Dustpunk surge como aquele tipo de projeto independente que à primeira vista parece discreto, mas acaba rapidamente a revelar uma profundidade inesperada. Este RPG narrativo baseado em lançamentos de dados traz consigo um mundo distópico pintado em tons sombrios, repleto de guerra, sofrimento e escolhas difíceis. Para quem procura um jogo onde a narrativa assume a dianteira e onde cada decisão parece ter peso, Dustpunk posiciona-se como uma experiência marcante e surpreendentemente envolvente. Não estamos perante um título de grande orçamento, mas sim diante de uma obra que aposta num estilo próprio e numa abordagem mecânica pouco comum.
Jogabilidade
A jogabilidade de Dustpunk assenta quase inteiramente em lançamentos de dados e testes de habilidade. Cada ação, seja um diálogo tenso, um confronto arriscado ou até tarefas simples, passa inevitavelmente pelo sistema de dados. É uma mecânica que dá identidade ao jogo e reforça constantemente a aposta no imprevisível. No entanto, apesar de funcionar, nem sempre tem a profundidade desejada. As habilidades existem, mas muitas vezes parecem secundárias, surgindo menos vezes do que seria ideal. É como se o jogo tivesse uma excelente estrutura conceptual, mas nem sempre tirasse pleno partido dela.
Ainda assim, o impacto do stress na jogabilidade eleva a experiência. Quanto mais sobrecarregado emocionalmente estiver o personagem, mais fracas se tornam as faces dos dados, o que cria um ciclo de risco-recompensa interessante. Descansar, comer ou cuidar do bem-estar torna-se quase tão importante como avançar na narrativa. É um sistema simples mas eficaz, capaz de aumentar a tensão sem recorrer a combates elaborados.

Mundo e história
É na história que Dustpunk verdadeiramente brilha. Assumindo o papel de um soldado que acorda confuso, ferido e sem memórias claras, somos empurrados para um mundo devastado e desconfortável. A cidade para onde somos lançados tem vida própria: suja, opressiva, cheia de personagens quebradas e de histórias que se desdobram lentamente à medida que exploramos.
Os NPCs são muitos e quase todos acrescentam algo à narrativa, quer com um simples comentário, quer com missões e informações que ampliam o conhecimento do mundo. As localizações estão descritas de forma rica, transmitindo sempre uma sensação de decadência e fatalismo. Dustpunk não tenta dourar a realidade do seu universo; pelo contrário, mergulha totalmente nele e arrasta o jogador consigo.
Um dos aspetos mais interessantes é a possibilidade de destacar certos termos específicos do lore para obter a respetiva descrição. Isto cria um ritmo natural de aprendizagem, permitindo compreender a fundo o universo sem sobrecarregar o jogador com longos textos. E como cada escolha pesa na progressão, a sensação de moldar o rumo da história está sempre presente.
Grafismo
Dustpunk apresenta um estilo visual 2D que parece saído de uma pintura. Não existe grande fluidez ou animações complexas, mas essa não é a ambição do jogo. A estética pintada cria uma identidade própria, distinta e extremamente eficaz para transmitir o ambiente distópico. Cada cenário parece um quadro estático carregado de detalhe, reforçando o tom melancólico do universo.
Apesar da simplicidade, o estilo funciona e confere-lhe charme. Os ambientes são densos, escuros e carregados de textura, e ajudam a construir uma atmosfera pesada e coerente. Para um jogo deste tipo, a direção artística é sem dúvida um dos seus pontos fortes.

Som
A banda sonora complementa muito bem o mundo. É discreta, mas marcante, remetendo para composições de fantasia clássica. O ambiente sonoro nunca tenta liderar a experiência, mas sim reforçar o peso emocional das situações. Durante momentos de tensão, a música parece intensificar-se subtilmente, e nas secções mais exploratórias mantém-se suave e distante. É um excelente pano de fundo para um RPG centrado na narrativa.
Os efeitos sonoros são simples, mas suficientes para dar vida às ações e aos ambientes. Não é um jogo que impressione pelo áudio, mas sim que o utiliza com bom gosto.
Conclusão
Dustpunk é um RPG narrativo sólido, com uma história que conquista desde os primeiros minutos. As mecânicas baseadas em dados dão personalidade ao jogo e, mesmo com algumas limitações nas habilidades e na forma como são usadas, o conjunto funciona. O visual pintado e o ambiente melancólico criam um universo único, enquanto o stress e as consequências ligadas aos dados mantêm a tensão constante.
Não é um jogo para quem procura ação rápida ou combates elaborados. É, sim, uma experiência pensada para quem gosta de mergulhar num mundo pesado, tomar decisões difíceis e sentir que a narrativa responde ao jogador. E nesse campo, Dustpunk cumpre e impressiona. Uma recomendação segura para fãs de RPGs orientados para a história e para quem valoriza mundos densos e narrativas fortes.