Talystro é um daqueles jogos que, à primeira vista, parece estar a pedir comparações constantes com referências bem conhecidas do género. Um roguelite de construção de baralhos que mistura dados, cartas e matemática soa imediatamente a uma combinação improvável entre Slay the Spire, Balatro e um jogo educativo. Felizmente, Talystro consegue ser mais do que a soma dessas influências, apresentando uma identidade própria que se revela logo nos primeiros minutos de jogo.
Durante o playtest recente, ficou claro que o estúdio Filiokus não quer apenas criar um clone com uma camada de números por cima. Talystro assume a matemática como o seu núcleo mecânico, mas fá-lo de uma forma lúdica, intuitiva e surpreendentemente acessível. Não estamos perante um jogo que tenta ensinar contas de forma forçada, mas sim um que usa a matemática como linguagem base para todas as decisões, transformando cálculos em ferramentas de sobrevivência.
O resultado é um título que se sente fresco dentro de um género já bastante explorado. Talystro desafia o jogador a pensar de forma diferente, a planear vários passos à frente e a encontrar soluções elegantes para problemas aparentemente simples. Ao mesmo tempo, mantém aquele ciclo viciante de runs curtas, melhorias constantes e aquela sensação agridoce de aprender mais com cada derrota.
Jogabilidade
A estrutura de Talystro assenta num loop bastante familiar para quem já passou horas em roguelites de cartas. Começamos sempre com o mesmo baralho inicial, enfrentamos uma sequência de encontros, escolhemos caminhos num mapa ramificado e vamos melhorando o nosso arsenal ao longo da run. A grande diferença está na forma como tudo isto é executado.
Em combate, enfrentamos números inimigos em vez de monstros tradicionais. Cada inimigo tem um valor específico, como 14, 19 ou 21, e o objectivo é igualar esse valor usando uma combinação de dados e cartas. Os dados têm valores variáveis e podem ser colocados em slots específicos das cartas, que por sua vez modificam ou somam esses valores de formas criativas. Não basta somar números ao acaso; é preciso perceber como cada carta interage com os dados e como isso afecta o tabuleiro como um todo.
A cada ronda, lançamos os dados, recebemos uma mão de cartas e decidimos onde colocar cada elemento. Quando conseguimos atingir exactamente o valor de um inimigo, este é eliminado. Caso contrário, os inimigos que ficam activos e com dados associados causam dano ao jogador no final da ronda. Este sistema cria uma tensão constante entre atacar o máximo possível e minimizar o dano recebido, obrigando a decisões cuidadosas em cada turno.
Fora do combate, Talystro segue uma lógica semelhante a outros jogos do género. Existem lojas onde podemos gastar moedas para comprar novas cartas, remover cartas indesejadas, melhorar dados, curar vida ou adquirir artefactos com efeitos passivos. A progressão sente-se sempre significativa, mesmo durante o playtest, e cada melhoria tem impacto real na forma como jogamos os combates seguintes.

Mundo e história
Talystro não aposta numa narrativa pesada ou cheia de texto, mas isso não significa que o seu mundo seja vazio. Pelo contrário, existe uma identidade muito clara e coerente, construída sobretudo através da apresentação visual e da lógica interna do jogo. O mundo é habitado por números hostis, entidades abstractas que representam obstáculos matemáticos a serem resolvidos.
Esta abordagem minimalista funciona bem, porque reforça o tema central do jogo sem distrair o jogador com exposições desnecessárias. Cada encontro é um pequeno puzzle, cada inimigo é um problema à espera de solução. A ausência de uma história tradicional acaba por dar mais espaço à imaginação do jogador, que preenche os espaços em branco com base na sua própria experiência de jogo.
Durante o playtest, é possível perceber que existe margem para expandir este universo. A promessa de múltiplos bosses, ascensões e novos tipos de cartas sugere que o mundo de Talystro poderá ganhar mais camadas e variedade na versão final, mesmo que continue a comunicar sobretudo através de sistemas e não de diálogos.
Grafismo
Visualmente, Talystro é um verdadeiro mimo. O jogo adopta um estilo desenhado à mão que remete imediatamente para animações clássicas, com uma fluidez e expressividade que raramente se vê neste tipo de jogos. Há uma clara inspiração em trabalhos como Cuphead, mas Talystro nunca parece uma imitação directa, conseguindo manter uma personalidade própria.
As cartas são cheias de detalhe, os dados têm uma presença física convincente e os inimigos numéricos ganham vida através de pequenas animações e reacções visuais. Tudo no ecrã responde às acções do jogador de forma imediata e satisfatória, o que torna cada jogada mais prazerosa, mesmo quando o resultado não é o esperado.
A clareza visual também merece destaque. Apesar da quantidade de informação presente em cada combate, o jogo consegue comunicar tudo de forma limpa e legível. Os valores, os efeitos das cartas e as interacções entre elementos são fáceis de acompanhar, algo essencial num jogo que vive da manipulação de números.

Som
O trabalho sonoro em Talystro acompanha muito bem o resto da experiência. A banda sonora é discreta, mas eficaz, criando um ambiente calmo e concentrado que ajuda o jogador a entrar no ritmo dos cálculos e decisões. Não há temas intrusivos ou repetitivos em excesso, o que é importante num jogo pensado para sessões repetidas.
Os efeitos sonoros são particularmente bem conseguidos. Cada colocação de dado, activação de carta ou destruição de um inimigo tem um som associado que reforça a acção no ecrã. Estes pequenos detalhes contribuem bastante para a sensação de polimento geral e para aquele feedback imediato que torna o jogo tão satisfatório de jogar.
Mesmo durante o playtest, ficou a sensação de que o áudio já está num estado bastante sólido, precisando apenas de pequenos ajustes de equilíbrio ou variedade para acompanhar a versão final do jogo.
Conclusão
Talystro é uma excelente surpresa e um exemplo de como ainda há espaço para inovação dentro do género dos roguelites de cartas. Ao colocar a matemática no centro da jogabilidade e tratá-la como um brinquedo em vez de uma obrigação, o jogo consegue ser desafiante, acessível e profundamente viciante.
O playtest deixa claro que há ainda muito por vir, com promessas de mais cartas, artefactos, bosses e sistemas de progressão. Mesmo assim, o que já está disponível mostra um nível de polimento e uma clareza de visão que inspiram confiança. Talystro não é apenas um bom jogo para quem gosta de Slay the Spire ou Balatro; é um título com identidade própria, capaz de conquistar jogadores que nunca pensaram gostar de um jogo baseado em números.
Se a versão final conseguir expandir esta base sem perder o equilíbrio e a elegância actuais, Talystro tem tudo para se tornar uma referência no género. Fica a vontade de jogar mais, experimentar novas combinações e ver até onde este estranho e fascinante mundo de dados e cartas nos pode levar.