Análise: NetherWorld

NetherWorld é um jogo indie que não passa despercebido. A junção entre ação 2D em estilo pixel art e uma narrativa claramente adulta faz dele uma proposta ousada. O tom bizarro e irreverente imediatamente nos chama à atenção, com uma premissa invulgar: ser uma água-viva azarada chamada Medoo, abandonada pela esposa e à beira de um colapso alcoólico. Desde logo percebemos que não se trata de uma aventura para todos os públicos. A presença de temas como uso de drogas, humor negro, nudez, violência explícita e linguagem vulgar coloca o jogo numa categoria que exige maturidade do jogador. Mas será que esta ousadia narrativa se traduz num jogo agradável, fluido e coerente no todo? Vamos descobrir.

Jogabilidade
NetherWorld aposta numa jogabilidade tradicional de ação-aventura 2D com mecânicas relativamente simples mas exigentes na execução. Movimentamo-nos pelos cenários com o stick analógico esquerdo, com possibilidade de correr ao dar duplo toque. A ação de interagir com elementos ocorre via botão A, e alternar entre objetos interagíveis faz-se via X. No combate, o stick direito serve para apontar armas ou objetos lançáveis, e o botão ZR é usado tanto para disparar como para consumir itens quando apropriado. A gestão de munições e recarga (botão Y) adiciona uma camada de tensão nos confrontos. Há ainda uma distinção entre armas de diferentes categorias — pistolas, espingardas, metralhadoras — que podem ser trocadas rapidamente via D-Pad, e dentro de cada categoria através de L e R. Quando o personagem alterna para Tick Joe, entram novas mecânicas: duplo salto, disparo de laser e um escudo-dash para esquiva/táticas defensivas. Estas variações ajudam a quebrar a monotonia do combate puro, oferecendo momentos distintos. Há ainda opções de acessibilidade — “Accessible Fights” para aumentar a barra de vida nos combates e mini-jogos, QTE acessível e até filtro NSFW — que permitem que o jogador module o grau de desafio ou a exposição ao conteúdo adulto. Estas escolhas são bem-vindas, sobretudo num título que claramente quer misturar narrativa com ação sem esmagar o jogador.

Mundo e história
O mundo de NetherWorld é decadente, surreal e povoado por personagens que beiram o grotesco: magos dependentes de cocaína, prostitutas empreendedoras, gangsters, crianças sociopatas e pervertidos antigos. Tudo isto gira numa narrativa centrada no fracasso pessoal de Medoo, na sua tentativa de reorganizar a vida após a partida de Clarisse e o esgotamento de seu “estoque de emergência” alcoólico. A história evolui através de interações e mini-jogos (competições de bebida, sexo, tiroteios, exploração de masmorras subterrâneas com Tick Joe) que servem tanto para obter recursos como para avançar no enredo. É um mundo que não tenta ser moral: mostra os excessos, a degeneração e o lado sujo da vida, com uma pitada grotesca e um humor negro constante. Para quem procura enredos profundos e personagens redentoras, este pode não ser o jogo ideal, mas para quem gosta de propostas provocatórias e que desafiam o conforto, NetherWorld cumpre bem o papel. A narrativa não é linear ou tradicional, e muitas vezes é preciso aceitar saltos e contracções para seguir a experiência.

Grafismo
Em termos visuais, NetherWorld adopta um estilo pixel art, remetendo para jogos clássicos mas com detalhes modernos. A estética é crua, com cores fortes, contrastes nítidos e cenários que misturam o mundano e o bizarro num mesmo espaço. Os personagens têm traços exagerados, as expressões corporais são simplificadas mas eficazes, e os cenários estão repletos de elementos estranhos, criaturas sujas e ambientes decadentes que reforçam o tom sombrio e absurdo do jogo. Para quem aprecia pixel art com carácter e personalidade, NetherWorld oferece isso em abundância — não é minimalismo urbano moderno, mas uma arte que grita. No entanto, por vezes a clareza visual padece: em momentos de ação intensa, com muitos efeitos ou projéteis no ecrã, pode haver confusão visual ou dificuldade em distinguir elementos interativos. Ainda assim, o conjunto visual funciona bem como veículo para a atmosfera.

Som
A componente sonora de NetherWorld acompanha o tom adulto do jogo. A banda sonora tende para música ambiental sombria, por vezes ladeada por sintetizadores, ressoando bem com o ambiente decadente. Os efeitos sonoros são directos e até rudes: disparos, colisões, interacções com objetos ou diálogos com linguagem vulgar são audíveis e, por vezes, choque intencional. A voz dos personagens surge pontualmente em falas e diálogos, o que ajuda a trazer peso narrativo. O jogo não tenta ocultar — antes pretende chocar e envolver — e nesta vertente sonora cumpre. Não encontrei (na informação pública disponível) registos de falhas sonoras relevantes, o que sugere que a implementação é sólida. O filtro NSFW mencionado sugere que há partes audíveis ou visuais com conotação sexual que alguns podem preferir evitar, e é bom que haja opção para isso.

Conclusão
NetherWorld é um jogo que não se esconde atrás de panos: é provocador, adulto, bizarro e arriscado. Para quem procura uma narrativa convencional e linear com grande profundidade emocional, pode ficar desapontado. Mas para quem gosta de surpresas, de humor negro, de temas tabus e de uma mistura entre narrativa e ação, este título apresenta uma proposta refrescante — ainda que imperfeita. A jogabilidade é sólida e variada, com mecânicas bem integradas e acessibilidade ajustável. O mundo é estranho e intenso, o grafismo tem carácter próprio, e o som complementa adequadamente a atmosfera. Pode pecar em momentos de confusão visual ou falta de polimento, mas no cômputo geral cumpre o seu propósito: não te deixar indiferente. Se tens 18 anos ou mais, curiosidade por experiências fora do comum e estômago para humor negro e conteúdo adulto, NetherWorld merece uma olhada.

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