Análise: The Run

The Run é uma experiência que foge ao convencional e que dificilmente se encaixa nas categorias tradicionais dos videojogos. Desenvolvido pela PRM Games e filmado pela Benacus Entertainment Production em associação com a RNF Productions, este thriller de terror em formato FMV utiliza imagens reais e coloca o jogador no papel de decisor, moldando o desenrolar de uma narrativa cinematográfica. A sensação mais próxima que muitos poderão reconhecer vem dos livros de aventura interativa, onde cada escolha abre novos caminhos, mas aqui tudo ganha vida através de atores reais, cenários autênticos e uma realização que procura replicar o ritmo e a tensão de um filme.

Ao contrário de produções que apostam na ação direta ou na complexidade mecânica, The Run convida o jogador a sentar-se, observar e decidir. O resultado é uma experiência acessível, quase passiva em termos de controlo, mas que procura compensar essa simplicidade com suspense e múltiplos desfechos. Para quem nunca experimentou um FMV moderno, esta pode ser uma porta de entrada curiosa para um género que tem vindo a ressurgir com novas ambições.

Jogabilidade

A jogabilidade de The Run é minimalista por natureza. Não existem controlos de movimento, combate ou exploração livre. Toda a interação resume-se a tomar decisões em momentos-chave, escolhendo entre opções que surgem no ecrã. Essas escolhas podem ser feitas com teclado e rato ou comando, tornando o jogo acessível em diferentes configurações.

Existem duas formas de experienciar estas decisões: uma versão com tempo limite, que aumenta a tensão e simula a urgência das situações vividas pela protagonista, e um modo pausado, ideal para sessões em grupo ou transmissões em direto, permitindo discutir cada decisão antes de avançar. Esta inclusão é particularmente interessante, pois transforma a experiência num evento social, onde várias pessoas podem colaborar ou discordar sobre o rumo da história.

Outro elemento bem conseguido é o mapa de progressão das escolhas, que permite visualizar os caminhos percorridos e os que ficaram por explorar. A isto junta-se um registo das mortes encontradas, incentivando a experimentação e a descoberta das cerca de 20 cenas de morte únicas espalhadas pela narrativa. Este sistema introduz uma camada estratégica inesperada, levando o jogador a planear novas tentativas para alcançar finais diferentes.

A duração total é relativamente curta. Uma experiência completa pode rondar seis horas, dependendo do número de repetições e do uso da função de avanço rápido, que permite saltar cenas já vistas. Este encurtamento progressivo torna as repetições menos cansativas e incentiva a exploração de todos os desfechos.

Mundo e história

A narrativa acompanha Zanna, uma influenciadora digital focada em fitness e bem-estar, que decide passar férias nas montanhas rústicas do norte de Itália. Entre oliveiras, trilhos isolados e aldeias pitorescas, uma corrida aparentemente inocente transforma-se rapidamente numa luta pela sobrevivência quando se vê perseguida por um grupo de assassinos em série.

A história desenvolve-se de forma lenta, apostando num ritmo gradual que procura criar tensão ao longo do tempo. Embora consiga manter a curiosidade sobre o rumo dos acontecimentos, o enredo acaba por recorrer a vários clichés do género, especialmente nos seus cinco finais possíveis. Em vez de surpreender com abordagens mais ousadas, opta por soluções familiares que podem deixar uma sensação de oportunidade perdida.

Apesar disso, existem momentos genuinamente inesperados e algumas mortes particularmente chocantes que acrescentam impacto e humor negro à experiência. Ainda assim, a narrativa peca pela falta de profundidade emocional. As personagens não recebem desenvolvimento suficiente para criar um verdadeiro investimento por parte do jogador, o que reduz o peso dramático das decisões.

Grafismo

Sendo um FMV, o grafismo de The Run assenta inteiramente na qualidade da filmagem e da realização. Felizmente, a produção revela-se competente, com imagens bem captadas e uma variedade de planos que enriquecem a experiência visual.

As paisagens montanhosas do norte de Itália destacam-se, com planos aéreos captados por drone que mostram florestas densas, encostas extensas e trilhos sinuosos. Estes contrastam com cenas mais claustrofóbicas em interiores ou em ruelas estreitas de pedra, criando uma alternância eficaz entre espaços abertos e confinados que contribui para a tensão narrativa.

A montagem é fluida, integrando as transições entre cenas e momentos de decisão sem cortes bruscos ou quebras de imersão. Este cuidado técnico ajuda a manter a sensação de continuidade cinematográfica, reforçando a ideia de que o jogador está a controlar o fluxo de um filme interativo.

Som

O som desempenha um papel importante na construção da atmosfera. A banda sonora e os efeitos sonoros trabalham em conjunto para amplificar o suspense, acompanhando os momentos de perseguição e perigo iminente.

O diálogo, embora por vezes algo exagerado ou previsível, acaba por ter um charme próprio. As interpretações dos atores contribuem significativamente para a experiência. Roxanne McKee, no papel de Zanna, lidera a narrativa com segurança, sustentando grande parte do peso emocional e dramático. A sua experiência em produções televisivas é evidente na naturalidade com que conduz as cenas mais intensas.

George Blagden, num papel secundário, oferece uma presença mais discreta, funcionando como suporte à protagonista. Já os antagonistas, embora visualmente ameaçadores, carecem de profundidade e presença emocional, o que pode ser uma escolha deliberada para os tornar mais desumanizados, mas acaba por os tornar menos memoráveis.

Conclusão

The Run é uma experiência singular que aposta na fusão entre cinema e videojogo, oferecendo uma narrativa interativa que privilegia a decisão em detrimento da ação direta. A sua acessibilidade, a qualidade da produção e a curiosidade gerada pelos múltiplos finais tornam-no numa proposta interessante, especialmente para quem procura algo diferente ou para sessões partilhadas com amigos.

No entanto, a falta de profundidade emocional, o recurso a clichés narrativos e finais pouco inspirados impedem-no de atingir todo o seu potencial. Apesar de alguns momentos verdadeiramente inesperados e de um conceito sólido, a história raramente arrisca o suficiente para se destacar num género que vive precisamente da surpresa e da tensão.

Ainda assim, como primeira abordagem ao formato FMV ou como experiência casual para uma noite descontraída, The Run cumpre o seu papel. Com uma narrativa mais ousada e personagens mais desenvolvidas, futuras produções deste estilo poderão transformar esta base promissora em algo verdadeiramente memorável.

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