envolvente. Com cerca de oito horas de jogo, oferece uma rejogabilidade interessante graças aos elementos que sugerem finais alternativos e múltiplos caminhos.
Dead Format é, sem dúvida, um dos melhores jogos de terror que surgiram este ano, especialmente para fãs de first person survival horror ou jogos próximos de títulos como Among Ashes, Resident Evil 7 ou Routine. É uma experiência que combina medo, nostalgia cinematográfica e criatividade, oferecendo um horror que vai além dos sustos fáceis, mantendo o jogador sempre atento e imerso nos seus diferentes universos cinematográficos.