Análise: MISERY

Misery é um daqueles jogos que chega carregado de ambição, espírito e caos. A proposta é imediatamente apelativa: um roguelite cooperativo inspirado em Stalker, mergulhado num ambiente soviético decadente e marcado por anomalias, radiação, neve e desespero. O jogo abre com uma corrida frenética de 60 segundos antes de uma bomba nuclear cair, e esse momento define muito bem o resto da experiência: tensão constante, improviso, falhas técnicas e uma sensação de urgência quase permanente. É um título que promete atmosfera densa, exploração arriscada e um ciclo de saque viciante, mas que também revela rapidamente as suas fragilidades. É simultaneamente fascinante e profundamente inacabado.

Jogabilidade
O núcleo de Misery vive do seu ciclo de administrar o bunker, explorar mapas gerados proceduralmente e regressar vivo. No início de cada sessão, os jogadores dispõem de um minuto para recolher tudo o que conseguirem na casa inicial antes da explosão nuclear. Depois desse momento, o bunker torna-se o centro de operações: um espaço seguro onde se despeja loot, se constrói equipamento, se expandem divisões à força de martelo e se monta uma rede eléctrica improvisada com geradores e cabos.

O loop de jogabilidade é extremamente viciante. Sair para o frio, encher a mochila de sucata, correr de volta ao bunker, depositar tudo no chão por falta de espaço e repetir cria um ritmo surpreendentemente satisfatório. É o jogo perfeito para quem adora acumular objectos inúteis só porque, eventualmente, podem ser úteis. No entanto, tudo isto é acompanhado por falhas gritantes. O inventário é uma tortura, a interface é pouco intuitiva e até os atalhos parecem ter sido concebidos contra o jogador. Combate é algo a evitar a todo o custo: não existe defesa, os inimigos são mais rápidos e a movimentação para trás é demasiado lenta, tornando qualquer confronto uma sentença de morte.

Mundo e história
Misery coloca-nos no papel de uma equipa de segurança privada encarregada de proteger um instituto secreto num mundo devastado. A história é pouco detalhada, mas o suficiente para contextualizar a atmosfera pesada e hostil. A verdadeira narrativa nasce do mundo em ruínas: blocos soviéticos abandonados, neve constante, silêncios inquietantes, anomalias invisíveis e emissões que podem matar em segundos. Cada saída do bunker parece um risco real.

Mesmo assim, o mundo gerado proceduralmente revela limitações evidentes. Os mapas tornam-se repetitivos a grande velocidade, com edifícios demasiadamente semelhantes e áreas vazias sem grande propósito. Jogar sozinho torna tudo mais árido: o tempo passa depressa demais, quase nada de valor aparece e o jogo transforma-se num simulador de caminhar deprimente, pontuado por mortes aleatórias. A experiência está claramente desenhada para ser vivida em grupo.

Grafismo
Visualmente, Misery aposta num estilo PSX intencional, cheio de texturas granulosas, cores frias e cenários angulosos que combinam na perfeição com o ambiente decadente. O mundo parece gasto, velho e abandonado, e isso favorece bastante o tom geral. No entanto, a execução nem sempre acompanha a intenção. Há problemas de animação por todo o lado, membros que atravessam roupas, movimentos rígidos e personagens que flutuam devido a bugs de sincronização. É um estilo artístico coerente, mas manchado por falhas técnicas visíveis.

Som
O som é, por vezes, um dos elementos mais fortes do jogo. Os ambientes são densos, os ruídos da neve e do vento criam uma presença constante e alguns efeitos sonoros ajudam a aumentar a tensão. Porém, isto só acontece quando o áudio decide funcionar. Objetos que não têm som, picking de itens absurdamente barulhento dentro do bunker e falhas intermitentes tornam a experiência irregular. Ainda assim, quando o jogo acerta, acerta mesmo: a sensação de caminhar sozinho na escuridão gelada é assustadora graças ao trabalho sonoro.

Conclusão
Misery é um projecto cheio de alma e potencial, mas longe de ser um lançamento completo. É divertido, tenso e hilariantemente caótico quando jogado em co-op, especialmente graças aos momentos imprevisíveis provocados pelas anomalias, pela radiação e pelos bugs. Mas é também um título claramente inacabado, com mapas repetitivos, IA fraca, combates frustrantes e problemas sérios no modo cooperativo que podem corromper gravações inteiras.

Mesmo assim, há algo aqui que prende. A atmosfera é excelente, o ciclo de loot é irresistível e o preço baixo torna mais fácil perdoar algumas falhas. Misery é um esqueleto imperfeito de um grande jogo. Quem jogar com amigos pacientes e aceitar o caos pode encontrar nele horas de gargalhadas e tensão autêntica. Para quem procura uma experiência sólida, polida e equilibrada, ainda não é o momento. Mas o potencial está lá, à espera de ser escavado entre as ruínas.

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