Análise: Lunar Tide

Os jogos do género survivors-like parecem feitos à medida para testar a força de vontade de qualquer jogador. A sua estrutura simples, aliada a uma progressão constante e a uma sensação quase permanente de recompensa, cria um ciclo altamente viciante. Lunar Tide, desenvolvido pela whipli, insere-se precisamente nesse espaço entre o rogue-like e o bullet heaven, oferecendo partidas intensas contra vagas aparentemente intermináveis de inimigos, sempre com a promessa de mais loot, mais níveis e mais poder. À primeira vista pode parecer apenas mais um clone inspirado em fórmulas populares, mas há aqui algumas decisões de design interessantes que lhe dão uma identidade própria, mesmo que nem todas resultem da melhor forma.

Jogabilidade

A base de Lunar Tide é bastante direta: escolhemos uma personagem, entramos numa arena e tentamos sobreviver durante um determinado período de tempo enquanto somos atacados por hordas de inimigos. O ataque é automático e depende da proximidade, o que coloca todo o foco no movimento, posicionamento e escolha de melhorias. O objetivo é simples: aguentar até ao final do tempo limite antes que a lua caia e traga consigo um boss devastador.

No início temos acesso a duas personagens, uma focada em combate corpo a corpo e outra de longo alcance. A diferença entre ambas é clara e bastante marcada. A personagem melee é resistente e capaz de aguentar pancada, mas exige uma abordagem mais arriscada, enquanto a personagem ranged aposta num estilo mais móvel, frágil, mas muito mais eficaz para quem prefere o clássico correr e disparar. Esta distinção acaba por influenciar fortemente a experiência inicial, e é fácil perceber porque muitos jogadores acabam por gravitar para a opção à distância.

Cada inimigo derrotado deixa cair uma orbe de experiência, que ao ser recolhida permite escolher uma de três melhorias aleatórias. Estas perks vão desde atributos básicos como vida máxima, regeneração ou armadura, até opções mais ofensivas como roubo de vida ou armas adicionais. O fator aleatório impede que se siga sempre o mesmo caminho, obrigando a adaptações constantes e tornando cada run ligeiramente diferente da anterior.

Mundo e história

Lunar Tide não é propriamente um jogo focado na narrativa, mas existe um enquadramento temático suficiente para dar contexto à ação. O mundo parece preso num ciclo de corrupção lunar, com criaturas sombrias a surgirem em massa sempre que a lua se aproxima do seu ponto crítico. O jogador é apenas mais um sobrevivente a tentar resistir a esse fluxo interminável de monstros, recolhendo poder suficiente para enfrentar o inevitável confronto final.

Ao longo das runs, desbloqueiam-se novas áreas, num total de quatro zonas principais, cada uma com inimigos e padrões ligeiramente distintos. Embora não exista uma história profunda ou personagens memoráveis, o ambiente cumpre o seu papel e ajuda a manter a progressão interessante, sobretudo quando novas regiões ficam disponíveis após cumprir determinados objetivos.

Grafismo

Visualmente, Lunar Tide é facilmente o seu ponto mais fraco. O estilo gráfico é tosco, com animações rígidas e um aspeto geral pouco apelativo. Mesmo quando o ecrã não está completamente cheio de inimigos, há uma sensação constante de confusão visual que pode tornar-se cansativa ao fim de algumas sessões mais longas. Quando a ação atinge o seu pico, o excesso de efeitos e sprites em movimento transforma-se num verdadeiro ataque aos olhos.

Felizmente, existem algumas opções para mitigar este problema, como a ativação de scanlines, que ajudam a suavizar um pouco a agressividade visual. Ainda assim, não há como ignorar que este é um jogo que sacrifica claramente o aspeto estético em prol da jogabilidade e do loop viciante.

Som

O som em Lunar Tide cumpre os mínimos necessários, mas raramente se destaca. A música acompanha bem o ritmo frenético da ação, sem nunca se tornar demasiado intrusiva, mas também sem temas memoráveis que fiquem na cabeça após desligar o jogo. Os efeitos sonoros são funcionais, transmitindo impacto suficiente nos ataques e nas mortes dos inimigos, embora possam tornar-se repetitivos ao fim de várias runs consecutivas.

No geral, o áudio serve como suporte à experiência, mas não é algo que contribua de forma significativa para a identidade do jogo.

Conclusão

Lunar Tide é um jogo imperfeito, mas surpreendentemente viciante. A sua estrutura simples, aliada a um sistema de progressão permanente através de melhorias compradas com ouro entre runs, cria aquela sensação clássica de mais uma tentativa que define os melhores rogue-likes. Mesmo quando o jogo parece injusto, especialmente nos bosses exageradamente poderosos que podem eliminar o jogador num instante, há sempre o incentivo de voltar mais forte graças às melhorias permanentes.

Não é um jogo bonito, nem particularmente equilibrado em todos os momentos, mas compensa essas falhas com um preço acessível, desafios diários para os mais persistentes e um loop de jogabilidade que facilmente consome horas sem darmos por isso. Para quem aprecia o género e consegue fechar os olhos às suas limitações técnicas, Lunar Tide é uma aposta segura e um exemplo claro de como a jogabilidade continua a ser rei, mesmo quando tudo o resto fica aquém.

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