Vivemos numa época curiosa, quase surreal, em que propriedades intelectuais que marcaram a infância de várias gerações começam a entrar no domínio público e, quase de imediato, são reinterpretadas sob lentes muito mais sombrias. Para quem cresceu com livros ilustrados, desenhos animados e personagens reconfortantes, há algo de fascinante — e perturbador — em ver esses ícones transformados em matéria-prima para o terror. Winnie the Pooh é talvez o exemplo mais mediático desta tendência recente, com incursões pelo cinema de horror de baixo orçamento e agora também pelos videojogos. É neste contexto que surge Winnie’s Hole, um título que pega no urso mais guloso da cultura popular e o atira sem pudor para o território do body horror, combinando essa abordagem grotesca com mecânicas de roguelike, construção de baralhos e puzzles baseados em peças ao estilo tetromino.
À primeira vista, Winnie’s Hole pode parecer apenas mais uma tentativa de capitalizar nostalgia através do choque fácil. No entanto, bastam poucos minutos de jogo para perceber que há aqui algo mais interessante a acontecer. A mistura de géneros é arriscada, o tom oscila entre o paródico e o macabro, e a execução revela uma ambição pouco comum, sobretudo tratando-se de um jogo ainda em Early Access. O resultado é uma experiência estranha, desconfortável e, surpreendentemente, bastante cativante.
Jogabilidade
A estrutura de Winnie’s Hole assenta num ciclo roguelike bem definido, dividido essencialmente entre combate e exploração. Ambas as vertentes partilham uma mecânica central: a colocação de blocos com formas variadas, inspiradas nos clássicos tetrominos, que funcionam como o verdadeiro coração do jogo. No combate, estas peças substituem o tradicional sistema de cartas de muitos deckbuilders. Cada bloco tem uma forma específica e, ao ser colocado na grelha, activa todos os efeitos que toca. Esses efeitos podem incluir ataques, cura, escudos ou habilidades especiais, permitindo que uma única jogada desencadeie várias acções em simultâneo.
Este sistema incentiva o planeamento e a experimentação. Não se trata apenas de escolher a melhor carta, mas de encaixar a peça certa no espaço certo, maximizando o seu impacto. Um bom posicionamento pode significar atacar vários inimigos, recuperar vida e ainda reforçar a defesa numa só jogada. Um mau encaixe, por outro lado, pode resultar num turno desperdiçado ou numa eficácia muito abaixo do potencial.
A exploração utiliza a mesma lógica, mas de forma diferente. Entre combates, o jogador entra em pequenas áreas onde deve usar um número limitado de peças para recolher recursos. O objectivo é preencher o espaço de forma eficiente, apanhando o máximo possível sem tocar nos limites da área. Sair fora dos limites ou encostar demasiado às bordas provoca dano, penalizando a progressão. Este sistema funciona como um mini-puzzle entre lutas, quebrando o ritmo do combate e obrigando o jogador a pensar de outra forma sobre as mesmas mecânicas.
Outro aspecto digno de nota é a árvore de melhorias. Winnie’s Hole é extremamente generoso nas mutações e modificadores que podem ser aplicados às habilidades. É possível adicionar efeitos como duplicar uma acção, aplicá-la a múltiplos inimigos ou activá-la automaticamente ao ser comprada. Estas mutações criam sinergias absurdas e momentos de puro caos controlado, típicos dos melhores roguelikes, onde uma build bem conseguida transforma o jogador numa força imparável… ou num monstro ainda mais horrendo do que o habitual.

Mundo e história
A narrativa de Winnie’s Hole é simples na premissa, mas eficaz na forma como serve de suporte à jogabilidade e ao tom geral do jogo. Tudo gira em torno de um vírus aterrador que começa a crescer dentro do corpo de Winnie. À medida que a infecção se espalha, o urso sofre mutações cada vez mais grotescas, ganhando novas habilidades e poderes, mas também perdendo qualquer vestígio de inocência ou humanidade.
Esta progressão narrativa está intimamente ligada às mecânicas. Cada mutação escolhida não é apenas um bónus estatístico ou uma nova carta no baralho; é uma alteração física real no corpo de Winnie. O jogo apresenta uma espécie de body horror procedimental, em que olhos extra, patas de insecto, garras de crustáceo e outras deformações surgem em locais aleatórios do corpo do personagem. O efeito é simultaneamente repugnante e fascinante, reforçando a ideia de que o jogador está a moldar um organismo em constante degradação.
As personagens secundárias, inspiradas nas figuras clássicas do universo original, surgem aqui como versões distorcidas e inquietantes de si próprias. Amigos de infância tornam-se presas, inimigos ou testemunhas horrorizadas da transformação de Winnie. Não há grande profundidade psicológica ou diálogos extensos, mas isso não é propriamente um problema. O jogo aposta mais na sugestão visual e no desconforto implícito do que numa narrativa tradicional.
Grafismo
Visualmente, Winnie’s Hole adopta um estilo artístico próprio, afastando-se deliberadamente da estética clássica associada à personagem original. As cores são mais sombrias, os traços mais agressivos e as formas orgânicas ganham um destaque perturbador. O corpo de Winnie, em particular, é o grande foco visual do jogo. À medida que as mutações se acumulam, o urso transforma-se numa massa disforme de carne, olhos e membros extra, animada de forma suficientemente fluida para causar algum desconforto.
Este uso de body horror procedural é, sem dúvida, um dos pontos mais fortes do jogo. Ver o corpo do personagem alterar-se de forma dinâmica cria uma ligação directa entre as escolhas do jogador e o horror apresentado no ecrã. No entanto, há espaço para melhorias. Alguns jogadores poderão sentir falta de uma aproximação estética mais próxima do material original, algo que poderia intensificar o contraste entre nostalgia e horror. A opção tomada pelos developers é válida, mas sacrifica um pouco desse efeito de estranheza familiar.
Outro ponto menos conseguido está nas animações de combate. Apesar de todo o cuidado posto no design de Winnie, os ataques e impactos são muitas vezes representados de forma demasiado simples, recorrendo a efeitos estáticos pouco impressionantes. A discrepância entre o detalhe do personagem principal e a simplicidade dos efeitos visuais em combate é notória.

Som
No departamento sonoro, Winnie’s Hole cumpre sem se destacar em demasia. A banda sonora aposta em temas atmosféricos, discretos, que acompanham bem o tom macabro do jogo sem se tornarem intrusivos. Os sons ambientes ajudam a criar uma sensação constante de desconforto, com ruídos orgânicos, ecos estranhos e efeitos subtis que reforçam a ideia de que algo está profundamente errado.
Os efeitos sonoros associados às mutações e às acções em combate são competentes, mas tal como acontece com as animações, poderiam ir mais longe. Há potencial para um design sonoro mais agressivo e visceral, que acompanhe a brutalidade visual das transformações de Winnie. Ainda assim, o conjunto funciona e contribui para a imersão, mesmo que não deixe uma marca memorável por si só.
Conclusão
Winnie’s Hole é muito mais do que um exercício de choque fácil baseado numa propriedade agora em domínio público. É um roguelike inventivo, que mistura construção de baralhos, puzzles de colocação de blocos e uma estética de body horror de forma surpreendentemente coesa. As suas mecânicas são sólidas, as ideias são frescas e a execução, especialmente para um jogo em Early Access, revela um nível de polimento acima da média.
Há falhas evidentes, sobretudo ao nível das animações e dos efeitos de combate, que poderiam elevar ainda mais o impacto do horror apresentado. No entanto, estas limitações não ofuscam o mérito do conjunto. Winnie’s Hole consegue ser perturbador, divertido e inteligente ao mesmo tempo, sem nunca cair totalmente no ridículo nem levar-se demasiado a sério.
Para fãs de roguelikes à procura de algo diferente, ou para quem tem curiosidade em ver até onde pode ir esta tendência de reinterpretar ícones infantis sob uma luz mais sombria, Winnie’s Hole é uma experiência que vale claramente a pena acompanhar. Se o futuro desenvolvimento conseguir aprofundar e refinar aquilo que já aqui está, poderemos estar perante um pequeno clássico estranho, grotesco e memorável.