Antevisão: Raiders of Blackveil

Raiders of Blackveil chega ao Steam em Acesso Antecipado com uma ambição clara: misturar a estrutura viciante dos roguelites modernos com personagens ao estilo MOBA, foco em jogo cooperativo e um sistema de progressão suficientemente profundo para fazer cada run sentir-se única. Desenvolvido pela Wombo Games, estúdio fundado por Janos Flösser, um dos nomes associados à criação da série Hitman, o jogo apresenta-se desde logo como algo que merece atenção, nem que seja pelo pedigree criativo por detrás do projecto.

A premissa é simples, quase clássica. Num mundo dominado pela corporação Blackveil, a natureza foi escravizada e explorada até ao limite. Os jogadores assumem o papel de rebeldes antropomórficos que atacam instalações industriais, roubam recursos e tentam sobreviver tempo suficiente para enfraquecer este império opressivo. Onde Raiders of Blackveil se distingue não é tanto na história em si, mas na forma como cruza esta temática com mecânicas de extracção, progressão persistente e sinergias de equipa.

Depois de várias horas em incursões a solo e em cooperativo, torna-se evidente que o jogo tem um núcleo extremamente viciante. No entanto, também é impossível ignorar que este lançamento em Acesso Antecipado é irregular. Problemas técnicos, bugs graves e falta de conteúdo fazem com que a experiência oscile entre momentos brilhantes e frustração pura. Raiders of Blackveil é, acima de tudo, um jogo cheio de potencial que ainda não está totalmente preparado para ser julgado como produto final.

Jogabilidade
A jogabilidade é o maior trunfo de Raiders of Blackveil. Cada sessão começa com a escolha de um campeão, cada um com um estilo de jogo bem definido, inspirado em arquétipos típicos de MOBAs como tanque, causador de dano ou suporte. A partir daí, somos lançados para uma fábrica gerada de forma procedural, onde o objectivo é simples: avançar, derrotar inimigos, recolher loot e decidir quando é altura de extrair antes que tudo corra mal.

O sistema de combate em vista top-down é rápido, responsivo e suficientemente caótico para manter a tensão constante. A verdadeira profundidade, no entanto, surge através do sistema de perks. Existem mais de 300 perks distribuídos por oito classes distintas, desde Guerreiro e Guardião até Druida ou Bruxo. Estes perks alteram drasticamente a forma como cada personagem funciona, criando builds radicalmente diferentes de run para run.

O grande destaque vai para os Duo Perks, bónus especiais que só são activados quando dois jogadores combinam determinadas classes ou estilos de jogo. Estes perks incentivam uma coordenação constante e recompensam equipas que comunicam e planeiam em conjunto. Quando tudo encaixa, o jogo transforma-se quase num puzzle táctico em tempo real, onde cada decisão conta.

Fora das runs, existe uma progressão persistente que dá sentido ao risco assumido em cada incursão. O equipamento recolhido pode ser vendido, melhorado ou utilizado para fortalecer futuras tentativas. Não é um jogo simples ou imediato como Vampire Survivors, e isso joga a seu favor. Raiders of Blackveil exige atenção, planeamento e alguma paciência, especialmente nesta fase de desenvolvimento.

Mundo e história
Embora a narrativa não seja o foco principal, o mundo de Raiders of Blackveil tem personalidade suficiente para sustentar a experiência. A ideia de animais rebeldes a lutar contra uma corporação industrial cria um contraste interessante entre o natural e o artificial. A Blackveil não é apenas um vilão abstracto, mas uma presença constante, visível nas fábricas, nas máquinas e nos inimigos que encontramos.

Actualmente, o jogo conta apenas com dois biomas principais, incluindo a infame Meat Factory, um cenário tão desconfortável quanto memorável, e uma zona mais recente ligada a operações agrícolas industriais. Cada bioma tem identidade própria, tanto visual como mecânica, mas a repetição começa a notar-se mais cedo do que seria desejável.

Os bosses seguem a mesma linha. São desafiantes e bem desenhados, mas poucos em número, o que limita a sensação de progressão narrativa. Ainda assim, a base está lá. Há espaço para expandir este universo com novos locais, facções e histórias ambientais, algo que o estúdio já prometeu ao longo do período de Acesso Antecipado.

Grafismo
Visualmente, Raiders of Blackveil aposta numa estética de fantasia industrial sombria que resulta melhor do que seria de esperar. Os cenários estão cheios de detalhes, desde tapetes rolantes e maquinaria pesada até resíduos orgânicos e estruturas metálicas opressivas. O contraste entre personagens animais estilizados e ambientes industriais cria uma identidade visual forte.

A perspectiva isométrica é clara e funcional, permitindo ler facilmente a acção mesmo quando o ecrã está cheio de inimigos e efeitos visuais. As animações dos personagens são expressivas e ajudam a distinguir rapidamente cada campeão em combate.

Em termos técnicos, o desempenho é geralmente estável, embora existam quebras ocasionais e alguns problemas de optimização, especialmente em sessões cooperativas. Nada de inesperado para um jogo em Acesso Antecipado, mas suficiente para lembrar que ainda há trabalho a fazer antes da versão final.

Som
O design sonoro cumpre a sua função sem se destacar particularmente. Os efeitos sonoros das armas e habilidades são claros e ajudam a dar feedback durante o combate, embora em versões iniciais tenham existido problemas com sons em falta, especialmente em bloqueios e impactos, algo que tem vindo a ser corrigido com patches recentes.

A banda sonora acompanha bem o ambiente industrial e opressivo, apostando em temas discretos que não se sobrepõem à acção. Não é memorável, mas também não distrai, funcionando como um pano de fundo competente para o caos constante das incursões.

Conclusão
Raiders of Blackveil é um daqueles jogos que deixam sentimentos mistos. Por um lado, tem um núcleo de jogabilidade extremamente sólido, um sistema de perks profundo e inteligente e uma forte aposta no jogo cooperativo que o distingue de muitos outros roguelites no mercado. Quando tudo funciona e a equipa está alinhada, a experiência é genuinamente viciante.

Por outro lado, o estado actual do jogo em Acesso Antecipado é problemático. Bugs que apagam progresso, matchmaking instável e uma quantidade limitada de conteúdo tornam difícil recomendar o jogo sem reservas. Jogar a solo evidencia ainda mais estas fragilidades, já que grande parte do design parece pensado de raiz para cooperação.

Para quem tem um grupo fixo de amigos, paciência para lidar com problemas técnicos e interesse em acompanhar a evolução de um projecto ambicioso, Raiders of Blackveil já oferece momentos que justificam a atenção. Para todos os outros, a melhor opção será acompanhar o desenvolvimento à distância e esperar pela versão 1.0 prevista para 2026. A base é forte, falta apenas tempo e polimento para que este potencial se transforme num produto verdadeiramente memorável.

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