Análise: The Stairwell

O subgénero dos jogos de anomalias tem-se revelado uma verdadeira montanha-russa de qualidade ao longo dos últimos anos. Entre experiências memoráveis que definem o género e outras que parecem meras tentativas apressadas de capitalizar uma tendência, há de tudo um pouco. The Stairwell surge neste contexto como o mais recente título do criador de Before Exit: Supermarket e Before Exit: Gas Station, chegando às consolas depois de uma estreia no PC. Testado na PlayStation 5, este jogo coloca-se imediatamente sob escrutínio: será mais um exercício descartável ou uma experiência digna de figurar ao lado dos melhores?

Apesar de se apresentar como um projecto indie de menor escala, The Stairwell demonstra desde cedo uma ambição pouco comum dentro do género. A sua premissa simples esconde uma estrutura surpreendentemente profunda, repleta de detalhes que convidam à observação atenta e à interpretação. Não é um jogo que se limite a repetir fórmulas; procura antes refiná-las e acrescentar camadas de tensão psicológica e narrativa ambiental que o distinguem.

Jogabilidade

A base jogável de The Stairwell segue a fórmula clássica dos jogos de anomalias. O jogador começa num piso considerado normal, que serve como referência para todos os seguintes. Cada detalhe conta: objectos, sinais, quadros, portas, iluminação e até a posição de elementos aparentemente insignificantes. A partir daí, cada novo piso pode estar idêntico ou apresentar algo fora do lugar. Detectar essas discrepâncias é a chave.

Sempre que o jogador identifica uma anomalia, deve regressar pelo caminho de onde veio. Se tudo parecer normal, deve continuar a subir. Independentemente da escolha, uma sala intermédia revela se a decisão foi correcta, e o ciclo repete-se até alcançar o objectivo de atravessar dez pisos e chegar ao telhado. Curiosamente, mesmo quando se desce, o progresso mantém-se caso a decisão tenha sido acertada, criando uma lógica espacial desconcertante que reforça o carácter surreal da experiência.

O jogo introduz mais de cinquenta anomalias, algumas exclusivas de níveis de dificuldade superiores. Estas variam entre alterações subtis e eventos perigosos. Objectos podem mudar de tamanho, sinais podem apresentar textos diferentes, estátuas podem mover-se quando não estamos a olhar e elementos podem cair ou flutuar no vazio central da escadaria. Há também ameaças directas que obrigam o jogador a fugir, sem qualquer forma de defesa além da corrida e do uso de uma vela para iluminar áreas escuras.

Mundo e história

Assumimos o papel de um guarda de segurança recém-contratado cuja tarefa é inspeccionar os pisos de um edifício aparentemente normal. No entanto, desde os primeiros minutos, torna-se evidente que algo está profundamente errado. Sinais estranhamente formulados insistem que tudo está normal, enquanto o próprio edifício parece dobrar-se sobre si mesmo num ciclo interminável.

O espaço não está completamente vazio. Um homem de expressão preocupada permanece sentado num banco, peixes num aquário parecem observar e provocar o jogador, um shiba inu adorável aparenta estar em perigo, e figuras perturbadoras como um palhaço a preto e branco e um demónio ameaçador surgem como presenças hostis. Estes elementos, embora inicialmente pareçam aleatórios, acabam por contribuir para uma narrativa ambiental subtil que sugere que o edifício é uma entidade viva, repleta de memórias e horrores.

A história não é apresentada de forma tradicional, mas há um esforço claro em ligar os elementos dispersos numa atmosfera coesa e inquietante. Este cuidado é raro no género, onde muitas vezes a jogabilidade sobrepõe-se completamente à narrativa. Aqui, existe potencial para uma expansão futura deste universo, tal é a riqueza implícita nas suas sugestões.

Grafismo

Visualmente, The Stairwell adopta uma abordagem realista com um toque minimalista. Embora seja possível notar alguma reutilização de assets, o conjunto revela uma coerência surpreendente. Cada objecto parece colocado com intenção, contribuindo para a sensação de que o edifício possui lógica interna e história própria.

A iluminação desempenha um papel crucial, especialmente nas áreas mais escuras onde a vela se torna indispensável. As sombras e os contrastes ajudam a amplificar a tensão, transformando espaços comuns em cenários carregados de ameaça. Pequenos efeitos visuais, como distorções subtis ou movimentos quase imperceptíveis, reforçam a sensação de que algo está constantemente errado.

Foram detectados alguns glitches gráficos ocasionais, mas nada suficientemente grave para comprometer a experiência. No geral, o jogo consegue criar uma identidade visual sólida, onde o ambiente se torna o verdadeiro protagonista.

Som

A componente sonora é um dos pilares da atmosfera do jogo. A banda sonora mantém uma tensão constante, com sons ambientes que sugerem presenças invisíveis e perigos iminentes. Rangidos, ecos e silêncios prolongados são utilizados de forma inteligente para manter o jogador em alerta permanente.

Os efeitos sonoros associados às anomalias e encontros com entidades hostis são particularmente eficazes. Em vez de recorrer exclusivamente a sustos repentinos, o jogo constrói uma sensação de desconforto gradual, tornando os momentos de perigo ainda mais impactantes. Para jogadores mais sensíveis, existe a opção de desactivar sustos súbitos, tornando a experiência mais acessível sem comprometer a essência.

Conclusão

The Stairwell destaca-se como uma das experiências mais completas dentro do género de jogos de anomalias. Apesar de não ser perfeito, aproxima-se perigosamente daquilo que se poderia considerar a forma ideal desta fórmula. A variedade de anomalias, a presença de uma narrativa ambiental consistente e a inclusão de áreas secretas e objectivos secundários elevam-no acima da média.

A dificuldade pode ser exigente, e certas situações de morte instantânea podem parecer injustas, especialmente considerando a duração das sessões. Ainda assim, a presença de checkpoints e opções de acessibilidade ajuda a equilibrar a experiência. O facto de ser possível ajustar a dificuldade e remover sustos torna-o adequado tanto para veteranos como para novos jogadores.

Num mercado saturado de propostas semelhantes, The Stairwell consegue afirmar-se como uma referência moderna do género. É uma experiência tensa, inteligente e surpreendentemente rica, que recompensa a atenção ao detalhe e a perseverança. Para fãs de jogos de anomalias ou curiosos à procura de um ponto de entrada sólido, esta é uma descida — ou subida — que vale bem a pena enfrentar.

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