Análise: EBOLA VILLAGE

EBOLA VILLAGE é daqueles jogos que entram numa sala carregados de fantasmas do passado. Fantasmas esses que cheiram a portas rangentes, corredores apertados, câmaras fixas que já não existem e um medo constante de ficar sem munições. Desde o primeiro minuto que fica claro que estamos perante uma homenagem descarada ao survival horror dos anos 90, em particular à série Resident Evil, algo que não passou despercebido a muitos jogadores e críticos. As comparações são inevitáveis, desde as ervas medicinais até à própria estrutura de progressão. No entanto, reduzir EBOLA VILLAGE a uma simples cópia seria injusto, sobretudo quando tantos jogos modernos vivem precisamente de revisitar fórmulas antigas com uma nova perspetiva.

Desenvolvido por uma equipa muito pequena, este é o mais recente capítulo do chamado universo Ebola, iniciado em 2019. Aqui, a ambição não passa por reinventar o género, mas sim por capturar uma sensação específica: a do terror de série B, exagerado, sangrento e um pouco tosco, mas feito com paixão. EBOLA VILLAGE assume essa identidade sem vergonha e constrói à sua volta uma experiência que, apesar de irregular, consegue ser cativante para quem tem saudades dessa era dourada do horror interactivo.

Jogabilidade

A jogabilidade de EBOLA VILLAGE bebe diretamente das raízes do survival horror clássico, mas com uma diferença fundamental: tudo é apresentado na primeira pessoa. Esta opção aproxima-o mais de experiências modernas, mas mantém uma estrutura bastante antiga, centrada na exploração, na gestão de recursos e no ritmo lento. O movimento inicial pode parecer algo rígido e pouco intuitivo, especialmente para quem está habituado a shooters mais fluidos, e existe alguma fricção na interação com o cenário. Os objectos interativos surgem destacados no ecrã, mas quando estão muito próximos uns dos outros, a seleção nem sempre responde da melhor forma, criando momentos de frustração desnecessária.

Um dos pilares do jogo é, sem dúvida, a gestão de inventário. O espaço é limitado e obriga o jogador a fazer escolhas constantes: levar mais munições ou guardar uma chave que pode ser importante mais à frente? Este vai-e-vem entre zonas seguras e arcas de armazenamento é assumidamente old-school e será um elemento divisivo. Para alguns, é uma camada estratégica essencial; para outros, um entrave ao ritmo. EBOLA VILLAGE não tenta suavizar esta abordagem, o que reforça a sua identidade, mas também afasta quem procura uma experiência mais acessível.

Mundo e história

A narrativa coloca-nos na pele de Maria, uma mulher comum apanhada no meio de um surto biológico que se espalha pela Rússia. Tudo começa de forma quase banal, com Maria sentada no seu apartamento degradado a ver televisão, até que um noticiário interrompe o programa para anunciar uma catástrofe iminente. Preocupada, Maria decide ir ao encontro da mãe, deslocando-se até à aldeia onde esta vive. Quando lá chega, encontra um cenário de caos absoluto, com habitantes infectados e uma sensação constante de que algo correu terrivelmente mal.

A história tem um claro sabor a filme de terror de baixo orçamento, mas isso joga a seu favor. O tom nunca se leva demasiado a sério e abraça o exagero, criando uma atmosfera que mistura tragédia com momentos quase caricatos. Maria é uma protagonista surpreendentemente carismática, e a relação com o ex-marido ajuda a dar alguma profundidade emocional à narrativa. Pequenos diálogos surgem à medida que recolhemos itens, funcionando como monólogo interno e ajudando a definir a sua personalidade.

Existem várias personagens secundárias ao longo do caminho, cada uma contribuindo para a sensação de um mundo que colapsou de forma abrupta. A tradução nem sempre é perfeita e há falas que soam estranhas ou pouco naturais, mas como a história não é particularmente profunda, isso acaba por não quebrar demasiado a imersão. O foco está mais na atmosfera e no contexto do que numa narrativa complexa e cheia de reviravoltas.

Grafismo

Visualmente, EBOLA VILLAGE é um jogo de contrastes. Por um lado, nota-se claramente que foi desenvolvido por uma equipa pequena, com modelos de personagens que parecem saídos de uma geração anterior. As animações são algo rígidas e os inimigos, apesar de eficazes no papel, não impressionam pela sofisticação técnica. Por outro lado, os cenários conseguem surpreender em vários momentos, especialmente no detalhe ambiental.

Os interiores, desde o apartamento inicial até às casas da aldeia, estão cheios de pequenos pormenores que ajudam a contar histórias sem palavras. A arquitetura e a decoração têm uma identidade russa muito marcada, algo pouco comum no género, e isso ajuda a diferenciar EBOLA VILLAGE de outras experiências semelhantes. No exterior, a aldeia transmite bem a sensação de abandono e perigo iminente, com ruas estreitas, edifícios em ruínas e uma iluminação que reforça constantemente a tensão.

Um dos aspetos mais memoráveis do grafismo é o nível de gore. Os combates são bastante explícitos e reagem de forma convincente aos disparos. Um tiro bem colocado pode arrancar pedaços de carne ou expor ossos antes do inimigo cair definitivamente, criando um feedback visual satisfatório para quem aprecia este lado mais cru do horror.

Som

O trabalho sonoro é outro dos pontos fortes do jogo. A banda sonora surge de forma pontual, mas quando aparece é eficaz a criar tensão ou dramatismo. Não estamos perante melodias memoráveis no sentido clássico, mas sim faixas funcionais que acompanham bem a ação e reforçam o ambiente opressivo. Logo no início, uma canção de inspiração folclórica destaca-se e ajuda a estabelecer o tom cultural do jogo, ficando facilmente no ouvido.

Os efeitos sonoros cumprem bem o seu papel, desde os gemidos dos infectados até aos sons secos das armas. O voice-over é apresentado na língua nativa, o que contribui bastante para a autenticidade da experiência, mesmo que a compreensão dependa de legendas. Este detalhe ajuda a vender a ideia de que estamos num lugar específico, com uma identidade própria, em vez de mais um cenário genérico de apocalipse.

Conclusão

EBOLA VILLAGE é um jogo imperfeito, com arestas por limar e decisões de design que nem todos vão apreciar. A jogabilidade rígida, os sistemas antiquados e a gestão de inventário exigente podem afastar jogadores menos pacientes. No entanto, para quem cresceu a jogar survival horror nos anos 90, ou simplesmente para quem aprecia esse tipo de experiência, há aqui muito para gostar.

A combinação de uma história simples mas eficaz, uma protagonista carismática, ambientes bem construídos e combates sangrentos resulta numa homenagem sincera aos clássicos do género. EBOLA VILLAGE não tenta esconder as suas influências, antes as celebra, e fá-lo com uma identidade própria suficiente para justificar a viagem. É um jogo que se sente feito por fãs, para fãs, e que encontra o seu valor precisamente nesse amor declarado ao passado. Para quem aceita entrar nesse espírito, esta aldeia infectada tem muito para oferecer.

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