Análise: Aces of Thunder

Quando a Gaijin Entertainment decidiu baptizar este projecto como Aces of Thunder, sabia perfeitamente o peso que estava a invocar. O nome é uma piscadela de olho evidente ao seu próprio fenómeno multijogador, War Thunder, mas para quem cresceu com simuladores de voo nos anos 90, há ali uma herança quase sagrada. Títulos como Red Baron, Aces of the Pacific ou Aces Over Europe marcaram uma geração inteira de jogadores que descobriram a emoção do combate aéreo muito antes das consolas dominarem o mercado.

Aces of Thunder não pretende ser uma sequela espiritual directa dessa linhagem, mas assume-se claramente como um sucessor moderno dessa tradição. Trata-se de um simulador de combate aéreo focado na era dos aviões a hélice, com especial ênfase na Primeira e Segunda Guerra Mundial. Desenvolvido e publicado pela Gaijin Entertainment, está disponível para PS VR2 e PC VR, com compatibilidade para jogo em ecrã plano e crossplay. O preço base é apelativo e, mais importante ainda, não há barreiras artificiais de progressão a separar o jogador das máquinas lendárias que quer pilotar.

Num mercado onde muitos jogos insistem em modelos free-to-play com progressão lenta e microtransacções constantes, Aces of Thunder adopta uma filosofia mais clássica. Escolhemos o avião e levantamos voo. Parece simples, mas essa simplicidade é, em grande medida, a sua maior força.

Jogabilidade

No essencial, Aces of Thunder é um simulador de combate aéreo ambientado na era dos motores a pistão. O foco está na autenticidade e na imersão, especialmente em realidade virtual. Ao contrário de War Thunder, que abrange praticamente todo o espectro de veículos militares do século XX, aqui a selecção é mais contida: quatro aeronaves da Primeira Guerra Mundial, incluindo o icónico Fokker Dr.I, e cerca de vinte modelos da Segunda Guerra Mundial oriundos das principais potências.

Entre eles encontramos máquinas lendárias como o P-51 Mustang, o P-47 Thunderbolt, o Supermarine Spitfire, o Mitsubishi A6M Zero e o De Havilland Mosquito, bem como aviões emblemáticos da Alemanha e da União Soviética. São precisamente aqueles modelos que muitos de nós conhecemos primeiro em livros, documentários ou até pendurados no tecto do quarto em miniatura.

A grande diferença face a War Thunder não está apenas na escala, mas na filosofia. Todos os aviões estão disponíveis desde o início. Não há grind, não há desbloqueios intermináveis de variantes obscuras ou equipamentos secundários. Pagamos o jogo e temos acesso ao seu conteúdo. Esta abordagem é refrescante e confere uma liberdade imediata que reforça a vontade de experimentar cada aparelho.

Em realidade virtual, a experiência ganha outra dimensão. A visão é exclusivamente a partir do cockpit. Não existem câmaras externas, nem HUD intrusivo, nem indicadores flutuantes que denunciem a posição de inimigos ou o estado crítico da aeronave. Existe apenas um mapa físico pousado no colo do piloto e a instrumentação do painel. Tudo o resto depende dos nossos olhos e ouvidos.

A leitura dos instrumentos, o som da estrutura a ranger sob esforço, a vibração de uma asa prestes a ceder, tudo faz parte da experiência. Voar aqui é um acto físico e mental. É preciso dominar os controlos, gerir a energia da aeronave, manter consciência situacional e, ao mesmo tempo, procurar o inimigo no horizonte. Quando os projécteis traçantes cruzam o céu e pedaços de metal passam junto ao cockpit, percebemos o quão visceral esta proposta consegue ser.

Mundo e história

Aces of Thunder oferece um conjunto generoso de conteúdos para um jogador. Existem 14 missões individuais e nove War Stories. Na prática, a diferença entre ambas é sobretudo temática. As missões soltas podem ser jogadas em qualquer ordem e não estão ligadas a eventos históricos específicos. Já as War Stories percorrem momentos emblemáticos da Segunda Guerra Mundial.

Patrulhamos os céus junto às White Cliffs of Dover, defendemos os mares em redor de Pearl Harbor, apoiamos operações na Normandia e participamos em combates sobre Iwo Jima. Não existe uma campanha narrativa profunda que una todos estes cenários, mas cada missão funciona como um episódio independente de combate.

Curiosamente, a ausência de uma narrativa estruturada acaba por favorecer a rejogabilidade. Muitas missões podem ser concluídas cumprindo objectivos simples e seguindo waypoints, mas a liberdade táctica permite abordagens diferentes em cada tentativa.

O verdadeiro destaque no modo a solo é o editor de missões. Este permite escolher o teatro de operações adequado ao avião seleccionado, definir o sector do mapa, a disposição da linha da frente, o tipo de confronto, as condições meteorológicas, a hora do dia e o nível de dificuldade. Para quem aprecia experimentar cenários hipotéticos ou simplesmente deseja uma sortie rápida contra a inteligência artificial, as opções são vastas.

No multijogador, a estrutura é semelhante à de War Thunder, embora com uma população naturalmente mais reduzida. Seleccionamos a aeronave e o sistema procura uma batalha adequada, preenchendo o resto do espaço aéreo com bots quando necessário. Também é possível criar batalhas personalizadas com parâmetros específicos, permitindo encontros improváveis entre aeronaves de diferentes teatros de guerra.

Grafismo

Do ponto de vista técnico, Aces of Thunder utiliza uma base partilhada com War Thunder, o que traz vantagens e limitações. Em PC VR, mesmo em máquinas que apenas cumprem os requisitos recomendados, o desempenho revela-se sólido e consistente. A fluidez é essencial numa experiência em realidade virtual e, nesse aspecto, o jogo cumpre.

Há algum pop-in a distâncias médias e certos elementos do cenário, como vegetação, ajustam-se de forma visível quando sobrevoados. Alguns mapas da Frente Oriental apresentam texturas algo datadas e edifícios pouco detalhados, reflexo directo da reutilização de activos.

No entanto, o foco visual está claramente nas aeronaves e nos cockpits. O nível de detalhe interior é convincente, com instrumentos legíveis e modelos tridimensionais bem trabalhados. A sensação de profundidade e escala em VR é impressionante. Ver uma asa inimiga a desfazer-se sob fogo cerrado ou acompanhar o rasto de projécteis traçantes no crepúsculo são momentos que justificam plenamente a aposta na realidade virtual.

A ausência de elementos de interface reforça a imersão. Não há distrações visuais artificiais. Estamos dentro da máquina e tudo o que vemos pertence ao mundo do jogo.

Som

O design sonoro desempenha um papel crucial na experiência. Sem HUD nem alertas intrusivos, o som torna-se uma ferramenta essencial. O motor muda de tom conforme a rotação, a estrutura range sob forças excessivas, o vento aumenta quando mergulhamos em picada.

Os disparos têm peso e presença, e o impacto de balas na fuselagem transmite urgência imediata. Em realidade virtual, a espacialização sonora ajuda a identificar ameaças e a reforçar a consciência situacional. Ouvir um inimigo a aproximar-se por trás pode ser a diferença entre sobreviver ou entrar em espiral rumo ao solo.

Fora do cockpit, a apresentação é minimalista. O jogo inicia-se de forma quase abrupta, colocando-nos num aeródromo improvisado com sons distantes de pássaros e música antiga de gramofone. Não existem tutoriais extensivos nem explicações detalhadas. Esta abordagem pode afastar jogadores menos experientes, mas reforça o carácter austero e focado da proposta.

Conclusão

Aces of Thunder não é um simulador particularmente acessível. A ausência de tutoriais claros, a navegação algo desajeitada nos menus em VR e a falta de elementos de conforto típicos dos jogos modernos podem gerar frustração inicial. Configurar controlos avançados, como sistemas HOTAS e pedais, pode exigir paciência.

No entanto, uma vez ultrapassada essa barreira, o que se revela é uma das experiências de combate aéreo mais intensas disponíveis em realidade virtual. A decisão de eliminar câmaras externas e HUD excessivos cria um campo de jogo equilibrado e profundamente imersivo.

Pode não ter a escala massiva de War Thunder, mas compensa com foco e identidade. É uma homenagem moderna aos grandes simuladores de voo do passado, adaptada às possibilidades tecnológicas actuais. Para quem sempre sonhou estar verdadeiramente dentro de um Spitfire ou de um Zero, a rasgar os céus em combates cerrados, Aces of Thunder oferece exactamente isso.

Apesar de desejar mais aviões da Primeira Guerra Mundial e mapas adicionais, é difícil não reconhecer o mérito da proposta. Num panorama onde muitos jogos procuram agradar a todos, Aces of Thunder escolhe um caminho mais exigente e especializado. E fá-lo com confiança.

Para os entusiastas de simuladores e para quem aprecia a história da aviação militar, é uma experiência que merece atenção séria. Não é apenas um derivado de War Thunder. É uma afirmação clara de que o combate aéreo clássico continua vivo e capaz de nos deixar com as mãos suadas e o coração acelerado.

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