Análise: Disciples: Domination

No vasto panteão dos RPG de estratégia de fantasia sombria, poucas séries se mantiveram tão fiéis às suas origens como Disciples. Desde o lançamento de Disciples: Sacred Lands em 1999 que Nevendaar se apresenta como um mundo preso nos derradeiros momentos de um apocalipse interminável. Disciples II: Dark Prophecy continua a ser, para muitos, o ponto alto da série, enquanto os capítulos mais recentes, incluindo Disciples: Liberation, tentaram modernizar a fórmula com resultados mistos. Disciples: Domination não procura reinventar essa base. Em vez disso, aposta numa continuidade clara, preservando as mecânicas e o tom que definiram a identidade da saga ao longo de mais de duas décadas.

Esta nova entrada, desenvolvida pela Artefacts Studio, assume-se como uma evolução conservadora. Mantém a estrutura clássica de exploração, recrutamento de unidades e combate táctico por turnos, enquanto prolonga a história de Avyanna, a rainha que tentou unir as várias facções de Nevendaar. A sensação dominante é a de regressar a um território familiar, com as mesmas forças, as mesmas tensões e o mesmo peso narrativo de um mundo em permanente conflito. Para quem acompanha a série há anos, esta continuidade pode ser reconfortante. Para quem procura inovação, pode parecer uma oportunidade perdida.

Jogabilidade

A base jogável de Disciples: Domination assenta na exploração em tempo real de mapas relativamente compactos, pontuados por exércitos inimigos, recursos, fragmentos de história e objectivos secundários. O ciclo é imediatamente reconhecível: explorar, combater, recolher recompensas e regressar ao centro de operações para melhorar o exército. A interface é limpa e funcional, facilitando a leitura do terreno e a identificação de pontos de interesse, como caminhos desbloqueáveis através de habilidades específicas dos companheiros.

Avyanna pode assumir uma de quatro classes distintas, cada uma com uma árvore de habilidades própria e estilos de jogo diferenciados. O Warmaster privilegia a resistência e o combate directo, enquanto a Witch Queen aposta em magia ofensiva e efeitos de estado. O problema é que a progressão tende a ser lenta. A obtenção de apenas um ponto de habilidade por nível, combinado com melhorias que muitas vezes oferecem bónus percentuais modestos, reduz a sensação de crescimento ao longo da campanha. Além disso, cada construção desbloqueia apenas duas habilidades activas principais, o que limita a variedade táctica da protagonista.

Essa limitação é parcialmente compensada pela composição do grupo. O atributo de liderança de Avyanna permite recrutar unidades de diferentes facções, cada uma com funções bem definidas. Elfos especializam-se em ataques à distância e furtividade, imperiais oferecem equilíbrio entre defesa e cura, enquanto outras facções trazem estilos mais agressivos ou especializados. A gestão do grupo torna-se assim o verdadeiro núcleo estratégico, obrigando a pensar em sinergias, posicionamento e resposta a efeitos de estado.

O combate decorre em mapas hexagonais pequenos, mas densos em possibilidades. A impossibilidade de atravessar unidades e a presença de efeitos ambientais transformam cada confronto num puzzle táctico. Mais importante do que causar dano bruto é controlar o espaço, criar estrangulamentos e manipular a ordem de acção. Com o tempo, o jogador começa a antecipar o comportamento das unidades inimigas, quase como num jogo de xadrez, explorando padrões e posicionamento para maximizar a eficácia dos seus turnos.

Mundo e história

A narrativa continua directamente os eventos de Disciples: Liberation, acompanhando uma Avyanna mais experiente e mais desiludida com o peso da liderança. Uma nova ameaça surge para desafiar as conquistas anteriores, obrigando-a a navegar entre alianças frágeis e conflitos internos. Quem não jogou o título anterior poderá sentir alguma distância emocional, já que o jogo assume familiaridade com personagens e acontecimentos passados.

Ainda assim, o mundo de Nevendaar mantém a sua identidade forte. As facções clássicas regressam, incluindo anões, elfos, mortos-vivos, demónios e imperiais, cada uma com motivações próprias e estética bem definida. A inclusão dos anões como facção recrutável desde cedo é uma adição bem-vinda, tanto em termos narrativos como tácticos.

As missões secundárias e as histórias dos companheiros acrescentam variedade, mas o sistema de progressão por níveis cria momentos de interrupção na narrativa, obrigando a adiar certos arcos até o grupo estar suficientemente forte. Isto fragmenta o ritmo e reforça a ideia de que o foco principal está no combate e na optimização do exército.

No centro da gestão estratégica está Yllian, o castelo dimensional de Avyanna, que funciona como base de operações. Aqui constroem-se edifícios, recrutam-se unidades de nível superior e gerem-se recursos. A progressão do castelo está ligada ao avanço na campanha, criando um estrangulamento deliberado que obriga a priorizar melhorias e a planear cuidadosamente o uso de ouro, madeira, ferro e essências.

Grafismo

Visualmente, Disciples: Domination apresenta ambientes detalhados e coerentes com o tom sombrio da série. Desde campos agrícolas em ruínas até paisagens montanhosas devastadas por magia, cada mapa transmite a sensação de um mundo à beira do colapso. Pequenos detalhes, como estruturas desgastadas ou efeitos mágicos persistentes, ajudam a criar atmosfera.

No entanto, a direcção artística não esconde a familiaridade dos modelos de personagens e das facções. Para veteranos da série, esta continuidade pode ser vista como fidelidade estética. Para outros, pode parecer falta de evolução. As animações em combate são funcionais, mas raramente espectaculares, privilegiando a clareza táctica em detrimento do impacto visual.

A interface mantém-se legível mesmo em sessões longas, e a exploração em tempo real decorre de forma fluida. Em termos técnicos, o jogo corre de forma estável e não exige hardware particularmente potente, o que o torna acessível a uma ampla gama de sistemas.

Som

O design sonoro cumpre o seu papel sem nunca se destacar. A banda sonora acompanha a acção com temas adequados ao tom sombrio, mas poucos momentos permanecem na memória após terminar a sessão de jogo. A dobragem segue uma abordagem algo exagerada, que por vezes roça o caricatural, embora o texto em si seja geralmente evocativo.

Os efeitos sonoros em combate são claros e funcionais, ajudando a identificar habilidades e impactos, mas não acrescentam grande peso emocional às batalhas. É um trabalho competente, mas longe de memorável.

Conclusão

Disciples: Domination é um título que sabe exactamente o que quer ser. Não procura modernizar radicalmente a fórmula nem competir com as tendências actuais do género. Em vez disso, oferece uma experiência táctica sólida, centrada na gestão de unidades, no posicionamento em combate e na optimização constante do grupo.

Os seus pontos fortes residem na profundidade táctica dos confrontos, na variedade de unidades e na estrutura que recompensa o planeamento cuidadoso. Por outro lado, a progressão lenta da protagonista, a narrativa fragmentada e o design sonoro pouco marcante impedem-no de atingir um patamar mais elevado. Para quem acredita que o auge dos RPG tácticos de fantasia ocorreu no início do milénio, este jogo é uma celebração dessa era. Para quem procura inovação, poderá parecer demasiado preso ao passado. Ainda assim, há aqui dezenas de horas de combates estratégicos, gestão de recursos e experimentação de composições de exército que mantêm o interesse ao longo da campanha.

Disciples: Domination não conquista pela novidade, mas pela consistência. É um regresso a uma fórmula conhecida, executada com competência e respeito pelas raízes da série, oferecendo exactamente aquilo que os fãs esperam: um mundo sombrio, batalhas exigentes e a sensação constante de preparar o próximo movimento num tabuleiro de guerra.

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