I Mother é um daqueles jogos que surgem de tempos a tempos e que parecem existir fora do próprio mercado. Desenvolvido pela equipa indie HellYeah!, apresenta-se como uma experiência minimalista, quase primitiva, que nos transporta para um período anterior à linguagem, às histórias e à própria cultura humana como a conhecemos. Nesta aventura assumimos o papel de uma mulher neandertal separada da sua tribo, enfrentando um mundo vasto, hostil e silencioso. Mas este silêncio não é vazio: é, na verdade, a essência daquilo que o jogo quer transmitir.
Jogabilidade
A jogabilidade de I Mother assenta numa simplicidade que engana. Não existem tutoriais, nem pop-ups, nem qualquer tipo de interface moderna. Tudo o que fazemos é orientado por símbolos pré-históricos que surgem como representações de memórias, perigos, emoções e objetivos. No início, esta abordagem pode parecer desconcertante, obrigando o jogador a observar cada movimento, cada gesto e cada som com maior atenção. Mas, aos poucos, o jogo revela a sua lógica interna. Começamos a compreender estes símbolos não como enigmas, mas como uma verdadeira linguagem. É uma jogabilidade assente na interpretação, na observação e numa enorme paciência. A luta, embora presente, nunca assume o papel central. A sobrevivência depende mais da leitura do ambiente do que da força bruta.

Mundo e história
Apesar de não existir narrativa tradicional, o mundo acaba por ser o elemento que conta a história. Não existe mapa; apenas memória e familiaridade com os caminhos percorridos. A direcção da luz, o som distante de um rio ou o comportamento dos animais tornam-se guias naturais, quase instintivos. O jogo transmite uma sensação constante de vulnerabilidade, reforçada pela presença de predadores que devem ser evitados mais do que combatidos. Há uma relação quase ritual entre o jogador e o ambiente, como se cada passo reafirmasse o lugar frágil da personagem no equilíbrio da natureza. A história não é contada, é vivida. E isso torna cada descoberta pessoal.
Grafismo
Visualmente, I Mother não tenta impressionar pela técnica. É um jogo modesto, com ambientes que às vezes até parecem planos ou simples demais. No entanto, existe um contraste marcante no céu, pintado à mão, que se destaca de tudo o resto. Este elemento visual dá ao jogo uma identidade própria e cria momentos verdadeiramente memoráveis, sobretudo ao amanhecer ou ao anoitecer. O estilo artístico pode não agradar a todos, mas cumpre a função e reforça o tom contemplativo e atmosférico da experiência.

Som
O design sonoro é, sem dúvida, um dos pilares de I Mother. A ausência de fala humana abre espaço para uma banda sonora tribal e profundamente atmosférica, composta por Paleowolf. Os tambores e ritmos orgânicos criam uma sensação de espiritualidade primitiva, enquanto os sons da fauna e do vento completam o ambiente. Este foco no som ambiental obriga o jogador a ouvir de forma ativa, tornando o áudio parte integrante da jogabilidade e da narrativa. É uma experiência sonora hipnótica, que contribui imensamente para a imersão.
Conclusão
I Mother é um jogo que desafia convenções e testa a paciência de quem o joga. Não oferece recompensas rápidas, não se explica e não tenta agradar a todos. Mas para quem aprecia uma experiência meditativa, emocional e guiada pelo instinto, este é um título que vale a pena descobrir. A sua narrativa silenciosa, a sua ligação forte ao ambiente e a forma como comunica sem palavras fazem de I Mother uma experiência singular e especialmente memorável.