Folklore Hunter apresenta-se como uma proposta curiosa dentro do género de terror cooperativo, misturando exploração em mundo aberto, caça a criaturas sobrenaturais e uma forte componente de preparação e planeamento. Longe de ser um jogo de terror tradicional baseado apenas em sustos repentinos, Folklore Hunter aposta numa abordagem mais metódica, quase tática, onde o conhecimento do terreno, o uso inteligente de ferramentas e a cooperação entre jogadores fazem toda a diferença entre o sucesso e uma morte rápida e pouco gloriosa.
Inspirado por lendas e criaturas do folclore europeu, o jogo coloca-nos no papel de caçadores experientes que aceitam contratos para eliminar ameaças sobrenaturais em ambientes hostis e abandonados. Desde florestas densas a torres de vigia em ruínas, passando por cavernas e acampamentos esquecidos, cada cenário é desenhado para transmitir isolamento, perigo constante e a sensação de que algo nos observa a partir das sombras. É um jogo que pede paciência, atenção ao detalhe e, acima de tudo, respeito pelo inimigo.
Apesar de algumas críticas negativas e de um percurso algo irregular ao longo dos anos, Folklore Hunter continua a ser visto por muitos jogadores como uma experiência com enorme potencial, especialmente quando jogado em modo cooperativo. Não é um título imediato nem particularmente acessível, mas para quem estiver disposto a aprender as suas regras e aceitar o seu ritmo próprio, há aqui algo de especial.
Jogabilidade
A jogabilidade de Folklore Hunter gira em torno de caçadas individuais, cada uma com objetivos específicos e uma criatura central para eliminar. O jogador é largado num mapa relativamente aberto e pode explorar em qualquer direção, sem um caminho claramente definido. Esta liberdade é uma das maiores virtudes do jogo, mas também uma das suas maiores armadilhas, já que afastar-se demasiado do percurso seguro pode resultar em encontros inesperados e fatais.
O arsenal disponível vai muito além das armas de fogo. Armadilhas, câmaras e outros dispositivos de vigilância são essenciais para sobreviver. Colocar câmaras em pontos estratégicos permite vigiar grandes áreas do mapa e acompanhar os movimentos da criatura, criando uma espécie de rede de informação que ajuda a planear emboscadas ou fugas desesperadas. As armadilhas, por sua vez, podem atrasar ou enfraquecer o inimigo, dando tempo precioso para reagir.
O jogo brilha particularmente no modo cooperativo online, que permite jogar com um número ilimitado de amigos. A coordenação entre os membros da equipa é vital: enquanto uns exploram e recolhem recursos, outros podem ficar responsáveis pela vigilância ou pela preparação de armadilhas. A comunicação constante é quase obrigatória, e muitas das histórias mais memoráveis surgem precisamente do caos que se instala quando algo corre mal e o plano se desfaz em segundos.
Existe também uma forte componente de gestão de risco. Os recursos são limitados, a munição é preciosa e morrer durante uma caçada significa que nem tudo o que foi recolhido regressa connosco à base. Esta mecânica dá peso real a cada decisão e torna cada expedição tensa do início ao fim.

Mundo e história
Cada caçada em Folklore Hunter apresenta um ambiente totalmente trabalhado à mão e uma pequena história própria, contada de forma indireta através de pistas, mapas, documentos e elementos do cenário. Não há longas sequências narrativas nem diálogos explicativos; o jogo prefere que o jogador descubra os mistérios por conta própria, juntando peças soltas e interpretando o que aconteceu naquele local antes da nossa chegada.
As criaturas que enfrentamos são inspiradas em lendas e mitos, como os Strigoi, e comportam-se mais como forças da natureza do que como simples inimigos. Muitas vezes não basta disparar até cair, sendo necessário perceber padrões de comportamento, fraquezas específicas e condições ideais para o confronto final. Nesse sentido, Folklore Hunter aproxima-se quase de um jogo de puzzles, onde o verdadeiro desafio é descobrir como derrotar o monstro e não apenas executar essa derrota.
Entre caçadas, regressamos à Fortaleza, uma espécie de base central onde podemos comprar e desbloquear novo equipamento. É também aqui que aceitamos contratos adicionais, incluindo missões aleatórias que garantem rejogabilidade mesmo depois de todas as criaturas principais terem sido descobertas. Estas caçadas procedimentais asseguram que não existem duas expedições exatamente iguais, mantendo o interesse a longo prazo.
Grafismo
Visualmente, Folklore Hunter tem evoluído de forma clara ao longo do tempo, sendo este um dos aspetos mais consensualmente elogiados. Os ambientes são atmosféricos, com uma boa utilização de iluminação e sombras para criar tensão constante. As florestas são densas e opressivas, as construções abandonadas transmitem decadência e perigo, e as cavernas conseguem ser particularmente claustrofóbicas.
Os modelos das criaturas são eficazes, mesmo que nem sempre tecnicamente impressionantes. Funcionam sobretudo pelo impacto que têm no contexto do jogo, aparecendo muitas vezes de forma inesperada e acompanhados por alterações dramáticas no ambiente, como mudanças bruscas na iluminação ou no céu. Ainda assim, nota-se alguma inconsistência técnica, com animações rígidas e problemas ocasionais de colisão, tanto nos inimigos como na fauna.
O mundo, apesar de visualmente interessante, pode por vezes parecer demasiado estático. Alguns jogadores apontam que a exploração perde impacto devido à falta de eventos dinâmicos ou interações mais profundas, o que contribui para uma sensação de vazio em certos momentos. É um grafismo competente e atmosférico, mas que nem sempre consegue sustentar o peso da exploração prolongada.

Som
O som é talvez o elemento mais divisivo de Folklore Hunter. Por um lado, a banda sonora e os efeitos ambientais são fundamentais para criar tensão, com ruídos distantes, vento entre as árvores e sons indefinidos que nos mantêm constantemente em alerta. Quando funciona, o design sonoro é um dos maiores trunfos do jogo.
Por outro lado, existem problemas técnicos difíceis de ignorar. A ausência de um posicionamento sonoro convincente faz com que muitos sons, especialmente os gritos das criaturas, pareçam demasiado altos e mal localizados, quase colados aos ouvidos do jogador. Em vez de assustar, acabam por se tornar irritantes e quebrar a imersão.
Em modo cooperativo, o caos sonoro pode ser ainda maior, com vários jogadores a comunicar, monstros a aproximarem-se e alarmes ou armadilhas a disparar em simultâneo. É um aspeto que claramente precisava de mais polimento e que continua a ser uma das críticas mais frequentes ao jogo.
Conclusão
Folklore Hunter é um jogo imperfeito, por vezes frustrante e claramente não pensado para agradar a todos. Tem problemas técnicos, escolhas de design discutíveis e uma curva de aprendizagem pouco amigável. No entanto, também oferece algo raro: uma experiência de caça sobrenatural verdadeiramente cooperativa, tensa e memorável, especialmente quando jogada com amigos.
O seu ritmo mais lento, a necessidade de observação e planeamento e a forma como transforma cada confronto num pequeno puzzle fazem dele um título único dentro do género. É um jogo que exige respeito e paciência, recompensando quem estiver disposto a aceitar as suas regras e limitações.
Para jogadores solitários à procura de uma experiência polida e guiada, Folklore Hunter dificilmente será a escolha certa. Mas para grupos de amigos que procuram histórias emergentes, sustos inesperados e aquela adrenalina pura de sobreviver por um triz, há aqui muito para gostar. Com todo o seu potencial ainda por explorar, continua a ser um jogo que merece ser descoberto, apesar das suas falhas.