Análise: Crime Simulator

Crime Simulator entra em cena com um nome que promete simplicidade, mas esconde um jogo mais complexo do que aparenta. Desenvolvido pela CookieDev e publicado pela Ultimate Games e pela PlayWay, este título tenta posicionar-se como algo mais do que um mero simulador de assaltos. A própria página da Steam faz questão de o distinguir de Thief Simulator, chamando-lhe um roguelite rápido, centrado no risco, na recompensa e na repetição. No entanto, a realidade está algures entre a simulação, o caos e a aprendizagem lenta, criando uma experiência irregular, mas surpreendentemente viciante. Ao longo desta análise, vamos explorar o que torna Crime Simulator um jogo curioso, onde cada falhanço é também uma lição e onde se aprende tanto a fugir da polícia como a decorar melhor um esconderijo.

Jogabilidade

O ciclo de jogo é simples de compreender, mas difícil de dominar. Cada run começa no esconderijo, o teu quartel-general. Aqui preparas o equipamento, escolhes ferramentas, decides a abordagem e tentas planear os próximos golpes. Tens três dias para juntar dinheiro suficiente para satisfazer as exigências do misterioso benfeitor que pagou a tua fiança. Se falhares, não só perdes todo o equipamento e dinheiro, como também a personagem morre, forçando-te a recomeçar com outra. É uma estrutura crua, mas eficaz a criar tensão.

As atividades dividem-se entre dois tipos de mapas: Cidades e Heists. Nas Cidades, o objetivo é roubar bens menores, como telemóveis, carteiras ou objetos de casas pouco protegidas. Os Heists, por sua vez, são missões mais elaboradas e com maior risco, exigindo recolher plantas nos mapas urbanos antes de poderem ser executados. Aqui a segurança é mais apertada, os guardas são mais atentos e a probabilidade de desastre aumenta exponencialmente.

Um elemento central da jogabilidade é o horário: o jogo encoraja-te a atuar entre as 21h00 e as 6h00, período em que os NPCs seguem rotinas previsíveis e oferecem janelas de oportunidade. Cada habitante tem um conjunto fixo de ações ao longo do dia, e aprender estas rotinas torna-se essencial. No entanto, o risco está sempre presente. Um passo em falso pode levar a uma chamada para a polícia e, pior ainda, esse mapa fica temporariamente mais policiado, dificultando futuras visitas.

Crime Simulator oferece duas abordagens: furtiva ou violenta. Podes optar por gazuas e gás adormecedor para entrar discretamente, ou recorrer a um taco de basebol e armas silenciadas para resolver problemas de forma menos subtil. O jogo trata a violência com uma ligeira ironia: apesar de pores guardas e civis a dormir permanentemente ou pior, todos reaparecem no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. É uma escolha estranha, mas que mantém o tom arcade da experiência.

A roguelite manifesta-se no progresso lento, mas permanente. Mesmo quando morres, desbloqueias itens, pontos de entrega, novas dificuldades e aprendes novas habilidades através de panfletos — embora estes últimos sejam totalmente aleatórios e contribuam para um sentido de progressão algo frustrante. Ainda assim, há algo de gratificante em melhorar pouco a pouco, mesmo quando o jogo te castiga sem piedade.

Mundo e história

A narrativa é mínima, mas serve o suficiente: eras um criminoso na prisão, até que um misterioso financiador decidiu pagar a tua fiança. Agora deves-lhe uma quantia considerável e tens apenas alguns dias para começar a pagar esta dívida. A obrigação é simples: cometer crimes, fazer dinheiro e evitar a todo o custo que o benfeitor fique descontente. A morte é sempre a consequência final do falhanço.

Apesar de a história não ter camadas profundas, a sensação de estarmos sempre a trabalhar para alguém invisível confere ao jogo uma atmosfera estranhamente opressiva. Há também um toque de humor negro espalhado pelo jogo, sobretudo na repetição das personagens e nas mortes constantes dos criminosos anteriores, substituídos sem cerimónia por novos condenados que herdam o mesmo esconderijo e o mesmo destino provável.

O mundo em si não tenta ser realista. É funcional, pensado para ser um palco de assaltos, rotinas e oportunidades. Os habitantes parecem bonecos programados para servir de obstáculos ou potenciais fontes de saque. Mas mesmo assim, há algo de viciante em observar os seus padrões e manobrar entre eles com uma precisão que só se aprende depois de múltiplas tentativas falhadas.

Grafismo

Visualmente, Crime Simulator não se destaca. Os modelos são simples, as animações são rígidas e os ambientes parecem reciclados de outros projetos — o que faz sentido, já que herda vários elementos de Thief Simulator. No entanto, o grafismo não é propriamente um impedimento para a diversão. Os ambientes suburbanos são suficientemente claros e a disposição das casas e lojas ajuda a ler o mapa de forma rápida.

O que se sente menos inspirado são os interiores repetitivos e a falta de identidade visual entre diferentes zonas. Há também alguns elementos que parecem demasiado básicos para um jogo lançado hoje, e embora se perceba que o foco está na jogabilidade, não deixa de ser uma área onde se nota alguma falta de polimento.

Som

O áudio segue a mesma linha da componente visual: funcional, mas pouco memorável. Os efeitos sonoros cumprem o essencial, desde passos e portas a alarmes. O som das armas, quando usadas, é discreto e adequado ao ambiente. A música é mínima, desenhada para não distrair, mas também não marca presença suficiente para criar uma identidade sonora própria.

O destaque acaba por ser a tensão criada pelo silêncio: o som de passos numa divisão ao lado, um guarda que muda de direção, um carro de polícia que aparece do nada. Esses momentos, ainda que simples, conseguem manter um nível de nervosismo suficiente para reforçar a jogabilidade baseada em risco constante.

Conclusão

Crime Simulator é um jogo estranho, mas intrigante. Mistura elementos de Thief Simulator com inspirações claras de Lethal Company, adiciona um sistema roguelite duro e um ciclo de repetição que tanto pode ser frustrante como viciante. O tempo de aprendizagem é longo e a progressão é lenta, apoiada num sistema de habilidades demasiado dependente da sorte. Mas, por outro lado, há uma satisfação genuína em dominar um assalto perfeito depois de morrer dezenas de vezes.

O grafismo e o som não impressionam e há problemas técnicos como loadings longos e falhas pontuais no arranque. No entanto, se fores capaz de ultrapassar estes obstáculos e abraçar o estilo repetitivo e punitivo, Crime Simulator oferece uma experiência surpreendentemente envolvente para quem gosta de aprender através do erro e da insistência.

Não é um jogo para todos, mas para os persistentes, há aqui um ciclo desafiante e um progresso lento, mas recompensador. É, no fundo, um simulador de crime que depende menos do crime e mais do jogador — e da sua capacidade de insistir até se tornar, finalmente, um criminoso eficiente.

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