Analisar um novo capítulo da série The Legend of Heroes, neste caso The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon é, nesta fase, uma tarefa curiosa e algo ingrata. Falamos de uma saga que já vai longa, profundamente interligada, construída com um cuidado quase obsessivo ao longo de mais de uma década, e que dificilmente se presta a leituras isoladas. Beyond the Horizon surge como o terceiro jogo do arco de Calvard e, ao mesmo tempo, como o nono título principal desta epopeia contínua passada em Zemuria. É um jogo que parte do princípio de que o jogador já percorreu um longo caminho e que traz consigo um enorme lastro emocional, narrativo e mecânico.
Este não é, de todo, um ponto de entrada recomendável para novos jogadores. Quem chega aqui sem ter passado pelos arcos de Cold Steel, Reverie ou mesmo Trails in the Sky 3rd vai sentir-se constantemente a correr atrás de referências, personagens e conceitos que o jogo assume como adquiridos. Por outro lado, quem já anda nisto há anos dificilmente precisa de ser convencido. A esta altura, a curiosidade sobre o que vem a seguir fala mais alto do que qualquer análise, positiva ou negativa. Ainda assim, Beyond the Horizon consegue algo relevante: ser, apesar de alguns tropeços, o capítulo mais interessante e memorável das aventuras da Arkride Solutions até agora.
Com um tom mais ambicioso, um alcance narrativo claramente mais global e um final absolutamente demencial, Beyond the Horizon reforça a sensação de que a série está a entrar na sua fase decisiva. É um jogo que não resolve tudo, longe disso, mas que levanta questões suficientes para deixar qualquer fã a remoer teorias durante meses.
Jogabilidade
Em termos de jogabilidade, Beyond the Horizon é deliberadamente conservador. Tudo o que foi introduzido em Daybreak e Daybreak II regressa praticamente intacto: o sistema híbrido de combate em tempo real e por turnos, a estrutura das side quests, os menus, a progressão das personagens e a gestão de quartz. Para quem vem dos jogos anteriores, a sensação é imediata de familiaridade, quase como calçar um par de sapatos velhos.
As novidades existem, mas são incrementais. Van ganha um maior protagonismo enquanto Grendel, podendo transformar-se com mais frequência durante Command Battles e até em algumas zonas de exploração. Os novos Shard Commands funcionam como uma versão mais contida dos Brave Orders de Cold Steel, oferecendo bónus temporários aos atributos da equipa sem nunca quebrar totalmente o equilíbrio do combate. São úteis, estratégicos e bem integrados, mas não revolucionários.
Há também ajustes importantes no sistema de quartz. Modificadores como EP Cut deixam de reduzir custos por percentagem fixa e passam a multiplicar o custo por um valor específico, acabando de vez com as conjurações gratuitas que dominavam estratégias anteriores. Da mesma forma, os bónus de turno deixam de poder ser manipulados com S-Crafts, ficando associados à personagem em questão, o que obriga a uma abordagem mais planeada e menos explorável.
Outra alteração relevante é a evolução dos Crafts, que agora ganham níveis e ficam mais fortes quanto mais são utilizados. É uma mudança subtil, mas que incentiva a diversificação e o uso consistente das habilidades, em vez de recorrer sempre às opções mais óbvias.

Mundo e história
A narrativa de Beyond the Horizon decorre ao longo de apenas três dias, centrados no anúncio e execução do plano do presidente Roy Cramheart para lançar um ser humano no espaço. Como é habitual em Trails, nada corre como esperado. O jogo rapidamente escala para um conjunto de revelações, reviravoltas e implicações que recontextualizam não só os eventos de Calvard, mas de toda a série.
A estrutura segue o modelo de múltiplas rotas, semelhante a Trails into Reverie. Controlamos três protagonistas distintos: Van, Rean e Kevin, cada um com o seu grupo e o seu fio narrativo. O sistema funciona melhor do que o gimmick de reviver dias visto em Daybreak II, mas tem uma particularidade surpreendente: as rotas são extremamente isoladas umas das outras. Fora o prólogo e o Grim Garten, um dungeon virtual onde todos se cruzam, praticamente não há interacção entre os grupos, nem sequer no final.
Cada rota tem uma identidade própria. A de Van começa por soar a terreno já conhecido, quase como uma repetição de ideias, mas explode num último capítulo absolutamente caótico. A de Kevin é a mais misteriosa, cheia de revelações que puxam directamente por eventos e temas de Trails in the Sky 3rd, e deixa claro o potencial de um eventual remake desse jogo. Já a de Rean é a mais pessoal, funcionando quase como um fecho emocional para personagens e conflitos que se arrastam desde Cold Steel, mesmo que o seu impacto no futuro global de Zemuria seja menos evidente.
Grafismo
Visualmente, Beyond the Horizon mantém a linha estética de Daybreak. O motor gráfico é o mesmo, os modelos das personagens seguem o mesmo estilo e os ambientes reaproveitam muitos dos assets já conhecidos. Não é um jogo feio, longe disso, mas também não surpreende. As cidades de Calvard continuam cheias de detalhe, vida e identidade própria, e os efeitos de combate são vistosos sem se tornarem excessivos.
As novas personagens têm designs fortes, em especial os dois novos Enforcers, que contrastam bem entre si. As animações faciais continuam a ser um ponto algo fraco, especialmente em cenas mais emocionais, mas a realização geral compensa com bons enquadramentos e um ritmo narrativo eficaz.
Há uma sensação constante de consistência visual, algo que a série sempre valorizou, mesmo que isso implique sacrificar inovação gráfica. Para quem acompanha Trails há anos, isso acaba por ser parte do charme.

Som
A componente sonora volta a estar em grande forma. A banda sonora acompanha eficazmente cada momento, alternando entre temas calmos e introspectivos e faixas mais energéticas para combates e momentos de tensão. Não há aqui um tema imediatamente icónico como noutros jogos da série, mas o conjunto é sólido e funcional.
O trabalho de vozes merece destaque, especialmente no caso da Enforcer Influencer. A personagem é propositadamente irritante, carregada de gíria moderna e tiques de streamer, e a actriz de voz entrega exactamente isso. Para alguns jogadores será insuportável, para outros uma caricatura divertida, mas é impossível negar que o desempenho é competente e coerente com a intenção da personagem.
O restante elenco mantém o nível habitual, com destaque para o banter entre personagens, em especial Aaron, que continua a ser a voz da incredulidade do jogador perante os absurdos constantes da narrativa.
Conclusão
The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon é um jogo profundamente Trails. Não tenta reinventar a roda, não facilita a vida a novos jogadores e não oferece respostas claras ou conclusões definitivas. Em vez disso, expande o mundo, complica a mitologia e empurra a série para um patamar de implicações globais que nunca tinha sido tão evidente.
É um capítulo que deixa mais perguntas do que respostas, que termina num dos maiores cliffhangers da saga e que obriga o jogador a repensar eventos passados sob uma nova luz. Pode ser frustrante, pode ser exasperante, mas é também incrivelmente cativante. Para quem já está investido em Zemuria, este é um daqueles jogos que alimenta discussões, teorias e especulação durante muito tempo.
Beyond the Horizon não é perfeito, mas é ambicioso, confiante e memorável. E, nesta fase da série, isso é exactamente o que se espera.