Análise: The Last Ninja Collection + Bonus Games

The Last Ninja Collection + Bonus Games é muito mais do que uma simples compilação de jogos antigos. É um verdadeiro documento histórico que reúne alguns dos títulos mais marcantes da era dourada dos computadores domésticos, com especial foco no Commodore 64, mas sem esquecer o Amiga e o ZX Spectrum. Desenvolvida pela System 3, esta coleção presta homenagem a uma fase em que o desenvolvimento de videojogos era feito com engenho, experimentação constante e uma enorme vontade de empurrar limites técnicos que, muitas vezes, pareciam intransponíveis.

Estamos a falar de sete jogos icónicos: a trilogia completa de The Last Ninja, Last Ninja 2 e Last Ninja 3, acompanhada por Ninja Remix, bem como International Karate, IK+ e Bangkok Knights. Todos eles ajudaram a definir géneros, estilos visuais e abordagens de design que ainda hoje se sentem na indústria.

Lançada graças ao apoio de uma comunidade apaixonada no Kickstarter, esta coleção surge também como um manifesto a favor da preservação dos videojogos. Ao disponibilizar versões fiéis e cuidadosamente emuladas destes clássicos em PC moderno, elimina-se a necessidade de emuladores pouco fiáveis, ROMs dispersas ou hardware antigo cada vez mais difícil de manter. É um regresso ao passado feito com respeito e atenção ao detalhe.

Jogabilidade

A jogabilidade é, talvez, o aspeto onde esta coleção mais brilha enquanto exercício de preservação. Todos os jogos mantêm exatamente o comportamento original, desde a resposta dos controlos à cadência das animações e à exigência dos saltos pixel-perfect. Quem jogou The Last Ninja nos anos 80 vai reconhecer imediatamente o ritmo deliberado do movimento, a importância do posicionamento e a necessidade de observar cuidadosamente o cenário antes de agir.

Na série The Last Ninja, a jogabilidade assenta numa mistura muito própria de exploração isométrica, combate corpo a corpo e resolução de puzzles. Não há tutoriais, não há concessões modernas. Aprende-se jogando, errando e repetindo. Cada ecrã é um pequeno desafio, seja para descobrir o objeto certo, seja para enfrentar inimigos que exigem precisão e timing rigoroso.

Last Ninja 2 introduz melhorias claras, com cenários mais variados e uma progressão mais ambiciosa, incluindo a transição para uma Nova Iorque contemporânea. Já Last Ninja 3 refina a fórmula, tornando-a mais fluida e polida, ao ponto de ter sido, na altura, o primeiro jogo de computador a receber uma pontuação perfeita numa análise. Do lado dos jogos de luta, International Karate e IK+ continuam surpreendentemente sólidos. Os controlos são simples, mas eficazes, e a fluidez das animações continua impressionante, sobretudo tendo em conta o hardware original. IK+ destaca-se ainda pelo modo para três jogadores, uma raridade absoluta na época e que continua a ser uma curiosidade deliciosa hoje em dia. Bangkok Knights, por sua vez, aposta numa abordagem mais pesada e distinta, com personagens grandes e estilos de luta inspirados no Muay Thai.

A inclusão de save states por jogo é uma das poucas concessões modernas, e uma absolutamente bem-vinda. Jogos que antes exigiam sessões longas e ininterruptas passam agora a ser mais acessíveis, sem comprometer a experiência original.

Mundo e história

Apesar das limitações técnicas da época, a série The Last Ninja sempre se destacou pela forma como construía um mundo credível e envolvente. O primeiro jogo apresenta-nos Armakuni, o último sobrevivente de um clã ninja, numa jornada de vingança contra o vilão Kunitoki. A narrativa é simples, mas eficaz, e é sobretudo transmitida através dos ambientes, da música e da progressão espacial.

Last Ninja 2 expande este conceito ao transportar a ação para o mundo moderno, algo extremamente ousado na altura. A fusão entre tradição japonesa e cenários urbanos ocidentais dá ao jogo uma identidade muito própria e memorável. Já Last Ninja 3 fecha a trilogia com uma abordagem mais madura, apostando na coerência e na atmosfera.

Nos jogos de luta, a narrativa é quase inexistente, mas isso nunca foi um problema. International Karate e IK+ vivem da fantasia clássica dos torneios de artes marciais, enquanto Bangkok Knights se destaca por celebrar explicitamente o Muay Thai e por apresentar uma progressão clara até ao confronto final em Banguecoque.

Mais do que histórias complexas, estes jogos criam mundos através do contexto, da música e do desafio, algo que continua a funcionar décadas depois.

Grafismo

Visualmente, esta coleção é uma viagem direta aos anos 80. Os gráficos isométricos de The Last Ninja continuam a ser um feito técnico impressionante, com cenários detalhados, cheios de pequenos pormenores e uma sensação de profundidade rara na época. As versões Commodore 64 continuam a ser, para muitos, as mais equilibradas, enquanto as versões Amiga oferecem mais cor, embora nem sempre com o mesmo charme.

As versões Spectrum, quando incluídas, são naturalmente mais limitadas, com visuais monocromáticos e menos detalhe, mas fazem parte da história e são importantes para uma preservação completa. Nos jogos de luta, as personagens grandes e bem definidas de IK+ e Bangkok Knights continuam a destacar-se, mostrando como a System 3 sabia extrair tudo do hardware disponível. A coleção inclui ainda filtros visuais opcionais, como efeitos CRT ou modos old-school, que ajudam a recriar a sensação de jogar num televisor antigo, sem nunca impor essas escolhas ao jogador.

Som

O som é um dos pilares desta coleção, em grande parte graças ao trabalho lendário de Matt Gray. As bandas sonoras da série The Last Ninja, especialmente no Commodore 64, continuam absolutamente icónicas. Melodias atmosféricas, cheias de personalidade, que elevam cada ecrã e ajudam a criar uma identidade sonora inconfundível.

Last Ninja 2, em particular, tem uma banda sonora que, por si só, já justificaria a compra da coleção para muitos fãs. As versões Amiga apresentam arranjos diferentes, com mais efeitos e reverberação, típicos da época, embora nem sempre consensuais. Nos jogos de luta, os efeitos sonoros são simples mas eficazes, transmitindo impacto e ritmo. Tudo foi recriado com enorme fidelidade, garantindo que o som que ouvimos hoje é, na prática, o mesmo que se ouvia há quase quarenta anos.

Conclusão

The Last Ninja Collection + Bonus Games é um exemplo notável de como se deve preservar e apresentar património histórico dos videojogos. Não tenta modernizar excessivamente, não reescreve o passado, limita-se a torná-lo acessível, estável e respeitado. Para veteranos, é um regresso emotivo a jogos que marcaram uma geração. Para jogadores mais novos, é uma oportunidade rara de perceber como muitas das bases do design moderno foram lançadas numa era de enormes restrições técnicas.

Com uma quantidade generosa de conteúdo, uma execução cuidada e um claro amor pelo material original, esta coleção é altamente recomendada tanto para fãs da série The Last Ninja como para qualquer interessado em retro gaming. É uma celebração merecida de um legado que continua vivo e relevante, décadas depois, e uma prova de que grandes jogos nunca envelhecem realmente.

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