Them é um daqueles jogos que tenta fazer algo diferente num género que muitas vezes se acomoda às mesmas fórmulas. Aqui seguimos Tommy, um miúdo de 9 anos que se vê preso num velho clube de videojogos dos anos 90, um espaço aparentemente inocente, cheio de máquinas arcade e nostalgia. No entanto, essa fachada rapidamente dá lugar a uma atmosfera inquietante, feita de ruídos estranhos, ecos inexplicáveis e uma presença que observa sem nunca se mostrar por completo. Para escapar deste pesadelo, Tommy é obrigado a entrar num videojogo misterioso que mistura plataformas em 2D com exploração na primeira pessoa. Esta alternância entre mundos, entre o real e o digital, torna Them uma experiência singular, curta mas marcante, que aposta mais na criatividade e na tensão psicológica do que no terror convencional.
Jogabilidade
A jogabilidade de Them divide-se em duas camadas principais: a exploração em primeira pessoa no espaço real do arcade, mais especificamente no seu porão sombrio, e uma secção de plataformas em 2D jogada através de uma televisão ligada a uma consola. As duas partes funcionam em conjunto, criando um ciclo constante em que o jogador alterna entre mundos para progredir. A exploração em primeira pessoa é simples, com poucos objetos para interagir e um espaço relativamente pequeno, mas cumpre o seu objetivo: manter o jogador tenso, atento aos pormenores e dependente das instruções da misteriosa voz que o chama do outro lado de uma porta trancada. É um ambiente guiado, com tarefas claras e caminhos definidos, nunca permitindo liberdade total, mas transmitindo sempre a sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento.
Já o segmento de plataformas em 2D contrasta completamente com este ritmo mais lento. Aqui controlamos uma figura encapuzada dentro de uma masmorra medieval, sempre recheada de armadilhas, picos, fosso sem fundo e inimigos que patrulham corredores estreitos. Começamos apenas com a capacidade de saltar, mas ao longo da aventura surgem novas habilidades como o salto duplo, o dash aéreo e ataques simples. Morremos muitas vezes, mas o jogo é generoso: basta regressar ao último checkpoint. A jogabilidade é precisa, fluida e desafiante, nunca parecendo apenas um truque ou complemento. É um verdadeiro jogo dentro do jogo, com desafios próprios, caminhos interligados e objetivos concretos. É também no interior deste mundo de fantasia que encontramos os itens que a voz pede, e é isso que nos obriga a alternar entre realidades.

Mundo e história
A história acompanha Tommy, uma criança fascinada por arcades que numa noite de tempestade fica responsável pelo espaço enquanto o dono sai momentaneamente. O som da chuva lá fora, o adormecer inevitável e o despertar abrupto com ruídos vindos do porão criam o cenário perfeito para o início do mistério. A voz que chama por ajuda, presa para lá de uma porta trancada, serve como guia mas também como enigma central da narrativa. O jogo não revela tudo de imediato; prefere deixar pistas subtis, fragmentos de informação que o jogador vai juntando aos poucos.
A ligação entre os dois mundos é o verdadeiro motor da narrativa. Sempre que se encontra um item no jogo de plataformas, ele surge também no mundo real, como se algo atravessasse dimensões, reforçando a sensação de que nada é o que parece. Além disso, há detalhes no porão que sugerem que a presença não está apenas atrás da porta. Pequenas sombras, movimentos no canto da visão, algo que observa sem nunca atacar. A sensação de isolamento é constante e o jogo trabalha muito bem esse silêncio desconfortável. O desfecho depende das escolhas do jogador, o que permite descobrir mais sobre a identidade da voz e compreender melhor a natureza do pesadelo em que Tommy caiu.
Grafismo
Them apresenta dois estilos visuais distintos que se complementam surpreendentemente bem. No mundo real, os gráficos em 3D apostam num realismo inquietante, com iluminação reduzida, corredores apertados e texturas detalhadas que reforçam a atmosfera opressiva. A estética do arcade abandonado, com as suas máquinas desligadas, cabos espalhados e paredes húmidas, cria um cenário credível e desconfortável, perfeito para o tom psicológico da experiência.
Já na secção de plataformas, o visual 2D remete para jogos retro de exploração em masmorras, mas com um toque moderno na fluidez das animações e na clareza dos cenários. O contraste é deliberado: o mundo real é sombrio, pesado, quase claustrofóbico; o mundo do jogo é mais vibrante, mas igualmente hostil, com armadilhas e perigos a cada passo. Esta combinação reforça a sensação de estar constantemente entre dois universos que se contaminam mutuamente. O trabalho artístico não tenta competir com grandes produções, mas é estilizado o suficiente para se destacar e criar uma identidade própria.

Som
O som desempenha um papel fundamental em Them. No mundo real, o áudio é composto sobretudo por ruídos ambientes, ecos e pequenos sons distorcidos que sugerem movimento nas sombras. O silêncio é usado como arma, criando momentos de tensão crescente enquanto o jogador se desloca no porão. O som da chuva e do vento no exterior contribui para isolar ainda mais o espaço, reforçando a sensação de que Tommy está completamente sozinho.
Na secção de plataformas, a música é mais marcada e rítmica, ajustando-se ao estilo de jogo retro. No entanto, alguns efeitos sonoros surgem de forma subtilmente distorcida, criando uma ponte entre os dois mundos. Quando algo estranho está prestes a acontecer no arcade, o áudio do jogo dentro do jogo pode mudar ligeiramente, criando um efeito de desconforto muito eficaz. Não há sustos fáceis nem explosões sonoras gratuitas; o design de som trabalha sempre para manter o jogador alerta e emocionalmente preso à atmosfera.
Conclusão
Them é uma experiência curta, em média cerca de uma hora, mas consegue marcar pela forma como mistura géneros e brinca com a relação entre jogador, personagem e videojogo. A sua proposta de combinar exploração na primeira pessoa com um jogo de plataformas retro poderia ter sido apenas uma curiosidade, mas acaba por funcionar como o elemento central da experiência. O jogo dentro do jogo é genuinamente divertido e desafiante, enquanto o ambiente do arcade abandonado cria a dose certa de tensão psicológica. Não é perfeito, nem pretende ser um grande épico narrativo, mas é memorável. A presença de múltiplos finais e desafios adicionais dá algum incentivo para a rejogabilidade, embora a curta duração faça com que seja fácil ver tudo numa sessão.
No meio de tantos títulos que tentam replicar fórmulas de sucesso, Them arrisca ao combinar duas realidades distintas e ao criar uma experiência que vive da sua atmosfera e criatividade. É um jogo que vale pela ideia, pela execução e pela capacidade de surpreender. Para quem procura algo diferente no género do terror, algo que brinque com expectativas e que deixe uma impressão duradoura, Them é uma excelente escolha.