Análise: Demon Tides

Demon Tides é um daqueles raros exemplos de como fazer uma sequela que não se limita a repetir a fórmula do original, mas que a expande de forma ousada e confiante. Depois de Demon Turf ter conquistado fãs com o seu platforming expressivo, ritmo acelerado e estética vibrante com atitude punk, esta continuação pega nesses pilares e amplifica-os em praticamente todos os aspetos. O resultado é um jogo que não só refina o que já funcionava, como também redefine a escala e a ambição da série.

Ao contrário de muitas sequelas que optam por jogar pelo seguro, Demon Tides decide abrir horizontes, abandonando a estrutura linear do antecessor e apresentando um vasto oceano repleto de desafios de plataformas. Esta mudança não é apenas uma evolução natural, mas uma declaração clara de intenções: o estúdio Fabraz quer elevar a série a novos patamares dentro do género dos plataformas 3D. Com um novo estilo visual igualmente vibrante, mas renovado, e uma abordagem mais aberta ao design de níveis, o jogo posiciona-se como uma das experiências mais marcantes do género nos últimos anos.

Jogabilidade

O coração de Demon Tides continua a ser o seu sistema de movimento, carinhosamente apelidado de schmoovement pela comunidade. Controlar Beebz é um verdadeiro prazer, graças a um conjunto de habilidades amplo, intuitivo e profundamente satisfatório de dominar. Saltos encadeados, impulsos, corridas na parede e outras manobras fluem de forma natural, criando uma sensação de controlo e liberdade que poucos plataformas 3D conseguem igualar.

Apesar de ser fácil começar a jogar, dominar completamente o moveset de Beebz exige prática e criatividade. O jogo introduz constantemente novas ideias, como zonas com gravidade reduzida, bolhas flutuantes que alteram a física do movimento e desafios que concedem melhorias temporárias às habilidades. Estas variações mantêm a jogabilidade fresca ao longo de toda a aventura.

Uma das maiores novidades é o sistema de talismãs, que permite personalizar profundamente as capacidades de Beebz. Alguns oferecem melhorias simples, como aumentar a altura do salto ou reforçar um poder específico, enquanto outros transformam completamente a forma como a personagem se move, adicionando novas habilidades ou alterando a física do controlo. Um exemplo particularmente memorável são os patins de rodas, que permitem deslocações a alta velocidade em troca de menor tração, criando um estilo de jogo único.

O combate, que no primeiro jogo podia interromper o ritmo, surge aqui mais integrado com o platforming. Os confrontos são menos frequentes e incentivam abordagens criativas, permitindo que as habilidades de movimento sejam usadas tanto para evitar ataques como para derrotar inimigos e bosses. Esta integração torna o combate uma extensão natural da jogabilidade, em vez de um obstáculo ao fluxo da ação.

Mundo e história

Demon Tides continua a história de Beebz, uma adolescente demónio capaz de mudar de forma que derrubou o Rei Demónio e se tornou Rainha do Submundo. Após esses eventos, Beebz e o seu grupo de amigos partem rumo ao oceano aberto para encontrar Ragnar, que afirma ser o pai afastado da protagonista. O destino é Ragnar’s Rock, uma região governada com mão de ferro, onde Beebz se vê novamente confrontada com um regime autoritário.

À primeira vista, o tom pode parecer irreverente e excessivamente moderno, com diálogos repletos de gíria e humor geracional. No entanto, rapidamente se revela uma narrativa surpreendentemente bem escrita, com personagens carismáticas e um enredo mais pessoal e sombrio do que a apresentação colorida sugere. O jogo aborda temas como identidade, família e responsabilidade, dando profundidade emocional à jornada.

Beebz destaca-se como uma protagonista extremamente cativante. Apesar de demonstrar uma atitude rebelde e punk, a sua evolução revela uma personagem mais madura e consciente das consequências das suas ações, incluindo a forma brutal como conquistou o Submundo no jogo anterior. Esta reflexão acrescenta uma dimensão rara ao género, onde a história costuma ser secundária face à jogabilidade.

Personagens secundárias também brilham, como DK, cujo arco narrativo explora o esforço excessivo para se encaixar socialmente, começando com humor embaraçoso e evoluindo para algo genuinamente humano. No conjunto, Demon Tides apresenta uma narrativa que surpreende pela sensibilidade e profundidade, elevando a experiência para além do simples platforming.

Grafismo

Visualmente, Demon Tides abandona o estilo do jogo anterior e apresenta uma nova abordagem artística igualmente vibrante, mas mais refinada e coerente. O uso de cel shading continua a dar vida a um mundo colorido e expressivo, onde cada ilha e região possui identidade própria.

Ragnar’s Rock está dividido em três grandes regiões, cada uma repleta de ilhas menores que funcionam como níveis compactos, mas densos em conteúdo. Desde praias tropicais a formações rochosas imponentes e estruturas fantásticas, o mundo é um convite constante à exploração. A direção artística garante que cada área seja visualmente distinta, facilitando a navegação e reforçando a sensação de descoberta.

As animações de Beebz são particularmente expressivas, contribuindo para a sua personalidade e tornando cada movimento mais satisfatório. Os efeitos visuais associados às habilidades e interações com o ambiente acrescentam dinamismo à ação sem comprometer a clareza visual. Apesar do excelente trabalho artístico, a câmara pode ocasionalmente causar frustração, especialmente em zonas mais apertadas ou durante sequências de platforming exigentes. Ainda assim, estes problemas são pontuais e não comprometem significativamente a experiência global.

Som

A banda sonora de Demon Tides acompanha na perfeição a energia do jogo, combinando influências rock com temas vibrantes que reforçam o ritmo acelerado da jogabilidade. As faixas adaptam-se bem às diferentes regiões e situações, intensificando momentos de exploração, desafio ou confronto.

Os efeitos sonoros são igualmente eficazes, oferecendo feedback claro para cada ação, desde saltos e impactos até habilidades especiais. Este cuidado contribui para a sensação de fluidez e controlo, essencial num jogo centrado no movimento. As vozes e expressões sonoras das personagens ajudam a transmitir personalidade, complementando o humor e os momentos emocionais da narrativa. O resultado é uma paisagem sonora coesa que reforça tanto a identidade do mundo como o envolvimento do jogador.

Conclusão

Demon Tides é uma sequela exemplar que demonstra como evoluir uma fórmula sem perder a identidade. Ao expandir o foco para um mundo aberto repleto de desafios criativos, refinar o sistema de movimento e apresentar uma narrativa surpreendentemente emocional, o jogo estabelece-se como um dos plataformas 3D mais memoráveis dos últimos anos.

A liberdade de exploração, aliada à qualidade do design de níveis, garante uma experiência envolvente que recompensa a curiosidade e a experimentação. Embora a progressão baseada em Golden Gears possa ocasionalmente abrandar o ritmo e a câmara apresente pequenos problemas, estes aspetos não diminuem o impacto global da aventura.

Com uma protagonista carismática, um mundo vibrante e uma jogabilidade de excelência, Demon Tides não só supera o seu antecessor como também se afirma como uma referência moderna no género. Se este é o rumo da série, o futuro promete ser ainda mais empolgante.

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