Entrar em 2026 é, mais uma vez, entrar num território claramente dominado pelos roguelites no panorama indie. O género vive uma espécie de idade de ouro prolongada, com novos lançamentos a surgirem quase todas as semanas, o que torna cada vez mais difícil para um novo jogo destacar-se verdadeiramente. Neste contexto competitivo surge Blightstone, o novo projecto da Unfinished Pixel, um estúdio de Barcelona que até aqui se tinha dedicado sobretudo a jogos de temática desportiva e a um curioso puzzle game. Esta mudança de rumo é tudo menos tímida. Blightstone ambiciona ser um roguelite profundo, assente em combate por turnos, progressão meta robusta e sistemas de RPG que convidam à experimentação constante.
Desde os primeiros minutos, percebe-se que estamos perante um jogo feito com carinho e com uma visão clara. Blightstone não tenta reinventar o género de forma radical, mas procura combinar influências bem conhecidas com ideias próprias, criando algo que é simultaneamente familiar e fresco. A premissa é simples, mas eficaz: proteger o precioso Cristal de Vidro Terrestre enquanto avançamos por um mundo corrompido, com o objectivo final de derrotar Korghul, o senhor demoníaco responsável pela praga que consome a terra. A forma como esta história é revelada, fragmentada ao longo de múltiplas runs, acaba por ser um dos maiores trunfos do jogo.
Jogabilidade
Em termos de jogabilidade, Blightstone apresenta uma estrutura relativamente acessível à primeira vista, mas que vai ganhando camadas de complexidade à medida que o jogador se aprofunda nos seus sistemas. A progressão faz-se através de um mapa ramificado, típico do género, onde escolhemos caminhos que podem levar a combates, eventos, lojas ou atalhos especiais. Estes atalhos, por exemplo, podem conceder pontos de acção extra a usar no próximo acampamento, introduzindo decisões interessantes sobre risco e recompensa.
O combate é totalmente por turnos e lembra, em muitos aspectos, jogos de estratégia táctica ao estilo de XCOM. Cada personagem dispõe de pontos de acção que podem ser usados para se mover, atacar ou activar habilidades. Não existe um sistema clássico de velocidade ou iniciativa; durante o turno do jogador, qualquer membro do grupo pode agir a qualquer momento, desde que existam pontos de acção disponíveis. Isto incentiva uma abordagem mais táctica e flexível, permitindo reagir às ameaças do campo de batalha de forma criativa.
Um dos aspectos mais interessantes do combate é a interacção com o ambiente. O cenário não é apenas decorativo: arbustos podem ser incendiados, criando paredes de fogo que aplicam efeitos de queimadura, e barris explosivos podem ser empurrados ou arremessados para causar dano em área. Estas mecânicas dão ao jogador ferramentas adicionais para lidar com encontros difíceis e recompensam quem observa bem o terreno antes de agir.
Fora do combate, a gestão de recursos assume um papel central. Durante cada run, recolhemos materiais que podem ser usados nos acampamentos para activar habilidades específicas, curar o grupo ou desbloquear novos equipamentos e recursos. À medida que avançamos para fases mais tardias, a gestão da corrupção e da praga torna-se crucial, obrigando a escolhas cuidadosas sobre quando avançar e quando reforçar a equipa.

Mundo e história
O mundo de Blightstone é revelado de forma gradual, quase como um puzzle narrativo. Não há longas exposições iniciais; em vez disso, a história vai-se desvendando em pequenos fragmentos, através de diálogos, eventos e interacções que podem até só aparecer uma única vez numa run específica. Esta abordagem encaixa perfeitamente na estrutura roguelite, dando um motivo adicional para repetir tentativas e descobrir novos detalhes.
O cenário de fantasia sombria é eficaz e serve bem o tom do jogo. A praga que assola o mundo não é apenas um conceito abstracto, mas algo que se sente constantemente, seja através do design dos inimigos, das paisagens corrompidas ou das próprias mecânicas de jogo. As personagens do grupo não são meros avatares funcionais; as suas personalidades vão-se revelando aos poucos, criando uma ligação crescente com o jogador.
Existe uma clara inspiração em títulos como Darkest Dungeon, especialmente na forma como o stress, a corrupção e o desgaste psicológico são tratados, mas Blightstone consegue contar a sua própria história sem cair na cópia directa. A narrativa não tenta ser excessivamente complexa, mas é suficientemente envolvente para criar curiosidade e vontade de continuar a jogar, run após run.
Grafismo
Visualmente, Blightstone aposta num estilo artístico que será imediatamente reconhecível para fãs de roguelites indie. Existe uma sensação quase acolhedora na forma como o mundo é apresentado, apesar do tom sombrio, algo que remete para clássicos do género. As personagens e inimigos são bem definidos, com animações claras que facilitam a leitura do combate, algo essencial num jogo táctico.
As influências de Darkest Dungeon são visíveis, sobretudo na direcção artística e no uso de cores e contrastes, mas o jogo consegue dar um toque próprio a essa inspiração. Não se limita a imitar; adapta e acrescenta detalhes que lhe conferem identidade. Os cenários variam o suficiente para evitar monotonia, e os efeitos visuais associados às habilidades e interacções ambientais contribuem para tornar cada combate visualmente interessante.

Som
Se há um elemento onde Blightstone realmente brilha, é no som, e em particular na sua banda sonora. A música é bela, quase assombrada, com acordes de piano envoltos em reverberação que criam uma atmosfera melancólica e imersiva. Algumas faixas repetem-se ao longo da experiência, mas isso raramente se torna um problema, já que encaixam perfeitamente no mundo do jogo.
Desde o menu principal até aos combates, a música está sempre presente, reforçando a identidade do jogo e ajudando na construção do mundo. É um exemplo de como uma banda sonora bem pensada pode elevar significativamente a experiência global. Os efeitos sonoros, embora mais discretos, cumprem bem a sua função, dando peso às acções em combate e ajudando a vender o impacto das habilidades e dos ataques.
Conclusão
Blightstone é um jogo que sabe exactamente o que quer ser. Não tenta revolucionar o género dos roguelites, mas apresenta uma combinação sólida de ideias familiares e elementos únicos que resultam numa experiência coesa e envolvente. A base é forte, especialmente para um título em acesso antecipado, e a ausência de problemas técnicos graves é impressionante.
Existem alguns desequilíbrios ao nível das builds e certas mecânicas ainda podem beneficiar de ajustes, mas isso é expectável nesta fase de desenvolvimento. Mais importante é a sensação de potencial. Se a Unfinished Pixel conseguir aproveitar bem o período de acesso antecipado e continuar a expandir e polir os seus sistemas, Blightstone tem tudo para se tornar uma referência dentro da comunidade roguelite.
Para fãs do género, este é claramente um jogo a manter debaixo de olho. Pode não agradar a todos, especialmente a quem não aprecia influências mais próximas de Darkest Dungeon, mas para quem procura um roguelite táctico, atmosférico e feito com paixão, Blightstone é uma aposta segura e promissora.