Antevisão: Heistfest

Há muito que o género dos jogos de corridas vive dividido entre os grandes mundos abertos em formato de serviço e experiências mais contidas, mas cheias de personalidade. Para quem já está farto de mapas gigantescos e eventos sazonais intermináveis, Heistfest surge como uma lufada de ar fresco. A proposta é simples e direta: escolher um carro, assaltar um banco, fugir da polícia e alcançar o ponto de extração. Sem rodeios, sem enchimento. Apenas ação pura, intensa e imediata.

Em acesso antecipado, Heistfest apresenta quatro mapas distintos, prometendo mais conteúdos no futuro. Desde o primeiro minuto, percebe-se que este não é um jogo preocupado em competir tecnicamente com pesos pesados como Forza Horizon ou The Crew Motorfest. Em vez disso, aposta numa identidade própria, inspirada nos clássicos GTA de vista aérea, cruzando corridas arcade com tiroteio caótico em estilo bullet-hell.

Esta mistura improvável resulta surpreendentemente bem. Heistfest não quer ser um simulador, nem um sandbox gigantesco. Quer ser um jogo direto ao assunto, feito para sessões curtas, mas intensas, onde cada partida parece uma fuga desesperada digna de um filme de ação. E é precisamente nessa simplicidade que encontra a sua maior força.

Jogabilidade

Apesar da premissa básica, a jogabilidade de Heistfest está longe de ser simples. Cada missão atira-nos imediatamente para o centro da ação. Assim que entramos no mapa, a equipa tem de destruir a carrinha do banco, recolher o dinheiro e eliminar um número específico de veículos policiais antes de fugir para o ponto de extração.

No início, a resistência é modesta, com alguns carros de patrulha a tentar bloquear o nosso caminho. Mas rapidamente a dificuldade escala. Em poucas missões, passamos de perseguições relativamente controladas para cenários de guerra urbana, com tanques, helicópteros e carrinhas blindadas a encherem o ecrã de projéteis e explosões. O ritmo é frenético e exige reflexos rápidos, mas também capacidade de leitura do mapa.

É aqui que Heistfest surpreende. Não se trata apenas de acelerar sem pensar. Cada mapa está desenhado com atalhos, gargalos e zonas onde podemos encurralar a polícia ou fazê-la andar às voltas. Saber quando atravessar uma ponte estreita ou quando conduzir por ruas mais largas pode ser a diferença entre escapar com vida ou explodir em segundos. O controlo dos carros é acessível, claramente arcade, permitindo que qualquer jogador pegue no comando e comece a divertir-se quase de imediato. No entanto, dominar a condução em conjunto com a gestão do caos à nossa volta é outra história. À medida que a pressão aumenta, Heistfest transforma-se num verdadeiro teste de nervos, onde o ecrã raramente fica limpo de inimigos.

Mundo e história

Heistfest não é um jogo preocupado em contar uma narrativa profunda. A história é meramente funcional, servindo de enquadramento para a ação. Somos uma equipa de criminosos especializados em assaltos rápidos, entrando em diferentes cidades para roubar bancos e escapar às forças de segurança.

Este minimalismo narrativo encaixa perfeitamente no tom do jogo. Em vez de longas cutscenes ou diálogos elaborados, tudo é comunicado através do próprio gameplay. A progressão das missões, com inimigos cada vez mais pesados, cria uma sensação de escalada natural, como se a polícia estivesse a levar-nos cada vez mais a sério. Cada mapa representa uma cidade diferente, com pequenos elementos icónicos a identificá-los. Não se trata de recriações realistas, mas de versões estilizadas que funcionam como palcos para a ação. O mundo de Heistfest existe apenas para servir a jogabilidade, e nesse aspeto cumpre o seu papel com eficácia.

Há aqui uma clara homenagem aos primeiros GTA, especialmente ao espírito anárquico de GTA 1 e 2. Tal como nesses clássicos, a cidade é um parque de diversões destrutivo, onde o objetivo não é viver uma história complexa, mas sim sobreviver ao caos que nós próprios criamos.

Grafismo

Visualmente, Heistfest aposta num estilo minimalista, com câmara aérea e modelos simples, mas funcionais. À primeira vista, pode parecer modesto, mas rapidamente se percebe que esta escolha artística serve a jogabilidade. Com tanta ação no ecrã, um estilo mais realista poderia tornar tudo confuso. Aqui, a leitura visual é clara, permitindo identificar inimigos, obstáculos e rotas de fuga com facilidade. Cada mapa tem identidade própria, não só pelos marcos visuais, como a Torre Eiffel no mapa inspirado em Paris, mas também pela disposição das ruas. Uns privilegiam zonas abertas para perseguições a alta velocidade, outros apostam em áreas mais apertadas, ideais para armadilhas e manobras evasivas.

Os efeitos de explosão, apesar de simples, são satisfatórios e contribuem para a sensação de impacto. Ver carros da polícia a voar pelos ares enquanto atravessamos um cruzamento a toda a velocidade é parte essencial do espetáculo. Não é um jogo que impressione pela tecnologia, mas sim pela clareza e eficácia do seu estilo artístico.

Som

O design sonoro acompanha bem a ação frenética. Os motores rugem de forma agressiva, as explosões têm peso e os disparos constantes criam uma atmosfera de perigo permanente. Tudo contribui para a sensação de estarmos numa fuga desesperada, com a polícia sempre a um segundo de nos apanhar.

A música aposta em temas enérgicos, adequados ao ritmo acelerado do jogo. Não se destaca particularmente, mas cumpre a função de manter a adrenalina alta durante as missões. Em conjunto com os efeitos sonoros, cria uma paisagem auditiva que reforça o carácter arcade da experiência. Tal como no grafismo, o som não tenta ser realista ao extremo. O objetivo é amplificar a ação, e nesse campo Heistfest acerta.

Conclusão

Heistfest é uma agradável surpresa. Com uma premissa simples e uma execução focada, consegue oferecer uma experiência intensa e divertida, ideal para sessões curtas entre jogos mais longos e complexos. A combinação de corridas arcade com mecânicas de bullet-hell resulta numa identidade própria, difícil de encontrar noutros títulos do género.

A progressão constante da dificuldade mantém o jogo fresco, obrigando-nos a adaptar estratégias e a conhecer cada mapa ao detalhe. A possibilidade de desbloquear novos carros, divididos entre classes mais rápidas e outras mais destrutivas, acrescenta variedade e incentiva a continuar a jogar. É certo que, estando em acesso antecipado, o jogo ainda precisa de mais conteúdos, mapas e veículos. No entanto, a base está bem construída e já oferece horas de diversão. Heistfest não quer competir com gigantes do género, mas sim ocupar um espaço próprio, como uma alternativa mais direta, caótica e descomprometida.

Para quem sente saudades do espírito dos GTA clássicos e procura algo diferente no mundo das corridas, Heistfest é uma aposta segura. Um jogo feito de adrenalina, explosões e fugas improváveis, que prova que, às vezes, menos é mesmo mais.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ComboCaster