Mais de um mês após o lançamento da versão 3.0 de Wuthering Waves, a expectativa em torno da nova região, Lahai-Roi, era enorme. Depois do clímax marcante do arco Rinascita, muitos jogadores aguardavam uma nova fase que elevasse ainda mais a fasquia narrativa e de design. Como já se tornou tradição no jogo, a atualização foi dividida em duas partes, culminando recentemente com o fecho do arco introdutório desta região. No entanto, aquilo que deveria representar um novo capítulo ambicioso revelou-se uma experiência irregular, marcada por decisões de design controversas e um foco narrativo que nem sempre serve o enredo global.
A versão 3.0 e a sua continuação em 3.1 tentam estabelecer Lahai-Roi como um espaço temático distinto, assumindo uma estética de regresso às aulas que transforma o tom da aventura numa comédia romântica escolar com fortes influências anime. Esta mudança é ousada, mas levanta questões sobre coerência tonal e relevância narrativa. Embora existam momentos inspirados e melhorias técnicas notáveis nas cenas cinemáticas, a sensação geral é de um conteúdo que privilegia personagens específicas e novas mecânicas em detrimento da construção do mundo e da progressão da história principal.
Jogabilidade
Uma das maiores novidades introduzidas nas versões 3.0 e 3.1 é o sistema de motorizada, que substitui a exploração aérea como principal forma de deslocação em Lahai-Roi. O Rover recebe este veículo como estudante da Startorch Academy, e rapidamente se torna evidente que toda a região foi concebida com esta mecânica em mente. O que começa como um simples tutorial transforma-se numa presença constante, com missões principais, combates e até batalhas contra bosses a decorrerem sobre duas rodas.
A motorizada oferece mobilidade rápida, saltos sobre penhascos, execução de manobras e eventos de corrida. Em teoria, trata-se de uma adição interessante que acrescenta dinamismo à exploração. Na prática, a sua omnipresença torna-se excessiva. Metade das missões associadas a Lynae e Mornye envolve deslocações longas que parecem existir apenas para justificar o uso do veículo. O design do mapa reforça esta dependência, com grandes extensões vazias que desencorajam a exploração a pé. Outro elemento que reforça o foco nas personagens é o sistema de viagem em dueto, permitindo que figuras escolhidas pelos jogadores acompanhem o Rover na motorizada. Esta funcionalidade, introduzida diretamente na missão principal com animações únicas, como Mornye a abraçar o protagonista durante a viagem, evidencia a aposta em momentos de proximidade emocional. Embora seja uma adição simpática, a sua integração no enredo principal contribui para a sensação de que certas mecânicas existem mais para fan service do que para enriquecer a jogabilidade.
No combate, as versões 3.0 e 3.1 mantêm a base sólida do sistema de ação característico de Wuthering Waves, mas não introduzem evoluções significativas. As lutas sobre a motorizada oferecem um espetáculo visual diferente, mas carecem de profundidade estratégica. A sensação é de uma mecânica ainda em fase experimental, interessante mas insuficientemente refinada para sustentar um papel tão central.

Mundo e história
Narrativamente, Lahai-Roi representa uma mudança de tom significativa. A transição é feita através da crise temporal na cidade de Honami, que funciona como ponte entre regiões e introduz elementos de lore. Acompanhado por Chisa, o Rover resolve mais uma anomalia e abre caminho para a nova área, motivado também pelo desejo da jovem de regressar à família após anos presa num ciclo temporal.
No entanto, assim que se atravessa o portal, a narrativa assume um registo inesperado. O Rover é literalmente atropelado por uma estudante de bicicleta, num tropo clássico de anime escolar, e conduzido à Startorch Academy. A partir daí, a história centra-se quase exclusivamente em Lynae, que guia o protagonista pelo campus e rapidamente se torna o eixo emocional da narrativa.
Este foco levanta problemas estruturais. A crise que ameaça a academia, a presença de criaturas perigosas e os mistérios envolvendo o Heliodic Six são relegados para segundo plano. O drama principal passa a ser a possível expulsão de Lynae, uma situação que, embora emocionalmente relevante, parece desproporcional quando comparada com as ameaças globais em jogo.
Chisa, que inicialmente parecia destinada a desempenhar um papel importante, é praticamente esquecida após a chegada a Lahai-Roi. Surge como NPC com algumas falas, mas não recebe qualquer resolução narrativa. Esta ausência torna-se particularmente evidente durante o ataque à academia, onde a sua presença teria sido natural.
A segunda parte da versão 3.0, já na transição para 3.1, mantém este padrão. As tarefas com Mornye assumem o centro da ação, enquanto os elementos mais amplos da história surgem como ruído de fundo. Questões como os cálculos do Heliodic Six e as visões do Rover, que deveriam ser cruciais, recebem menos atenção do que o desenvolvimento pessoal das personagens.
Esta abordagem evidencia uma tendência crescente para colocar o apelo das personagens femininas no centro da experiência. Missões que anteriormente funcionavam como complementos tornaram-se o núcleo da narrativa principal, alterando a perceção de prioridade dentro do jogo.
Grafismo
Visualmente, Lahai-Roi apresenta uma direção artística inspirada numa visão retrofuturista que remete para a ficção científica dos anos 80. Elementos como computadores de estilo antigo, fitas VHS e equipamentos com estética analógica misturam-se com tecnologia moderna, criando um ambiente híbrido. A ideia é interessante, mas a execução resulta num cenário que muitas vezes parece genérico e pouco convidativo à exploração.
A Startorch Academy, em particular, sofre com problemas de escala. Os edifícios parecem desproporcionais, como se tivessem sido construídos para gigantes e posteriormente adaptados para humanos. Esta sensação é agravada pelos vastos espaços vazios que rodeiam muitas estruturas, dando a impressão de um mundo inacabado.
A paleta de cores da academia, dominada por verdes, amarelos e castanhos, contribui para uma mistura visual pouco apelativa. O efeito de iluminação que simula uma gravação antiga é interessante como conceito isolado, mas torna algumas áreas desconfortáveis de observar durante longos períodos. Embora existam opções de filtros e ajustes de iluminação, estas deveriam servir como personalização estética e não como solução para problemas de legibilidade.
Ainda assim, nem tudo é negativo. Certas zonas naturais, áreas tribais e locais associados ao Heliodic Six apresentam um design mais cuidado e atmosférico. Estes momentos demonstram o potencial da região, mas são prejudicados pelos grandes espaços vazios que os separam, possivelmente uma consequência das limitações técnicas associadas à velocidade da motorizada.

Som
No campo sonoro, as versões 3.0 e 3.1 mantêm a qualidade habitual da banda sonora de Wuthering Waves, embora sem temas particularmente memoráveis que definam Lahai-Roi como região. As composições acompanham o tom escolar e leve de muitas cenas, reforçando a mudança de atmosfera, mas raramente atingem o impacto emocional presente em regiões anteriores.
Os efeitos sonoros da motorizada são competentes e ajudam a transmitir velocidade e presença física, mas a repetição constante durante longos percursos torna-se cansativa. Por outro lado, as cenas cinemáticas apresentam melhorias notáveis na sincronização de vozes e animações, contribuindo para momentos mais expressivos.
O trabalho de dobragem continua sólido, especialmente nas interações entre Rover, Lynae e Mornye, onde a entoação ajuda a transmitir proximidade emocional. No entanto, esta qualidade acaba por reforçar o foco excessivo nas personagens em detrimento da construção do mundo.
Conclusão
As versões 3.0 e 3.1 de Wuthering Waves representam uma fase de transição ambiciosa, mas irregular. Lahai-Roi introduz ideias interessantes, como a estética escolar, a motorizada e melhorias nas cinemáticas, mas a execução revela um desequilíbrio entre narrativa, design e jogabilidade.
O foco excessivo em personagens específicas, aliado à integração forçada de novas mecânicas, prejudica a sensação de progressão épica que caracterizava arcos anteriores. A região oferece momentos de charme para quem aprecia o ambiente escolar e interações próximas com personagens, mas pode desiludir jogadores que procuram uma história mais abrangente e exploração significativa.
Apesar das melhorias de otimização introduzidas ao longo da atualização, os problemas iniciais de desempenho e o design de mapa excessivamente dependente da motorizada deixam a sensação de que Lahai-Roi poderia ter beneficiado de mais tempo de desenvolvimento.
Wuthering Waves continua a demonstrar potencial e uma base de jogabilidade sólida, mas as versões 3.0 e 3.1 evidenciam os riscos de priorizar tendências e apelo imediato em detrimento da coerência e profundidade. O futuro dirá se a Kuro Games conseguirá equilibrar estas forças e devolver ao jogo a grandiosidade narrativa que outrora o definiu.