Nunca fui particularmente fã de jogos de cartas tradicionais. A ideia de me sentar para uma partida de blackjack sempre me pareceu pouco apelativa, quase sem propósito. Ainda assim, Black Jacket conseguiu algo inesperado: despertou em mim um entusiasmo genuíno e até uma pequena vontade de comprar um baralho de cartas antes do seu lançamento previsto para 2026. É curioso como um jogo pode pegar numa base tão simples e transformá-la numa experiência envolvente.
Tal como muitos jogadores da geração que cresceu com o Windows pré-instalado, o único jogo de cartas que realmente marcou presença no quotidiano foi o inevitável Solitaire, uma companhia silenciosa nas pausas do trabalho ou nos momentos mortos. Fora isso, sempre evitei jogos de cartas, quer por os achar aborrecidos, quer por nunca me dar ao trabalho de compreender totalmente as regras. Com o passar dos anos e após analisar vários deck-builders, aprendi a apreciar esse subgénero. No entanto, jogos de cartas convencionais continuavam a não me dizer nada.
Black Jacket surge precisamente nesse ponto de resistência pessoal. A sua premissa — um jogo de sobrevivência com uma narrativa intrigante passada no Inferno — foi o primeiro elemento a captar a minha atenção. A proposta é simples, mas eficaz: tens de escapar do Inferno jogando blackjack, guiado por uma figura misteriosa chamada Reed.
Jogabilidade
À primeira vista, as regras são tão básicas quanto se poderia esperar: puxar cartas do baralho e tentar aproximar-se o mais possível de 21. Ultrapassar esse número resulta em bust e perda imediata da ronda. É, no seu núcleo, um jogo de sorte. No entanto, Black Jacket introduz mecânicas de roguelike e construção de baralho que tornam a experiência mais equilibrada e estratégica do que aparenta.
Tal como noutros títulos do género, o jogador escolhe caminhos ao longo de um mapa ramificado, com diferentes tipos de encontros. Entre eles encontram-se mercadores, oportunidades para ganhar moedas, combates contra outras almas condenadas e, claro, confrontos com o chefe da área. Esta estrutura familiar ajuda a criar um ciclo de progressão que incentiva múltiplas tentativas.
As mecânicas adicionais são onde o jogo realmente ganha profundidade. É possível queimar cartas para remover aquelas que não são úteis ou que prejudicam a consistência do baralho. Também é possível despertar cartas, concedendo-lhes vantagens adicionais. Estas vantagens podem permitir, por exemplo, espreitar o baralho sem gastar ações, manipular cartas do adversário ou alterar probabilidades a teu favor.
Confesso que nas primeiras tentativas me senti um pouco perdido. Nem todas as vantagens são claramente explicadas, e perceber o impacto real de cada uma exige experimentação. Contudo, após algumas partidas, estas mecânicas tornam-se intuitivas e começam a revelar o seu potencial estratégico. Mesmo numa versão de demonstração, já é possível perceber que o jogo não depende exclusivamente da sorte. Há espaço para planeamento e adaptação, o que cria uma vontade constante de voltar a tentar.

Mundo e história
A ambientação de Black Jacket é um dos seus elementos mais intrigantes. O Inferno serve de pano de fundo para esta jornada improvável, transformando um simples jogo de cartas numa luta simbólica pela redenção ou fuga. A presença de Reed, a figura misteriosa que guia o jogador, acrescenta uma camada narrativa que desperta curiosidade desde o início.
Embora a narrativa não seja apresentada de forma expositiva, os detalhes sugerem um mundo onde almas condenadas competem entre si numa tentativa desesperada de escapar ao seu destino. Cada adversário parece carregar uma história própria, implícita nas suas habilidades e comportamentos. Esta abordagem indireta contribui para uma atmosfera densa e envolvente.
A progressão pelos diferentes encontros reforça a sensação de travessia por um purgatório estruturado. Mercadores surgem como figuras ambíguas, oferecendo vantagens em troca de recursos escassos, enquanto os combates contra outras almas reforçam a ideia de competição num ambiente hostil. O confronto com os chefes representa não apenas um desafio mecânico, mas também um obstáculo simbólico no caminho para a libertação.
Grafismo
Visualmente, Black Jacket apresenta um estilo artístico que complementa eficazmente o seu tom sombrio. A arte é detalhada e expressiva, contribuindo para a identidade única do jogo. As cartas, os personagens e os cenários exibem uma estética coerente que mistura elementos góticos com um toque estilizado, evitando cair em clichés excessivamente sombrios.
Os retratos das personagens são particularmente eficazes na transmissão de personalidade. Mesmo sem grandes quantidades de texto, é possível inferir traços e intenções através das expressões e do design visual. O Inferno não é retratado como um cenário genérico de fogo e enxofre, mas sim como um espaço simbólico e estilizado, reforçando o tom narrativo. A interface é clara e funcional, permitindo compreender rapidamente o estado do jogo, as cartas disponíveis e as vantagens ativas. Num jogo onde a leitura rápida da informação é crucial, esta clareza visual faz toda a diferença.

Som
O design sonoro de Black Jacket contribui significativamente para a imersão. A banda sonora aposta em tons sombrios e atmosféricos, criando uma sensação constante de tensão e incerteza. Em vez de melodias intrusivas, a música funciona como um pano de fundo subtil que reforça o ambiente infernal. Os efeitos sonoros são discretos, mas eficazes. O som das cartas a serem jogadas, os pequenos sinais auditivos associados às vantagens e os efeitos nos momentos de vitória ou derrota ajudam a reforçar o feedback ao jogador. Esta abordagem minimalista evita distrações e mantém o foco na tomada de decisões.
A combinação entre música e efeitos sonoros cria uma experiência coesa que sustenta o tom do jogo. Mesmo em sessões prolongadas, o som não se torna repetitivo ou cansativo, o que é essencial num título com forte componente roguelike.
Conclusão
Black Jacket conseguiu algo que poucos jogos de cartas tradicionais alguma vez me proporcionaram: interesse genuíno e vontade de continuar a jogar. Ao combinar blackjack com mecânicas de construção de baralho e progressão roguelike, o jogo transforma um sistema baseado na sorte numa experiência estratégica e envolvente.
Apesar de uma curva de aprendizagem inicial algo confusa devido à explicação limitada de certas vantagens, a adaptação surge naturalmente com o tempo. O ciclo de jogo incentiva repetição, experimentação e aperfeiçoamento de estratégias, criando aquela fome típica dos roguelikes que nos faz querer tentar mais uma vez.
A ambientação no Inferno, aliada a uma narrativa subtil e a uma direção artística consistente, eleva a experiência para além de um simples jogo de cartas. Black Jacket não é apenas sobre alcançar 21; é sobre sobrevivência, escolha e adaptação num ambiente hostil.
Após derrotar um chefe numa das minhas tentativas, fui recompensado com uma moeda dourada para gastar na loja, reforçando a sensação de progressão. Noutra ocasião, após uma vitória semelhante, em vez de uma recompensa tangível, surgiu a opção de adicionar o jogo à lista de desejos. E foi exatamente isso que fiz. Se um jogo baseado em blackjack consegue converter um cético declarado, então há aqui algo especial à espera de ser descoberto.