Touhou Project é uma daquelas séries que, mesmo para quem nunca lhe tocou, acaba sempre por estar presente. Seja pela música, pelas personagens, ou simplesmente por aparecer nos cantos mais improváveis da internet, o nome tem peso e história. Fantasy Maiden Wars – DREAM OF THE STRAY DREAMER – surge como um RPG tático feito por fãs que procura reinterpretar vários arcos da série num só enredo coeso. É uma obra claramente apaixonada pela fonte original e que tenta condensar décadas de personagens e eventos numa aventura longa, expansiva e com muitas caras familiares. No entanto, por mais entusiasmo que exista na sua base, Fantasy Maiden Wars nem sempre consegue manter o ritmo que estabelece na primeira metade, acabando por se tornar cansativo, especialmente quando a campanha avança para os seus capítulos finais. O resultado final é um jogo com coração, mas também com problemas difíceis de ignorar.
Jogabilidade
Fantasy Maiden Wars aposta numa jogabilidade tática tradicional, semelhante a tantos outros RPGs estratégicos onde o jogador movimenta personagens num mapa e escolhe ações por turnos. Cada combate apresenta um objetivo principal que, na maioria dos casos, se resume a derrotar um inimigo específico. Para adicionar profundidade, o jogo utiliza os chamados spell cards, habilidades especiais dos bosses que criam áreas de perigo no campo e obrigam o jogador a eliminar o inimigo antes de um ataque devastador ser lançado. No início, este sistema funciona bastante bem, incentivando planeamento e tomadas de decisão cuidadosas. Contudo, a partir da segunda metade, muitos inimigos começam a utilizar várias spell cards consecutivas. Isto significa que, para derrotar um só adversário, é necessário passar pela mesma repetição de fases várias vezes. Quando o jogo obriga o jogador a vencer cinco vezes o mesmo alvo dentro de uma mesma batalha, o combate deixa de ser estratégico e torna-se um exercício de paciência. Adicionalmente, as batalhas tornam-se lentas à medida que o grupo cresce, sendo necessário movimentar um grande número de unidades todos os turnos, sem opções eficazes de aceleração. A experiência tática começa sólida, mas perde impacto ao longo da aventura.

Mundo e história
A história decorre em Gensokyo, um mundo já cheio de lendas e personagens marcantes. O ponto de partida é o aparecimento de uma névoa escarlate sobre a região, levando Reimu Hakurei ou Marisa Kirisame, dependendo da escolha inicial, a investigarem a causa. Pelo caminho juntam-se várias figuras conhecidas: Keine, Cirno, Remilia, Sakuya, Reisen, entre muitas outras. O jogo divide-se essencialmente em quatro grandes atos, cada um reinterpretando partes da série Touhou e tentando ligá-las num fio narrativo contínuo. Nos primeiros capítulos isto funciona relativamente bem, apresentando personagens de forma natural e dando motivos claros para a progressão. Porém, quando o jogo entra no terceiro ato, o ritmo abranda drasticamente. Os capítulos tornam-se demasiado longos, a narrativa arrasta-se, e algumas sequências estendem-se muito para além do necessário. A história continua a ter bons momentos e algumas interações entre personagens são genuinamente cativantes, mas não o suficiente para sustentar o desgaste provocado pela duração excessiva. Há paixão evidente na escrita, mas a estrutura não favorece o impacto da mensagem.
Grafismo
Visualmente, Fantasy Maiden Wars apresenta-se com muito cuidado e detalhe. Os cenários são agradáveis, retratando locais icónicos de Gensokyo com energia e cor. As personagens têm retratos bem desenhados e distintas expressões, transmitindo personalidade mesmo fora das sequências mais dramáticas. Contudo, o verdadeiro destaque está nas animações de combate. Cada ataque tem uma sequência própria, muitas vezes com efeitos elaborados e movimentos fluídos. Estas animações dão vida ao jogo e criam um forte incentivo para testar novas unidades ou habilidades. Sempre que uma personagem aprendia um ataque novo, tornava-se quase obrigatório ver como se manifestava em combate. Apesar disso, a fluidez visual não compensa totalmente o ritmo lento das batalhas, mas ajuda a manter o interesse ao longo das muitas horas de jogo.

Som
O ponto mais forte de Fantasy Maiden Wars é, indiscutivelmente, a banda sonora. A música sempre foi um dos pilares da série Touhou, com arranjos memoráveis que atravessaram fronteiras culturais e influenciaram uma enorme comunidade criativa. Aqui, a tradição mantém-se. Com mais de 200 faixas disponíveis, é difícil encontrar uma música que não seja marcante. O jogo permite até colecionar temas e ouvi-los numa galeria interna, algo que acaba por ser tão ou mais viciante que o próprio combate. É também na música que se sente maior respeito pelo legado da série, oferecendo um tributo que não só honra o original, como também lhe acrescenta uma identidade própria através dos arranjos utilizados. Mesmo nos momentos em que a jogabilidade começa a cansar, a banda sonora mantém o jogador investido.
Conclusão
Fantasy Maiden Wars – DREAM OF THE STRAY DREAMER – é um jogo feito com evidente carinho pela série Touhou. Consegue reunir uma quantidade impressionante de personagens e dá a cada uma um espaço digno dentro da aventura. A banda sonora e o estilo visual elevam a experiência e demonstram o esforço da equipa. No entanto, a longa duração, a repetição excessiva de mecânicas no combate e o ritmo irregular da narrativa acabam por prejudicar o todo. Para fãs dedicados de Touhou, este jogo pode ser uma celebração envolvente, um reencontro com figuras e temas queridos. Para quem procura apenas um RPG tático sólido, a experiência pode revelar-se demasiado morosa e cansativa. É um projeto apaixonado, mas que beneficiaria de maior síntese e equilíbrio. O brilho está lá, mas é preciso paciência para o encontrar.