This Ain’t Even Poker, Ya Joker é um daqueles jogos que enganam logo à partida pelo nome. Quem espera uma experiência de póquer tradicional rapidamente percebe que está perante algo bem diferente: um clicker incremental com temática de jogo e uma forte inspiração num imaginário de circo e carnaval, liderado por um bobo da corte com gosto por desafios absurdos. Desenvolvido por Mash e publicado pela Oro Interactive em parceria com a Drillhounds, o jogo tem lançamento previsto para o último trimestre de 2025, mas a demo já deixa perceber bem ao que vem. Trata-se de uma experiência pensada para ser leve, viciante e fácil de largar, mas igualmente fácil de retomar, seguindo à risca as regras não escritas do género idle. A premissa é simples e eficaz: estás preso num carnaval macabro e só ganhando mil milhões de moedas poderás comprar a tua liberdade. A forma de lá chegar é virar cartas, formar mãos de póquer e optimizar constantemente um sistema que cresce em complexidade sem nunca se tornar pesado.
Jogabilidade
No centro da jogabilidade está um loop muito claro e bem definido. Começas com uma única carta e, a cada clique, viras essa carta para tentar formar uma mão válida de póquer. Mesmo com recursos tão limitados, o jogo consegue transmitir aquela sensação inicial de progresso constante, com pequenas recompensas frequentes que incentivam a continuar. À medida que acumulas moedas, vais desbloqueando novas cartas para o baralho, mais cartas em simultâneo e, eventualmente, vários baralhos a funcionar ao mesmo tempo. Este crescimento gradual é o que sustenta a experiência ao longo do tempo, evitando que o jogo se torne repetitivo demasiado depressa.
Para além do simples acto de virar cartas, existe uma camada de profundidade assinalável graças à árvore de habilidades. Aqui podes investir em melhorias que aumentam o valor de certas mãos, de determinados naipes ou até de cartas específicas. Estas escolhas dão ao jogador alguma margem de personalização, permitindo definir estratégias ligeiramente diferentes consoante as preferências. A automação surge relativamente cedo, permitindo que o jogo continue a gerar moedas mesmo sem intervenção constante, algo essencial num idle bem conseguido.
Um dos sistemas mais interessantes introduzidos na demo é o das expedições. Estas funcionam com temporizadores e, quando concluídas, oferecem recompensas aleatórias sob a forma de cartas especiais. Estas cartas podem ter efeitos únicos, como multiplicadores para certos tipos de mãos ou bónus associados a combinações específicas. Há aqui um toque quase de loot box, mas sem a agressividade ou frustração associada a esse tipo de mecânica, funcionando antes como um incentivo extra para regressar ao jogo de tempos a tempos.

Mundo e história
Narrativamente, This Ain’t Even Poker, Ya Joker não tenta ser mais do que aquilo que precisa. A história serve sobretudo como enquadramento temático para a jogabilidade, mas fá-lo com bastante charme. O jogador é apresentado a um bobo da corte que o mantém cativo no seu carnaval e lhe propõe um desafio aparentemente impossível: ganhar mil milhões de moedas a jogar cartas. Este personagem é carismático, sarcástico e visualmente marcante, funcionando quase como um mestre de cerimónias que goza com o jogador enquanto este se esforça por atingir o objectivo final.
Apesar de a demo não explorar demasiado esta relação, o pouco que é mostrado é suficiente para criar uma identidade própria. Fica a sensação de que há espaço para mais intervenções do bobo ao longo do jogo completo, algo que poderia enriquecer ainda mais a experiência. Mesmo assim, a narrativa cumpre bem o seu papel, dando contexto às mecânicas e reforçando a sensação de estar preso num espectáculo estranho onde tudo gira à volta de dinheiro, sorte e persistência.
Grafismo
Visualmente, o jogo aposta num estilo simples, colorido e deliberadamente caricatural. O tema de circo e carnaval está bem presente, com uma paleta de cores vibrante e personagens exageradas que ajudam a criar um tom leve e algo absurdo. As cartas são claras e fáceis de distinguir, mesmo quando o ecrã começa a ficar mais preenchido com múltiplos baralhos e efeitos activos em simultâneo.
A interface é um dos pontos fortes da demo. Tudo está organizado de forma lógica, com menus intuitivos e informação bem apresentada. Elementos como o registo de ganhos, que permite acompanhar tanto os lucros actuais como o total acumulado, são especialmente úteis e evitam confusão. Num género onde é fácil perder o controlo sobre números e sistemas, esta clareza faz toda a diferença. O pixel art utilizado nos menus e nos elementos decorativos encaixa bem no tom geral do jogo, reforçando a sua identidade visual sem distrair da jogabilidade.

Som
No departamento sonoro, This Ain’t Even Poker, Ya Joker opta por uma abordagem discreta mas eficaz. A música acompanha o tema de carnaval, com melodias leves e algo repetitivas, mas adequadas a um jogo que se destina muitas vezes a ser deixado a correr em segundo plano. Não é uma banda sonora memorável, mas cumpre a sua função sem se tornar irritante, o que é crucial num clicker.
Os efeitos sonoros associados às cartas, às recompensas e às interacções com os menus são satisfatórios e ajudam a reforçar a sensação de progresso. Cada ganho, por pequeno que seja, é acompanhado por feedback sonoro suficiente para manter o jogador envolvido. Tal como na componente narrativa, sente-se que poderia haver mais intervenções vocais ou sonoras do bobo da corte, algo que poderia acrescentar personalidade adicional ao jogo final.
Conclusão
This Ain’t Even Poker, Ya Joker é um excelente exemplo de como fazer um clicker incremental competente e cativante sem reinventar completamente o género. A demo demonstra um equilíbrio muito bem conseguido entre profundidade e acessibilidade, oferecendo sistemas suficientes para manter o interesse a médio e longo prazo, mas sem exigir demasiada atenção constante. A temática de jogo e carnaval dá-lhe uma identidade própria, diferenciando-o de outros títulos semelhantes disponíveis no Steam.
Não será um jogo para todos. Quem procura experiências mais activas ou quem não tem paciência para jogos idle dificilmente será conquistado por esta proposta. No entanto, para fãs de clickers e jogos incrementais, especialmente aqueles com gosto por números a subir e sistemas a optimizar, há aqui muito para apreciar. Se o lançamento final conseguir expandir a narrativa, aprofundar ainda mais as opções de personalização e manter a fluidez demonstrada na demo, This Ain’t Even Poker, Ya Joker tem tudo para se tornar uma referência dentro do seu nicho. É um jogo fácil de pegar, fácil de largar e perigosamente fácil de querer voltar a ele vezes sem conta.