Análise: Roguematch : The Extraplanar Invasion

Match-3 é daqueles géneros que já chega às nossas mãos com um pesado fardo às costas. Anos e anos de clones em lojas mobile fizeram com que a simples menção ao termo provoque, na melhor das hipóteses, indiferença, e na pior, um revirar de olhos acompanhado por um suspiro cansado. É um género saturado, explorado até à exaustão, muitas vezes reduzido a mecânicas básicas envolvidas em sistemas de monetização agressivos. Por isso mesmo, quando surge um jogo que decide pegar nessa fórmula gasta e misturá-la com algo tão improvável como um dungeon crawler com elementos roguelike, a reação inicial é, no mínimo, de cepticismo. Roguematch: The Extraplanar Invasion aparece exatamente nesse cruzamento improvável e, contra todas as expectativas, consegue não só justificar a sua existência como provar que ainda há espaço para inovação dentro de géneros aparentemente esgotados.

Longe de ser apenas mais um puzzle disfarçado de jogo de aventura, Roguematch assume-se desde cedo como uma experiência híbrida, onde cada movimento no tabuleiro tem consequências diretas na exploração, no combate e na progressão da personagem. O resultado é um jogo surpreendentemente envolvente, capaz de agarrar tanto fãs de puzzles como jogadores habituados a roguelikes mais tradicionais. Não reinventa completamente nenhum dos géneros que mistura, mas combina-os de forma suficientemente inteligente para se destacar da multidão e deixar uma impressão duradoura.

Jogabilidade

À primeira vista, Roguematch parece um match-3 clássico: um tabuleiro cheio de gemas, aqui tratadas como mana, onde o objetivo passa por alinhar peças iguais. A grande diferença está no facto de este tabuleiro não ser um espaço abstrato, mas sim o próprio campo de jogo. Cada movimento que fazemos com as gemas corresponde também a um movimento da personagem dentro das salas do castelo. Andar, atacar, usar habilidades ou interagir com inimigos está tudo ligado às combinações que fazemos no ecrã.

O sistema base é simples de compreender. Movemos as gemas em quatro direções e tentamos alinhar pelo menos três do mesmo tipo. Combinações maiores geram efeitos especiais, como estrelas que limpam todas as gemas de um determinado tipo ou até o tabuleiro inteiro, causando danos massivos aos inimigos presentes. Estas mecânicas não são novas para quem já jogou outros match-3, mas ganham aqui um peso estratégico bem maior, já que cada decisão pode significar a diferença entre sair ileso de uma sala ou perder uma boa parte da vida.

O combate é direto e eficaz. Os inimigos reagem às nossas combinações, sofrendo dano quando usamos as gemas certas, mas também podem curar-se se abusarmos de tipos de mana aos quais são resistentes. Este sistema de fraquezas e curas adiciona uma camada estratégica inesperada, obrigando o jogador a pensar antes de fazer combinações automáticas. Não se trata apenas de limpar o tabuleiro o mais depressa possível, mas de escolher bem que gemas usar em cada situação.

Para além das gemas, existem armas e itens que podem ser encontrados ao longo da exploração, como espadas e varinhas, que permitem ataques diretos. Ainda assim, o jogo incentiva claramente o uso do match-3 como principal ferramenta de combate, deixando as armas como recurso secundário ou de emergência. É uma escolha acertada, pois mantém o foco na identidade do jogo e evita que as mecânicas se dispersem demasiado.

Mundo e história

A premissa narrativa é simples, mas funcional. O jogador assume o papel de um de seis heróis que exploram um castelo amaldiçoado em busca do Nekonomicon, um livro lendário envolto em mistério e perigo. Cada tentativa é uma nova incursão, com salas, inimigos e itens gerados de forma semi-aleatória, respeitando a tradição roguelike.

O jogo não tenta contar uma história profunda ou cheia de reviravoltas, mas o mundo é suficientemente carismático para despertar curiosidade. Os diálogos são curtos, muitas vezes humorísticos, e ajudam a dar personalidade às personagens sem interromper o ritmo da ação. Existe uma clara preocupação em criar um ambiente leve, mesmo quando o tema envolve invasões extraplanares e castelos cheios de monstros.

Entre as incursões, encontramos NPCs que funcionam como pontos de apoio. As formigas comerciantes, por exemplo, trazem algum charme e utilidade prática, oferecendo mapas e melhorias entre andares. Já outras personagens acabam por dividir opiniões, não por estarem mal escritas, mas por terem uma presença mais fria e distante, o que contrasta com o tom geral do jogo. Ainda assim, nada disto chega a comprometer a experiência global.

Grafismo

Visualmente, Roguematch aposta num estilo simples, colorido e bastante legível. O design das salas, inimigos e personagens é claro, o que é essencial num jogo onde a informação visual precisa de ser rapidamente interpretada. As gemas distinguem-se facilmente entre si e os efeitos especiais nunca se tornam confusos, mesmo quando o ecrã está cheio de animações.

Os inimigos são variados e, em muitos casos, surpreendentemente expressivos. Alguns são até adoráveis, o que cria um contraste curioso quando estamos a eliminá-los sem piedade através de combinações bem planeadas. Os bosses, em particular, destacam-se pelo tamanho e pelos padrões de ataque visíveis, reforçando a componente estratégica do combate.

Não é um jogo que impressione pelo detalhe técnico ou realismo, mas a direção artística é consistente e adequada ao tom da experiência. Tudo funciona em conjunto para criar um mundo acolhedor, mesmo quando a dificuldade aumenta.

Som

O trabalho sonoro é um dos pontos altos de Roguematch. A banda sonora acompanha a ação de forma eficaz, misturando temas de fantasia com um toque leve e quase brincalhão. Há músicas que evocam grandes aventuras épicas, enquanto outras remetem para algo mais descontraído, criando um equilíbrio interessante que evita que o jogo se leve demasiado a sério.

Em vez de vozes completas, o jogo opta por pequenos sons que simulam fala, à semelhança de clássicos como Banjo-Kazooie. Esta escolha resulta surpreendentemente bem, dando personalidade às personagens sem quebrar o ritmo ou se tornar cansativa. Alguns destes sons são genuinamente engraçados e contribuem para o charme geral da experiência.

Os efeitos sonoros das gemas, ataques e habilidades são claros e satisfatórios, reforçando a sensação de impacto sempre que fazemos uma boa combinação ou derrotamos um inimigo mais resistente.

Conclusão

Roguematch: The Extraplanar Invasion é um excelente exemplo de como géneros considerados gastos ainda podem dar origem a experiências frescas quando combinados com criatividade e atenção ao detalhe. Ao fundir match-3 com dungeon crawling e elementos roguelike, o jogo cria uma identidade própria, capaz de prender o jogador durante horas sem recorrer a truques baratos ou frustrações artificiais.

Não é um jogo particularmente difícil e jogadores à procura de um desafio mais punitivo podem achar a experiência demasiado acessível. Ainda assim, essa abordagem torna-o mais convidativo e viciante, ideal para sessões prolongadas onde o pensamento estratégico é recompensado sem castigar excessivamente os erros.

Com uma jogabilidade sólida, um mundo simpático, uma apresentação visual consistente e uma componente sonora cheia de personalidade, Roguematch consegue algo raro: fazer-nos dizer só mais uma jogada, repetidamente, enquanto avançamos mais um piso no castelo. Para quem já desistiu do match-3 ou nunca imaginou ver o género misturado com um roguelike, esta é uma surpresa muito agradável e um jogo que merece ser descoberto.

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