HumanitZ é mais um nome num género saturado de jogos de sobrevivência em cenários pós-apocalípticos dominados por mortos-vivos, mas consegue destacar-se de forma surpreendente. À primeira vista, pode parecer apenas mais um título sobre o fim do mundo, porém rapidamente revela uma identidade própria, assente numa liberdade quase total e numa profundidade mecânica que convida a dezenas — ou centenas — de horas de exploração. A versão 1.0 marca o culminar de um percurso iniciado em acesso antecipado em 2023, com o estúdio Yodubzz a apresentar agora um produto completo, polido e repleto de ambição.
Ao longo de várias horas com a versão final, torna-se evidente que HumanitZ não pretende apenas colocar o jogador a sobreviver num mundo devastado. O objetivo vai além disso: prosperar, reconstruir, adaptar-se e escrever a própria história no meio do caos. A experiência lembra uma fusão entre a complexidade sistémica de Project Zomboid e a componente de comunidade e progressão vista em State of Decay, resultando num sandbox isométrico que recompensa a criatividade e a perseverança.
Mesmo para quem normalmente torce o nariz à perspetiva top-down, HumanitZ merece atenção. A sua abordagem aberta, combinada com sistemas interligados e um mundo dinâmico, transforma o que poderia ser apenas mais um jogo de zombies numa experiência emergente e altamente rejogável.
Jogabilidade
A jogabilidade de HumanitZ é definida pela liberdade. Desde o primeiro momento, o jogador escolhe o ponto de início com base no nível de desafio pretendido, uma decisão que influencia o acesso a recursos, densidade de inimigos e oportunidades de progressão. Este simples detalhe estabelece o tom para tudo o que se segue: cada escolha importa, e cada partida pode desenrolar-se de forma radicalmente diferente.
O ciclo principal gira em torno da recolha de recursos, criação de equipamentos, construção de abrigos e combate contra os mortos-vivos. No entanto, reduzir HumanitZ a esta fórmula seria injusto. O jogo permite caçar, pescar, cultivar, desmontar edifícios para obter materiais, reparar veículos e fortificar estruturas abandonadas. Se um jogador imaginar uma estratégia de sobrevivência, é muito provável que o jogo ofereça ferramentas para a concretizar.
O combate é versátil e adapta-se a diferentes estilos. É possível enfrentar hordas com armas de fogo, arriscando atrair ainda mais inimigos devido ao ruído, ou optar por abordagens furtivas com armas brancas, poupando munições e recursos. Há também a possibilidade de usar veículos como armas improvisadas, atropelando zombies, embora tal prática possa danificar o automóvel e comprometer a mobilidade futura.
À medida que o jogador progride, o que começa como uma luta desesperada por comida e abrigo transforma-se numa operação logística mais complexa. Gerir inventários, planear expedições, defender bases e otimizar rotas de saque tornam-se atividades centrais. A presença de modos PvE e PvP, bem como a possibilidade de jogar a solo ou em cooperação, acrescenta camadas adicionais de estratégia e imprevisibilidade.
HumanitZ é um jogo onde a curva de aprendizagem é real, mas recompensadora. Os primeiros minutos guiam o jogador com suavidade, mas rapidamente retiram as rodas de apoio, incentivando a experimentação e a adaptação. Cada erro ensina algo novo, e cada sucesso resulta de decisões ponderadas.

Mundo e história
O mundo de HumanitZ é um retrato convincente de uma civilização colapsada. Cidades densas oferecem saque valioso, mas estão infestadas de perigos, enquanto zonas rurais proporcionam relativa segurança à custa de menos recursos e oportunidades. Esta dicotomia cria um equilíbrio interessante entre risco e recompensa, obrigando o jogador a ponderar constantemente os próximos passos.
Embora o jogo seja essencialmente um sandbox, existe uma narrativa subtil que se revela através do ambiente, dos locais abandonados e de encontros ocasionais. O foco não está numa história linear, mas sim nas histórias emergentes que nascem das decisões do jogador. Um posto de controlo policial pode transformar-se numa fonte inesperada de armas; uma casa em ruínas pode tornar-se uma fortaleza improvisada; uma viagem aparentemente simples pode evoluir para um confronto caótico com uma horda.
Os sistemas meteorológicos e a diversidade de biomas reforçam a imersão. Condições atmosféricas adversas afetam a visibilidade e a mobilidade, enquanto diferentes regiões exigem abordagens distintas de sobrevivência. Esta variabilidade mantém o mundo dinâmico e impede que a experiência se torne previsível.
HumanitZ incentiva não apenas a sobreviver, mas a construir uma nova normalidade. Criar uma base segura, estabelecer rotinas e colaborar com outros sobreviventes transforma o cenário apocalíptico num espaço de reconstrução. A sensação de progresso é palpável: onde antes havia desespero, surge ordem; onde reinava o caos, nasce comunidade.
Grafismo
Visualmente, HumanitZ não procura competir com produções AAA nem impressionar com fidelidade gráfica de última geração. O estilo isométrico e os modelos relativamente simples podem parecer modestos à primeira vista, mas servem eficazmente a jogabilidade e a clareza visual. Num jogo onde a leitura rápida do ambiente pode significar a diferença entre a vida e a morte, esta abordagem revela-se funcional e inteligente.
Os cenários apresentam um nível de detalhe suficiente para transmitir abandono e decadência. Estradas repletas de veículos destruídos, edifícios degradados e interiores saqueados contribuem para a atmosfera pós-apocalíptica. A variedade de locais — desde zonas urbanas compactas a áreas rurais abertas — evita a monotonia e reforça a sensação de um mundo vasto e credível.
Os efeitos meteorológicos acrescentam dinamismo visual, com chuva, nevoeiro e variações de luminosidade a influenciarem a perceção do ambiente. Embora não sejam tecnologicamente revolucionários, estes elementos cumprem o seu papel na construção de uma atmosfera tensa e imprevisível.
As animações são simples, mas eficazes, especialmente durante o combate e as interações com o ambiente. O foco está na funcionalidade e na resposta imediata aos comandos do jogador, o que se alinha com a natureza sistémica e estratégica do jogo.

Som
O design sonoro de HumanitZ desempenha um papel crucial na imersão e na jogabilidade. Num mundo onde o ruído pode atrair perigos, cada som tem peso e significado. O eco distante de gemidos, o estalar de passos sobre destroços e o som metálico de uma porta a ser forçada contribuem para uma tensão constante.
As armas de fogo são particularmente impactantes do ponto de vista sonoro, não apenas pela potência que transmitem, mas pelas consequências que acarretam. Disparar não é apenas uma ação ofensiva; é uma decisão estratégica que pode desencadear novos confrontos.
A banda sonora é utilizada com moderação, privilegiando o silêncio e os sons ambientes para reforçar a sensação de isolamento e vulnerabilidade. Quando a música surge, tende a sublinhar momentos de perigo ou descoberta, sem se tornar intrusiva.
Os efeitos associados às condições meteorológicas e ao ambiente reforçam a credibilidade do mundo. O som da chuva a cair sobre superfícies metálicas ou o vento a atravessar estruturas abandonadas contribuem para uma experiência sensorial coesa e envolvente.
Conclusão
HumanitZ prova que ainda há espaço para inovação dentro de um género saturado. Ao oferecer uma liberdade quase total, sistemas interligados e um mundo dinâmico, consegue transformar a familiar premissa de sobrevivência num sandbox profundo e altamente rejogável. A transição do acesso antecipado para a versão 1.0 evidencia o compromisso do estúdio em refinar e expandir a experiência, resultando num produto sólido e repleto de potencial.
O jogo não impressiona pelos visuais, mas compensa amplamente com profundidade mecânica, variedade de abordagens e uma sensação constante de descoberta. Cada sessão é uma nova história, moldada pelas decisões do jogador e pelas circunstâncias imprevisíveis do mundo.
Para os fãs de cenários pós-apocalípticos e experiências de sobrevivência exigentes, HumanitZ é uma recomendação fácil. É um título que recompensa a curiosidade, a experimentação e a resiliência, oferecendo dezenas de horas de conteúdo emergente. Sobreviver é apenas o primeiro passo; prosperar é o verdadeiro desafio.