Antevisão: Dungeon Rampage

Dungeon Rampage é um nome que desperta memórias imediatas a quem passou tempo no Facebook e em portais de jogos Flash durante o final da década de 2000 e início da de 2010. Era um daqueles títulos omnipresentes, simples de perceber, fáceis de jogar em sessões curtas e, acima de tudo, pensados para serem partilhados entre amigos. Agora, muitos anos depois do desaparecimento do Flash, o jogo regressa numa nova encarnação para PC, disponível no Steam, pelas mãos da Gamebreaking Studios. Esta versão promete recuperar a experiência clássica, agora sem dependência de browsers ou redes sociais, e com um modelo de compra única em vez do antigo free-to-play.

À partida, a ideia é apelativa. Trazer de volta um jogo cooperativo de ação simples, com um toque de nostalgia, pode funcionar muito bem num mercado saturado de experiências complexas e exigentes. Dungeon Rampage apresenta-se como um hack and slash acessível, jogável a solo ou em cooperação até quatro jogadores, onde o objectivo é atravessar masmorras, derrotar inimigos e acumular loot. No entanto, a transição de um modelo free-to-play para um jogo pago levanta questões importantes, especialmente quando o design original estava profundamente ligado a sistemas de progressão lenta e monetização constante.

Jogabilidade

No seu núcleo, Dungeon Rampage é extremamente simples, e isso é tanto a sua maior força como a sua principal limitação. Cada nível coloca o jogador numa arena ou percurso fechado, repleto de inimigos que surgem em vagas. O combate resume-se a atacar, esquivar-se quando necessário e usar habilidades básicas, dependendo da personagem escolhida. Não há aqui grandes preocupações tácticas, sistemas profundos de builds ou mecânicas complexas. É um jogo pensado para ser imediato, quase automático, ideal para sessões curtas ou para jogar em conversa com amigos.

A progressão faz-se através da recolha de ouro, baús e experiência. O ouro serve para comprar chaves, necessárias para abrir os inúmeros baús que caem no final dos níveis. Esses baús contêm armas, armaduras e outros itens que melhoram ligeiramente as estatísticas da personagem. A experiência permite subir de nível e, a cada nível ganho, o jogador recebe gemas. As gemas são a moeda mais valiosa do jogo, usadas para desbloquear novas personagens e itens cosméticos, como fatos alternativos.

O problema surge quando percebemos que este sistema foi claramente concebido para um jogo free-to-play. Após a primeira hora de jogo, é comum ter mais baús do que chaves disponíveis, criando um bloqueio artificial à progressão. No modelo original, isto incentivava a compra de ouro com dinheiro real. Nesta versão paga, essa opção foi removida, mas o equilíbrio do jogo não foi ajustado. O resultado é um ritmo de progressão estranho, onde o jogador acumula recompensas que não consegue utilizar, criando frustração em vez de motivação.

Mundo e história

Dungeon Rampage nunca teve grandes ambições narrativas, e isso mantém-se nesta versão. O jogo apresenta um universo de fantasia genérico, com masmorras, monstros, heróis e tesouros, sem grande contextualização. Não existe uma história propriamente dita, nem personagens com desenvolvimento ou diálogos relevantes. Cada nível é apenas mais um desafio isolado, sem ligação narrativa forte ao anterior.

Isto não é necessariamente um problema, dado o tipo de jogo que é. Dungeon Rampage sempre foi mais sobre ação imediata do que sobre imersão num mundo rico. No entanto, num contexto moderno, onde até jogos mais simples tentam oferecer algum enquadramento ou identidade própria, a ausência quase total de narrativa torna a experiência rapidamente esquecível. Não há um objectivo maior, uma ameaça a vencer ou um mistério a desvendar, apenas a repetição constante de níveis semelhantes.

Grafismo

Visualmente, Dungeon Rampage mantém-se fiel às suas origens. O estilo artístico é colorido, cartoonesco e claramente inspirado em jogos Flash da sua época. As personagens têm proporções exageradas, os inimigos são facilmente identificáveis e os cenários, embora variados, seguem um padrão muito semelhante entre si. Tudo é funcional, mas raramente impressionante.

Na transição para PC, esperava-se talvez algum trabalho adicional de modernização visual, mas isso não acontece de forma significativa. As animações são simples, os efeitos visuais modestos e os ambientes pouco detalhados. Em ecrãs maiores e resoluções mais altas, as limitações tornam-se ainda mais evidentes. Ainda assim, há uma certa coerência estética que funciona bem com o tom leve do jogo, e o grafismo nunca chega a ser um obstáculo à jogabilidade.

Som

O áudio de Dungeon Rampage cumpre o mínimo indispensável. A banda sonora é discreta, composta por temas genéricos de fantasia que acompanham a ação sem grande destaque. Não são músicas memoráveis, mas também não se tornam irritantes, o que é positivo num jogo que pode ser jogado durante várias horas seguidas.

Os efeitos sonoros são básicos, mas eficazes. Golpes, impactos e mortes de inimigos têm feedback sonoro suficiente para dar alguma sensação de peso ao combate. No entanto, a repetição é constante, e ao fim de algum tempo todos os sons começam a misturar-se numa massa indistinta. Não existe dobragem nem vozes relevantes, reforçando a ideia de que o jogo não aposta minimamente na componente narrativa ou emocional.

Conclusão

Dungeon Rampage é um jogo que funciona exactamente como promete, mas essa promessa pode já não ser suficiente. Enquanto experiência nostálgica, pode agradar a quem jogou a versão original e quer revisitar esse estilo de jogo sem complicações. O problema é que a transição para um modelo pago não foi acompanhada pelo trabalho necessário de reequilíbrio dos sistemas de progressão. O jogo deixou de ser pay to progress, mas continua desenhado como se ainda o fosse.

A progressão lenta, o desbloqueio excessivamente demorado de personagens e a acumulação constante de recompensas inutilizáveis acabam por desgastar rapidamente a experiência. Mesmo com amigos, o conteúdo disponível não justifica dezenas ou centenas de horas de jogo. Existe também a preocupação legítima de que, no futuro, possam ser reintroduzidos elementos de monetização, o que tornaria esta versão ainda mais difícil de recomendar.

No final, Dungeon Rampage é um produto funcional, mas desajustado ao contexto actual. Por cerca de 10 euros, oferece algum divertimento casual, mas fica aquém das expectativas para um lançamento moderno no PC. Para quem procura um hack and slash simples e cooperativo, existem alternativas mais equilibradas e interessantes. Dungeon Rampage fica assim como uma curiosidade nostálgica, mais do que como uma recomendação sólida.

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