Análise: Forsaker:DingDing&Blade

O título Forsaker: DingDing & Blade pode fazer qualquer pessoa franzir o sobrolho. É o tipo de nome que parece saído de uma tradução automática ou de uma piada interna que nunca devíamos ter ouvido. Mas, por vezes, é precisamente nesses jogos de aparência duvidosa que se escondem surpresas interessantes. Forsaker: DingDing & Blade é um visual novel com elementos de RPG de cartas, uma combinação invulgar que, à primeira vista, desperta curiosidade. Será este o próximo grande título híbrido entre visual novel e RPG, ou confirma-se que o nome já era um aviso?

A resposta, como quase sempre, está algures no meio. O jogo surpreende pela sua estrutura e ambição, apresentando uma narrativa complexa e um sistema de combate que vai muito além do que seria esperado. Apesar de falhas evidentes e momentos de frustração, Forsaker: DingDing & Blade consegue afirmar-se como uma experiência única, especialmente para quem gosta de jogos narrativos com camadas de estratégia.

Jogabilidade

Ao iniciar Forsaker, a primeira impressão não é a melhor. O jogo tem pequenos problemas técnicos logo à partida — como congelar se o jogador clicar durante o carregamento — e o menu inicial aparece em chinês antes de mudar para inglês. É um começo algo trapalhão, mas rapidamente se percebe que há mais por detrás dessa fachada instável.

O jogo divide-se em dois modos principais: Story e Adventure Challenge. O primeiro é o modo visual novel tradicional, centrado na leitura, nas escolhas de diálogo e nas ramificações narrativas. O segundo mistura elementos de exploração e combates com cartas, criando uma experiência que se aproxima mais de um RPG estratégico. Esta divisão é inteligente, pois permite que cada tipo de jogador escolha a sua abordagem favorita.

No modo Story, o jogador limita-se a ler e a tomar decisões. As cenas mudam de cenário conforme a narrativa avança, e as opções de diálogo determinam o rumo da história e o destino das personagens. A escrita é extensa e detalhada, com múltiplas ramificações e finais alternativos, garantindo uma boa longevidade para quem gosta de visual novels tradicionais. Já no modo Adventure Challenge, a estrutura muda completamente. O jogador avança num tabuleiro, encontrando eventos, armadilhas, batalhas e cenas narrativas. As batalhas são resolvidas através de um sistema de cartas e pontos de ação (AP). Cada carta tem um custo, e o turno termina quando os pontos se esgotam. O baralho inclui ataques, defesas, efeitos de status e cartas demoníacas, estas últimas geralmente negativas e que aumentam o custo ou enfraquecem as ações.

A criação de um baralho eficaz requer experimentação e paciência. As sinergias entre cartas e personagens são essenciais, e é aqui que Forsaker ganha profundidade. O jogador pode melhorar estatísticas como a vida ou o escudo inicial, e os companheiros também evoluem com habilidades próprias. A gestão da equipa é fundamental: uma personagem com foco em defesa pode salvar a batalha se usada no momento certo.

Contudo, a dificuldade cresce de forma acentuada a partir do segundo capítulo. Inimigos comuns tornam-se mais resistentes, e os bosses exigem um planeamento rigoroso. O jogo força o jogador a repetir batalhas e a melhorar o baralho, o que pode cansar quem procura apenas a vertente narrativa. Mas para os fãs de desafios estratégicos, o sistema de cartas acaba por ser uma das partes mais recompensadoras.

Mundo e história

A maior surpresa de Forsaker: DingDing & Blade está na sua narrativa. O jogo apresenta uma história complexa e surpreendentemente sombria, dividida entre várias personagens e linhas de tempo. O enredo mergulha em temas pesados como a guerra, a religião, a escravidão e a sobrevivência. Não há heróis perfeitos nem vilões caricaturais — apenas pessoas moldadas por circunstâncias brutais.

O tom do jogo alterna entre fantasia e terror psicológico. Por vezes, parece uma história de redenção; noutras, um retrato cru da decadência humana. A escrita é madura e ousada, não evitando cenas de violência ou situações emocionalmente intensas. Há momentos que chocam, não apenas pelo que é mostrado, mas pelo que é dito.

Esta profundidade narrativa distingue Forsaker de muitas visual novels do mesmo género. Cada escolha pode alterar drasticamente o rumo da história, e as múltiplas perspetivas ajudam a construir um mundo coeso e intrigante. A forma como o jogo equilibra o sobrenatural e o humano é especialmente bem conseguida, e mesmo os momentos mais desconcertantes contribuem para a força do enredo.

Grafismo

Visualmente, Forsaker: DingDing & Blade oferece um trabalho de qualidade irregular, mas com momentos de verdadeiro destaque. As ilustrações principais são ricas em detalhe e combinam bem o estilo anime com uma estética de fantasia sombria. O contraste entre as cenas mais leves e os momentos de brutalidade funciona bem, reforçando a dualidade da narrativa.

As CGs (imagens estáticas usadas para eventos importantes) estão entre os pontos altos do jogo, apresentando composições fortes e expressivas. O design das personagens principais é consistente e memorável, embora algumas figuras secundárias e monstros pareçam menos trabalhados. Quando o jogo se aproxima do horror, as imagens tornam-se particularmente impressionantes, conseguindo criar desconforto sem recorrer ao grotesco.

Apesar de algumas falhas na coerência visual, Forsaker mantém uma identidade artística própria. O uso de cores e sombras ajuda a transmitir o peso emocional das cenas, e há uma atenção notável aos detalhes nas expressões das personagens.

Som

É na componente sonora que o jogo mais falha. A banda sonora é funcional, mas pouco inspirada. As faixas musicais repetem-se com frequência e parecem recicladas de outros jogos, faltando-lhes identidade. Durante as secções narrativas, cumprem o seu papel, mas nos combates o loop constante torna-se cansativo.

Os efeitos sonoros são discretos e raramente contribuem para a imersão. A ausência de vozes ou de variação sonora nas batalhas faz com que a experiência perca intensidade. Se houvesse uma maior diversidade musical ou efeitos mais expressivos, o jogo poderia transmitir melhor as emoções que a história tenta evocar.

Conclusão

Forsaker: DingDing & Blade é um daqueles casos em que o título esconde um jogo mais interessante do que parece. A mistura de visual novel com RPG de cartas funciona melhor do que o esperado, e a profundidade da narrativa é notável. É um jogo que tenta muito, e embora nem tudo resulte — sobretudo no som e no equilíbrio da dificuldade —, o resultado final é surpreendentemente sólido.

Os fãs de visual novels vão apreciar a complexidade da história e a maturidade dos temas, enquanto os jogadores que preferem mecânicas estratégicas encontrarão no modo Adventure Challenge uma boa dose de desafio e personalização. O preço acessível ajuda a torná-lo ainda mais apelativo, mesmo com os seus defeitos técnicos e musicais.

No fim, Forsaker: DingDing & Blade é um projeto ambicioso que supera as expectativas criadas pelo seu nome excêntrico. Não é perfeito, mas é uma obra que demonstra criatividade, coragem e um entendimento raro de como combinar narrativa e mecânica de jogo de forma coerente e envolvente.

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