Sushi Ben é um daqueles jogos que desde o primeiro momento recusa ser facilmente catalogado num único género. A sua proposta mistura aventura narrativa, minijogos peculiares e um estilo visual inspirado no manga, oferecendo uma experiência que se destaca pela originalidade e pelo humor. A missão central parece simples: salvar uma pequena loja de sushi de cair nas mãos erradas. Mas à medida que a história se desenrola, percebe-se que este é apenas o ponto de partida para uma sucessão de encontros bizarros, situações hilariantes e momentos inesperadamente emocionantes. O resultado é um jogo que, apesar das suas falhas técnicas, conquista pela personalidade e pelo coração.
Jogabilidade
A jogabilidade de Sushi Ben tem raízes no VR, sendo essa a sua plataforma original, mas o jogo também pode ser totalmente desfrutado fora desse formato. Curiosamente, apesar de alguns elementos denunciarem a sua origem pensada para controlos de movimento, a experiência continua sólida em ecrãs tradicionais. A base do jogo não é a gestão direta da loja de sushi, mas sim a realização de atividades variadas que servem para aproximar o protagonista dos habitantes da cidade e ajudá-los nos seus problemas.
Entre as tarefas encontramos pesca, caçar insetos, apanhar ingredientes e até controlar pequenos porcos bebés. Esta diversidade garante que o jogador nunca fica demasiado tempo preso a uma só mecânica. Ainda assim, algumas destas atividades são mais polidas do que outras. A pesca, por exemplo, apresenta controlos que parecem pouco naturais fora de VR, tornando-se mais frustrante do que divertida nas primeiras horas. Também a interação com o sistema de inventário pode ser estranha, sobretudo quando dependemos de personagens para servir como “mochila” temporária. No entanto, com atualizações ou simples progressão na narrativa, muitos destes problemas acabam por ser minimizados.

Mundo e história
A narrativa é um dos pontos mais fortes de Sushi Ben. O enredo começa com o dono da loja a abandonar temporariamente a cidade em busca de novos ingredientes, deixando o aprendiz encarregado do negócio. O problema é que dois vilões excêntricos querem comprar todos os estabelecimentos locais para demolir a cidade e dar lugar a novos empreendimentos. Estes antagonistas são tão exagerados que lembram diretamente personagens de animação como Jessie e James de Pokémon, e cada encontro com eles é uma mistura deliciosa de comédia slapstick e vilania caricata.
Enquanto isso, cabe ao jogador ajudar o aprendiz a recolher os ingredientes e a prestar auxílio à população local. Cada missão revela novas figuras excêntricas, com personalidades muito distintas, e interagir com elas é sempre uma surpresa. Por vezes, a narrativa faz rir com as situações absurdas, noutras consegue transmitir uma dose de emoção que dá profundidade à experiência. Este equilíbrio entre humor e momentos sinceros dá ao jogo uma identidade única e mantém o jogador sempre curioso sobre o que vai acontecer a seguir.
Grafismo
Visualmente, Sushi Ben aposta num estilo colorido e estilizado, de formas simples e blocos bem definidos. Embora à primeira vista pareça minimalista, o jogo rapidamente surpreende pela forma criativa como apresenta os diálogos e tutoriais. Em vez de recorrer a caixas de texto comuns, utiliza painéis inspirados em manga que aparecem no ecrã como se de uma banda desenhada se tratasse. Este detalhe não só torna a leitura mais dinâmica, como dá ao jogo uma identidade marcante e memorável.
A escolha estética encaixa na perfeição com o tom do jogo: exagerado, divertido e cheio de energia. Cada personagem ganha vida com este estilo, destacando-se visualmente e reforçando o humor e a personalidade do enredo. Apesar de não ser um jogo que impressione pela fidelidade gráfica ou pelo realismo, Sushi Ben compensa isso com estilo e criatividade, o que acaba por ser muito mais relevante neste contexto.

Som
No campo sonoro, Sushi Ben revela outro dos seus pontos fortes. Todos os personagens contam com dobragem completa, algo raro em produções independentes, e isso acrescenta imenso à experiência. As vozes ajudam a reforçar a comicidade e a dar personalidade às figuras, sobretudo no caso dos vilões, que soam ainda mais caricatos graças à interpretação exagerada dos atores.
A banda sonora complementa bem o ambiente, com melodias leves e adequadas ao tom descontraído e cómico do jogo. Os efeitos sonoros, ligados às várias atividades, também cumprem o seu papel e tornam cada tarefa mais envolvente. A conjugação entre vozes, música e efeitos cria uma atmosfera vibrante, que reforça o lado alegre e carismático de Sushi Ben.
Conclusão
Sushi Ben é um jogo que não se define pela perfeição das suas mecânicas, mas sim pelo charme da sua narrativa e pela personalidade inesquecível das suas personagens. É um título que aposta mais na criatividade, no humor e no estilo visual do que em sistemas complexos ou realismo técnico. As suas raízes no VR fazem-se sentir em certos momentos, sobretudo em atividades como a pesca, que parecem mais adequadas ao controlo por movimento. Ainda assim, mesmo fora dessa plataforma, o jogo mantém-se divertido e cativante.
O que faz de Sushi Ben uma experiência memorável é o seu equilíbrio entre humor e emoção, o estilo visual inspirado em manga que dá frescura às conversas, e o elenco de personagens excêntricas que rapidamente conquistam o jogador. Pode não ser perfeito em termos de jogabilidade, mas compensa com um coração enorme e uma criatividade que se destaca no panorama indie.
Para quem procura um jogo com identidade, personalidade e boas doses de gargalhadas, Sushi Ben é uma aposta segura. É uma aventura que diverte, surpreende e deixa a vontade de regressar àquela pequena cidade sempre que apetecer mais uma fatia de humor e de originalidade.