Análise: Encounter: The Lost Cards

Há muitos criadores a solo que, no seu primeiro jogo, optam por caminhos mais seguros e previsíveis. Um survival horror em primeira pessoa com assets reutilizados ou um RPG feito em ferramentas já bem oleadas são escolhas comuns. Encounter: The Lost Cards vai claramente noutra direcção. Desenvolvido por Salvatore Grosso, este é um roguelike que não tenta facilitar a vida a quem joga nem a quem o criou. Desde o primeiro contacto, percebe-se que estamos perante um jogo pensado de raiz, com sistemas próprios, ideias pouco usuais e uma vontade clara de desafiar o jogador tanto mecanicamente como mentalmente.

À primeira vista, o nome pode induzir em erro. Não estamos perante um deckbuilder tradicional, nem um jogo de cartas no sentido mais óbvio. As cartas estão lá, sim, mas funcionam como um motor narrativo e sistémico que determina encontros, personagens, perigos e oportunidades. É um jogo estranho, algo opressivo, mas também profundamente cativante, daqueles que castigam erros mas recompensam aprendizagem. O resultado é uma experiência que encaixa bem no espírito do roguelike clássico, mas com identidade própria e uma abordagem pouco convencional à progressão e ao próprio conceito de run.

Jogabilidade

O coração de Encounter: The Lost Cards está no seu sistema de combate e na forma como este se entrelaça com a gestão de recursos e decisões a longo prazo. Cada run é estruturada em segmentos de cinco cartas retiradas de um baralho de tarot. Em cada segmento, enfrentamos normalmente três combates, incluindo um boss, intercalados com encontros não violentos que podem trazer benefícios ou problemas inesperados.

O combate é por turnos e assenta em bases familiares: um número limitado de acções por turno, um sistema de stamina que impede abusos de ataques mais fortes, armadura que absorve dano físico e pontos de vida que nunca parecem suficientes. A grande diferença está na forma como o jogo restringe constantemente as opções disponíveis. Não é um roguelike onde se acumulam habilidades até se tornar imparável; aqui, cada escolha implica abdicar de outra coisa.

O inventário é extremamente limitado e expandi-lo é caro, mas inevitável. As armas degradam-se rapidamente, obrigando a substituições frequentes, e muitos itens têm efeitos passivos que só funcionam se forem mantidos na mochila. Isto cria uma tensão constante entre manter algo útil agora ou abrir espaço para algo que poderá ser essencial mais à frente. A introdução das runas, itens passivos que activam os seus efeitos pela ordem em que aparecem no inventário, adiciona outra camada de complexidade. Encontrar uma sinergia eficaz é difícil, mas quando acontece, mesmo que seja temporária, é profundamente satisfatório.

Um bom exemplo da filosofia do jogo é a Zombie Head, um item obtido num boss relativamente comum no início. Enquanto estiver no inventário, reduz a estatística de sorte a cada turno, mas concede uma acção extra. Como a sorte não pode descer abaixo de zero, isto transforma-se numa acção gratuita, desde que haja espaço no inventário. Se for equipada, permite anular completamente o turno de um inimigo, ao custo de uma carga e de perder o próprio turno. É um item poderoso, mas incómodo, que obriga o jogador a carregar literalmente uma cabeça em decomposição durante grande parte da run, apenas para a usar no momento certo.

Mundo e história

O universo de Encounter: The Lost Cards é construído em torno das cartas de tarot, em particular dos arcanos maiores. No início de cada run, o baralho contém apenas cartas menores, com encontros relativamente controlados. Os arcanos maiores, chamados simplesmente de Majors, só podem ser criados mais tarde e representam encontros poderosos, perigosos e, muitas vezes, decisivos.

A premissa do mundo é apresentada durante o tutorial. Anjos e demónios que governam a realidade tiraram cartas para definir o seu papel no cosmos. O senhor do Inferno, descontente com o destino que lhe calhou, troca a carta da Morte com uma entidade misteriosa conhecida como o Collector, abandonando o trono e desequilibrando toda a ordem universal. O objectivo do Collector é recuperar cartas perdidas, em especial o Hermit, e para isso recruta aventureiros mortais, prometendo-lhes recompensas em troca.

Depois deste arranque interessante, a narrativa recua para segundo plano. Há pistas, personagens curiosas e encontros cheios de personalidade, mas a história nunca volta a assumir o protagonismo inicial. Três das quatro personagens jogáveis não têm praticamente contexto, e a relação entre anjos, demónios e cartas maiores parece pedir mais desenvolvimento. É uma pena, porque o mundo criado é rico e estranho o suficiente para sustentar muito mais do que aquilo que é mostrado.

Grafismo

Visualmente, Encounter: The Lost Cards aposta num pixel art detalhado e expressivo, com animações simples mas eficazes. Os inimigos são distintos, os ambientes variam bastante e há um cuidado evidente na leitura visual dos combates. Tudo é claro o suficiente para decisões rápidas, mas nunca minimalista ao ponto de parecer pobre.

Há, no entanto, uma escolha estética que pode dividir opiniões. Grande parte das personagens femininas segue um design bastante sexualizado, algo que contrasta com o tom sombrio e quase existencial do mundo. Não chega a quebrar a experiência, mas levanta sobrancelhas e parece um elemento deslocado num jogo que, de resto, demonstra tanta atenção ao detalhe e coerência temática.

Ainda assim, o conjunto visual funciona bem e ajuda a criar identidade. Os cenários, como estalagens no deserto ou paisagens infernais, reforçam a sensação de uma viagem longa e perigosa, onde cada paragem pode ser a última.

Som

A componente sonora acompanha bem o resto da experiência. A banda sonora aposta em chiptune energético e melódico, evocando memórias de jogos clássicos sem soar datada. Os temas são cativantes e conseguem manter-se interessantes mesmo após várias horas de jogo, algo essencial num roguelike onde a repetição é inevitável.

Os efeitos sonoros são simples mas eficazes, reforçando o impacto dos ataques e a tensão dos momentos mais críticos. Não há voice acting, mas também não faz falta. O jogo comunica quase tudo através de ícones, animações e som, criando uma linguagem própria que, com o tempo, se torna intuitiva.

Conclusão

Encounter: The Lost Cards é uma demonstração impressionante do que um criador a solo consegue fazer quando tem uma visão clara e coragem para a seguir. Não é um jogo acessível nem particularmente amigável para iniciantes. A curva de aprendizagem é íngreme, os sistemas demoram a revelar-se e o ecrã de morte vai aparecer muitas vezes nas primeiras horas.

Ainda assim, quem insistir será recompensado com uma experiência profundamente satisfatória. A forma como a morte é integrada na progressão, com julgamentos que podem levar ao Céu ou ao Inferno, é particularmente engenhosa. O uso das flores como recurso central, tanto para crafting como para ressurreições, e a percepção de que sem elas nunca se chega ao fim da run, é um daqueles momentos de revelação que mudam completamente a forma como se joga.

Não é um jogo revolucionário, mas é inteligente, desafiante e cheio de personalidade. Há espaço para crescer, especialmente a nível narrativo, mas mesmo no estado actual é uma proposta sólida e memorável. Para quem gosta de jogar com a mão que lhe calha, aprender com os erros e começar de novo sem ressentimentos, Encounter: The Lost Cards é uma viagem estranha, dura e, acima de tudo, recompensadora.

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