Antevisão: Running Fable Petite Party

Running Fable Petite Party chega como uma proposta claramente pensada para transformar o universo do jogo original num verdadeiro caos de sala de estar. Desenvolvido pela Seashell Studio, o estúdio mexicano de Querétaro responsável por Running Fable, este spin-off aposta num formato de jogo de tabuleiro digital recheado de mini-jogos rápidos, sabotagem constante e gargalhadas inevitáveis. Lançado a 30 de janeiro de 2026 para PC e todas as consolas atuais e da geração anterior, Petite Party assume sem vergonha a sua vocação familiar, mas com aquela malícia típica dos melhores party games, onde a amizade é temporária e a vingança está sempre a uma jogada de distância.

Em vez de tentar contar uma história complexa ou expandir o lore do universo, o jogo concentra-se em criar momentos. Momentos de traição, de azar monumental nos dados, de quedas para o vazio provocadas por quem está sentado mesmo ao nosso lado no sofá. É um jogo que vive do contacto humano, da reação imediata e da capacidade de rir quando tudo corre mal. A experiência aproxima-se mais de um Mario Party simplificado do que de um jogo competitivo tradicional, e isso é assumido desde o primeiro minuto.

Jogabilidade

A base de Running Fable Petite Party assenta num sistema híbrido entre tabuleiro e mini-jogos. Existem três tabuleiros diferentes, cada um com um número distinto de casas, 12, 14 e 16, e cada jogada avança através do lançamento de um dado de seis faces. Na prática, este sistema é extremamente simples, quase minimalista, o que o torna acessível a jogadores de todas as idades. No entanto, essa simplicidade acaba por ser uma faca de dois gumes, já que o ritmo pode tornar-se algo repetitivo quando os lançamentos raramente permitem avanços significativos.

Sempre que os jogadores aterrissam em determinadas casas, são desencadeados mini-jogos, que constituem o verdadeiro coração da experiência. No total, existem 16 mini-jogos, todos eles desenhados para sessões curtas e intensas. Estes desafios cobrem várias áreas, desde memória e coordenação até provas de agilidade e sobrevivência pura, onde o objetivo não é tanto ganhar, mas garantir que os outros perdem primeiro. A sabotagem é incentivada de forma clara, com empurrões, pancadas, bombas e todo o tipo de interações físicas que transformam cada prova num pequeno campo de batalha.

É aqui que o jogo realmente brilha. As regras são fáceis de perceber, os controlos são imediatos e, em poucos segundos, todos percebem que jogar limpo é opcional. Mini-jogos como o de transporte de cenouras rapidamente deixam de ser uma prova de destreza para se tornarem uma luta constante para empurrar os adversários para fora do mapa. Esta liberdade cria momentos imprevisíveis e memoráveis, especialmente em contexto familiar, onde a rivalidade saudável rapidamente se transforma em gargalhadas gerais.

Mundo e história

Running Fable Petite Party não tem uma narrativa tradicional, nem tenta fingir que tem. O mundo do jogo funciona como um palco colorido e fantasioso onde tudo serve o propósito da diversão imediata. O tabuleiro em si parece uma espécie de bolo gigante, com casas numeradas que lembram pedaços de chocolate, rodeado por personagens em forma de coelhos e outras criaturas adoráveis. É um cenário que transmite leveza e humor, perfeito para o tom descontraído que o jogo procura.

As personagens não têm histórias individuais ou diálogos, mas compensam essa ausência com expressividade. Cada reação, cada animação exagerada e cada expressão facial ajuda a dar personalidade a estas figuras, mesmo quando não existe qualquer contexto narrativo. O foco está claramente na experiência partilhada e não na construção de um universo profundo, o que acaba por ser uma decisão acertada para um jogo deste género.

Existe também um cuidado interessante na forma como o jogo apresenta pequenas animações de colocação e reação das personagens, embora nem sempre estas correspondam ao resultado obtido. Há momentos em que uma personagem parece satisfeita com um último lugar, o que quebra ligeiramente a coerência emocional da situação. Não é um problema grave, mas é um detalhe que se nota, sobretudo em sessões mais longas.

Grafismo

Visualmente, Running Fable Petite Party mantém a identidade estética do jogo original, apostando num estilo colorido, vibrante e claramente inspirado em contos de fadas modernos. Os cenários são simples, mas eficazes, cheios de cores fortes e formas arredondadas que reforçam a sensação de um brinquedo digital. Tudo parece ter sido desenhado para ser imediatamente legível, mesmo em ecrãs mais pequenos ou à distância, o que é essencial num jogo pensado para ser jogado em grupo.

As personagens são um dos pontos fortes do grafismo. São expressivas, carismáticas e altamente personalizáveis, permitindo alterar pequenos detalhes visuais antes de cada partida. Esta personalização, apesar de não ter impacto na jogabilidade, contribui para o envolvimento dos jogadores, sobretudo dos mais novos, que adoram criar versões únicas das suas personagens antes de começar o caos.

Em termos de performance, o jogo comporta-se de forma sólida. As animações, baseadas em física exagerada, funcionam bem e raramente apresentam problemas técnicos. Mesmo nos mini-jogos mais caóticos, com vários elementos em movimento ao mesmo tempo, a fluidez mantém-se consistente, algo essencial para não comprometer a diversão.

Som

A componente sonora de Running Fable Petite Party é, em grande parte, adequada ao tom energético do jogo, mas apresenta alguns desequilíbrios evidentes. A música é alegre, animada e encaixa bem no ambiente festivo, mas os níveis de volume variam de forma abrupta. Existem momentos em que a música parece demasiado baixa, quase impercetível, seguidos de outros em que explode de forma exagerada, dominando completamente o espaço sonoro.

Alguns mini-jogos, como Racing Rampage, destacam-se pela intensidade sonora excessiva, dando a sensação de que a música está a tentar competir com um concerto ao vivo. Este tipo de variação pode tornar-se cansativo, especialmente em sessões prolongadas ou quando se joga com crianças mais sensíveis ao ruído. É um aspeto que poderia ser facilmente resolvido com um melhor balanceamento de áudio ou opções mais detalhadas nas definições.

Os efeitos sonoros, por outro lado, cumprem bem a sua função. Cada pancada, queda ou explosão tem impacto e reforça a natureza caótica da jogabilidade. As reações das personagens, ainda que simples, ajudam a dar feedback imediato ao jogador e contribuem para o ritmo acelerado dos mini-jogos.

Conclusão

Running Fable Petite Party é um daqueles jogos que não tenta ser mais do que realmente é, e ganha precisamente por isso. É um party game acessível, divertido e pensado para criar memórias em grupo, seja em família, entre amigos ou até em sessões mais tranquilas a solo contra NPCs. A possibilidade de jogar sozinho serve sobretudo como treino ou passatempo, mas é no multijogador local que o jogo atinge todo o seu potencial.

Apesar de alguns problemas evidentes, como o comportamento estranho do dado nos tabuleiros, o ritmo algo repetitivo das jogadas e o balanceamento de áudio irregular, o núcleo da experiência é sólido. Os mini-jogos são variados, a sabotagem é divertida sem se tornar frustrante e o ambiente geral incentiva a interação constante entre os jogadores. É um jogo que aceita o trash talk, as provocações e as pequenas vinganças como parte essencial da diversão.

Para quem procura um jogo familiar, fácil de pegar e jogar, e capaz de arrancar risadas mesmo quando se está a perder constantemente, Running Fable Petite Party é uma recomendação fácil. Não reinventa o género, mas executa bem aquilo a que se propõe, oferecendo uma dose saudável de caos controlado. Seja numa festa, num convívio ou numa noite aparentemente calma que acaba em gritos e gargalhadas, este é um título que cumpre a sua promessa de diversão imediata e partilhada.

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