Antevisão: Hungry Horrors

Hungry Horrors é um daqueles jogos que parte de uma base relativamente familiar, neste caso o género dos deck-builders com estrutura roguelite, mas decide dar um passo ao lado e seguir um caminho próprio. Em vez de batalhas tradicionais baseadas em ataques e pontos de vida, o jogo propõe algo bastante mais original: alimentar monstros retirados do folclore britânico e irlandês. A premissa é simples, mas rapidamente se percebe que esta escolha altera profundamente a forma como se pensa cada jogada, cada carta e cada decisão.

Desenvolvido pela Clumsy Bear Studio, um pequeno estúdio criado por um casal com uma paixão evidente por videojogos, Hungry Horrors surge em Acesso Antecipado no PC como uma estreia surpreendentemente confiante. Nota-se desde cedo que não estamos perante um projecto apressado ou experimental no mau sentido. Pelo contrário, há aqui uma identidade muito clara, tanto a nível mecânico como temático, que ajuda o jogo a destacar-se num género cada vez mais concorrido.

O jogo coloca-nos no papel de uma princesa que, em vez de derrotar criaturas lendárias com espadas ou magia, tenta satisfazer os seus apetites peculiares através de pratos cuidadosamente preparados. Esta inversão de expectativas é o motor de toda a experiência e acaba por definir o tom leve, curioso e frequentemente bem-humorado de Hungry Horrors, sem nunca cair na paródia fácil.

Jogabilidade

A jogabilidade é onde Hungry Horrors mais se distancia dos seus pares. Apesar de continuar a ser um deck-builder na sua essência, com cartas, custos, efeitos e sinergias, a forma como tudo é apresentado e integrado no mundo do jogo é bastante diferente. Em vez de menus estáticos e mapas abstratos, movemos a personagem principal através de cenários laterais em pixel art, quase como se estivéssemos num jogo de plataformas. Este detalhe, apesar de parecer superficial, ajuda a criar uma sensação de imersão rara neste tipo de jogos.

Cada encontro com um monstro é uma espécie de puzzle culinário. As criaturas não têm uma barra de vida tradicional; em vez disso, avançam lentamente em direcção à princesa à medida que o banquete decorre. As cartas representam pratos, ingredientes, especiarias ou acções de apoio, e o objectivo é satisfazer as preferências do monstro antes que este chegue demasiado perto. Quando isso acontece, a derrota não é apenas um ecrã de game over, mas uma pequena animação específica para cada criatura, o que dá mais personalidade a cada falhanço.

O jogo explica as suas mecânicas de forma clara através de um tutorial inicial bem estruturado, que introduz todos os conceitos essenciais sem se tornar aborrecido. A curva de aprendizagem, no entanto, não é totalmente suave. Embora seja fácil perceber como tudo funciona, dominar as interacções entre cartas, pratos, efeitos e monstros exige tempo e várias tentativas falhadas. A dificuldade sobe de forma bastante abrupta após as primeiras áreas, o que pode ser frustrante para jogadores menos habituados ao género.

Ainda assim, quando tudo começa a fazer sentido, Hungry Horrors torna-se extremamente satisfatório. Há um prazer particular em planear uma sequência de pratos perfeita, gerir energia e recursos, e conseguir alimentar um monstro exigente mesmo à beira da derrota.

Mundo e história

O universo de Hungry Horrors é fortemente inspirado no folclore britânico e irlandês, e essa influência sente-se em praticamente todos os aspectos do jogo. Desde os monstros às receitas, passando pelos personagens secundários, tudo parece cuidadosamente pesquisado e integrado. Não estamos perante uma fantasia genérica, mas sim um mundo com raízes culturais bem definidas, o que lhe dá uma identidade própria.

A narrativa é simples, mas eficaz. O diálogo é curto, directo e frequentemente divertido, com personagens bem caracterizadas apesar do pouco texto. O gato companheiro da princesa, por exemplo, comenta frequentemente as derrotas e decisões do jogador, enquanto figuras como uma versão peculiar de Merlin acrescentam humor e contexto ao mundo.

Um dos aspectos mais interessantes é a forma como o jogo apresenta informação sobre pratos reais e criaturas mitológicas. Cada receita e cada monstro vem acompanhado de descrições detalhadas que explicam a sua origem, tornando Hungry Horrors quase educativo em certos momentos. É um daqueles jogos onde se aprende algo novo sem nunca parecer uma lição forçada.

Esta atenção ao detalhe ajuda a criar uma ligação mais forte ao mundo do jogo. Mesmo após várias derrotas, há sempre curiosidade em descobrir que nova criatura ou prato poderá surgir na próxima tentativa.

Grafismo

Visualmente, Hungry Horrors aposta num estilo pixel art cheio de personalidade. Os cenários são variados e organizados em diferentes biomas, cada um com a sua própria paleta de cores e conjunto de monstros. Esta diversidade ajuda a evitar a repetição visual, algo importante num jogo que incentiva múltiplas runs.

Os monstros são um dos grandes destaques. Conseguem ser simultaneamente assustadores e adoráveis, uma combinação difícil de equilibrar, mas que aqui funciona surpreendentemente bem. As animações de derrota da princesa são únicas para cada criatura e revelam um cuidado raro, especialmente num projecto independente.

Há, no entanto, pequenos detalhes que quebram ligeiramente a imersão. Em alguns casos, nota-se uma inconsistência no tamanho dos píxeis entre diferentes elementos do cenário ou da interface. Não é algo que estrague a experiência, mas é perceptível para quem está atento a este tipo de pormenor visual.

Ainda assim, o conjunto geral é bastante coeso e transmite bem a atmosfera mágica e ligeiramente estranha que define Hungry Horrors.

Som

A componente sonora acompanha de forma muito competente o resto da experiência. A música cria uma atmosfera encantada e misteriosa, adequada ao tema folclórico do jogo, sem nunca se tornar intrusiva ou cansativa. Mesmo após longas sessões, as faixas mantêm-se agradáveis e ajudam a definir o ritmo de cada área.

Os efeitos sonoros são igualmente bem conseguidos. Cada carta jogada, cada reacção dos monstros e cada evento importante tem um feedback sonoro claro, o que facilita a leitura do jogo e torna as acções mais satisfatórias. Importante também é o facto de o som não se tornar repetitivo, algo comum em jogos de estrutura roguelite.

O trabalho sonoro pode não ser particularmente inovador, mas é sólido e eficaz, cumprindo perfeitamente o seu papel na construção da atmosfera.

Conclusão

Hungry Horrors é um excelente exemplo de como uma ideia simples, bem executada, pode renovar um género já bastante explorado. A decisão de substituir o combate tradicional por um sistema baseado em alimentar monstros não é apenas um truque curioso, mas uma mudança estrutural que influencia toda a experiência de jogo.

Apesar de uma curva de dificuldade algo agressiva nas fases iniciais, o jogo recompensa a persistência com sistemas profundos, personagens carismáticas e um mundo rico em detalhe e identidade. Nota-se claramente o carinho e a dedicação colocados neste projecto, algo que transparece em pequenos pormenores, desde as animações únicas às descrições cuidadas de pratos e criaturas.

Para fãs de deck-builders que procuram algo diferente, Hungry Horrors é uma recomendação fácil. Mesmo para quem não está tão familiarizado com o género, a originalidade da proposta e a clareza das mecânicas tornam-no num título acessível e memorável. Com o desenvolvimento ainda em curso, fica a sensação de que este é apenas o início de algo com bastante potencial.

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