The Cabin Factory é um jogo que não tenta disfarçar o seu propósito: assustar o jogador até ao limite. Desenvolvido pela International Cat Studios e publicado pela Future Friends Games, este título de terror e simulação chega ao PC com uma proposta simples, mas eficaz — percorrer cabanas e determinar se estão assombradas. O conceito pode parecer inofensivo, mas rapidamente se percebe que este é um daqueles jogos que testam os nervos de qualquer jogador.
Enquanto muitos títulos do género optam por um ambiente mais contido e previsível, The Cabin Factory aposta no desconforto constante e numa atmosfera densa, onde a cada passo se sente a presença de algo invisível. É uma experiência que afasta por completo a ideia de jogo “cozy” — aliás, é o primeiro jogo a merecer um “cozy score” de zero, e com razão.
Apesar do seu preço reduzido, The Cabin Factory oferece uma experiência de terror intensa e muito própria. Mas será que consegue equilibrar bem o medo com a diversão?
Jogabilidade
A jogabilidade base de The Cabin Factory é simples em conceito, mas complexa na execução. O jogador assume o papel de um inspetor de cabanas com a tarefa de determinar se cada uma delas está assombrada. O processo parece direto: caminhar pelos vários compartimentos e observar se algo se move. Caso detete movimento, deve carregar no botão de alarme; se tudo parecer normal, o espaço é considerado seguro.
Mas o jogo rapidamente quebra as expectativas. Ao contrário de outros títulos semelhantes, como Exit 8, o jogador não está à procura de diferenças subtis entre ambientes estáticos, mas sim de movimentos ativos. E nem sempre o que se move é sinal de perigo. Esta ambiguidade cria um desafio constante — algo que parece óbvio pode ser uma armadilha, e o que parece suspeito pode ser apenas um detalhe inocente.
Há personagens recorrentes nas cabanas, como um pai e um filho, e por vezes surgem outros membros da família. No entanto, a sua presença nem sempre significa que algo está errado. A aprendizagem das regras específicas de cada cabana torna-se essencial, mas também frustrante, pois nem sempre as regras são coerentes entre si.
Com o tempo, o jogador aprende que o terror em The Cabin Factory vem tanto das regras imprevisíveis como do medo constante de falhar. Há momentos em que o movimento é quase impercetível — um brinquedo que cresce lentamente, um quadro que parece ganhar vida, ou até uma figura que se move ao fundo da sala. E sim, há situações em que algo realmente o persegue, e se for apanhado, o progresso é reiniciado.

Mundo e história
O enredo em The Cabin Factory é apresentado de forma subtil, quase fragmentada. Cada cabana parece ter a sua própria história, um passado sombrio que o jogador vai descobrindo aos poucos. Em certos momentos, são ativadas sequências de “lore” que revelam tragédias passadas e pistas sobre a ligação do protagonista aos antigos habitantes das cabanas.
Não há grandes cutscenes nem longos diálogos — o jogo aposta na narrativa ambiental, permitindo que o jogador monte o puzzle à medida que avança. A repetição de visitas às cabanas, o aparecimento súbito de novos elementos e as mudanças subtis nos objetos reforçam a sensação de que cada local guarda um segredo à espera de ser revelado.
O jogador sente-se preso num ciclo, como se estivesse a investigar o mesmo lugar em dimensões diferentes, cada uma com as suas próprias regras. Esta estrutura narrativa cria um misto de curiosidade e desespero, levando o jogador a querer descobrir mais, mesmo quando o medo começa a pesar.
No final, The Cabin Factory não oferece respostas diretas, mas deixa espaço para interpretações. A presença das figuras familiares e os detalhes que mudam entre cabanas sugerem que o jogo esconde mais do que aparenta — talvez uma reflexão sobre o próprio medo, ou sobre o peso da rotina e da repetição.
Grafismo
Visualmente, The Cabin Factory adota um estilo realista, mas com um toque ligeiramente surreal que contribui para o desconforto. As cabanas são representadas com detalhes mínimos mas eficazes: móveis gastos, iluminação fraca e sombras que parecem ganhar forma própria.
A repetição dos mesmos espaços funciona a favor da atmosfera. Quanto mais tempo o jogador passa na mesma cabana, mais atento fica às pequenas mudanças — e é precisamente essa atenção que o jogo explora para gerar medo. Um quadro que se torce, uma figura que aparece onde antes não estava, um objeto que cresce silenciosamente — tudo é subtil o suficiente para criar dúvida, e essa dúvida é o verdadeiro motor do terror.
O design dos personagens é igualmente inquietante. As expressões estáticas, o olhar vazio e os movimentos quase impercetíveis dão-lhes um ar de presença fantasmagórica, mesmo quando teoricamente são apenas pessoas normais. A ausência de cor viva e o uso de iluminação amarelada reforçam o ambiente de decadência e isolamento.

Som
O som é o coração de The Cabin Factory. Cada estalido, cada ruído distante, cada respiração serve para aumentar a tensão. O silêncio domina grande parte do jogo, e quando algo quebra esse silêncio, o impacto é imediato.
Há momentos em que um rádio liga sozinho ou em que se ouve uma gargalhada infantil ao fundo — sinais que podem ou não significar perigo. Esta incerteza faz com que o jogador questione constantemente os seus sentidos. O design sonoro é propositadamente inconsistente: às vezes o som é apenas um detalhe ambiental, noutras é um indício de que algo terrível está prestes a acontecer.
Os sustos não dependem de música alta ou efeitos sonoros exagerados, mas sim do contraste entre o silêncio e o inesperado. Esta abordagem torna o jogo mais psicológico do que físico, e é isso que o torna tão eficaz.
Conclusão
The Cabin Factory é um dos jogos de terror mais interessantes e inquietantes do género “spot the difference”. O seu conceito simples é elevado por uma execução inteligente e uma atmosfera genuinamente assustadora. É um título que obriga o jogador a estar constantemente atento, mas também o deixa desconfortável por nunca saber ao certo quais são as regras do mundo em que se move.
Não é um jogo para todos. Os fãs de experiências relaxantes devem mantê-lo à distância, mas para quem procura um terror psicológico que mistura tensão constante, repetição e imprevisibilidade, este é um pequeno achado.
Com um preço acessível e uma duração modesta, The Cabin Factory consegue aquilo que muitos títulos de terror mais caros falham em alcançar: criar medo genuíno sem depender de truques baratos. É uma experiência intensa, que deixa o coração acelerado e o jogador com vontade de fazer uma pausa — talvez com uma chávena de chá e um jogo mais solarengo a seguir.
The Cabin Factory é, acima de tudo, um lembrete de que o medo está nos detalhes e que, às vezes, basta um leve movimento para transformar o familiar em algo terrivelmente estranho.