Ink Inside é um daqueles projetos que imediatamente despertam curiosidade pela sua origem pouco convencional. Antes de existir como videojogo, esta obra começou como um piloto de série animada concebido para a Nickelodeon, com planos ambiciosos para três temporadas. No entanto, o projeto acabou por seguir outro caminho e renasceu como um videojogo desenvolvido pela Blackfield Entertainment.
A transformação de uma ideia pensada originalmente para televisão num jogo levanta inevitavelmente algumas questões. Será que uma narrativa pensada para episódios animados consegue adaptar-se bem ao formato interativo? Ou será que certos elementos acabam por parecer deslocados quando transportados para o universo dos videojogos?
Há razões para algum otimismo. A equipa responsável por Ink Inside já tinha experiência em adaptar animações para videojogos, tendo trabalhado anteriormente em Steven Universe: Unleash the Light. A diferença é que, nesse caso, existia já uma série estabelecida com personagens e universo definidos. Aqui, pelo contrário, trata-se de uma propriedade completamente nova.
O resultado é um jogo claramente experimental, que mistura narrativa, elementos visuais fortemente estilizados e um sistema de combate bastante invulgar. Embora nem todas as ideias funcionem de forma perfeita, Ink Inside apresenta uma identidade muito própria que o distingue facilmente de muitos títulos independentes atuais.
Jogabilidade
A mecânica central de Ink Inside é, no mínimo, inesperada. Em vez de recorrer a combates tradicionais com armas ou habilidades mágicas, todas as batalhas são resolvidas através de partidas de dodgeball.
Neste contexto, as bolas utilizadas recebem o nome de cores. Existem três categorias principais: leves, médias e pesadas. Como seria de esperar, cada tipo apresenta vantagens e desvantagens distintas. As cores leves são rápidas de lançar e permitem reações imediatas, enquanto as pesadas demoram mais tempo a preparar, mas podem causar impactos mais significativos. Depois de ser lançada, uma core precisa de algum tempo para recarregar antes de poder ser usada novamente. Este detalhe adiciona uma camada estratégica às batalhas, obrigando o jogador a pensar bem no momento certo para atacar ou esperar pela recarga.
O protagonista Stick pode manter duas cores em campo ao mesmo tempo, permitindo combinações entre diferentes pesos. Esta flexibilidade torna-se particularmente útil em confrontos mais exigentes.
O jogo também suporta cooperação local. Quando Traff, uma princesa conhecida pelo seu temperamento explosivo, entra na história, um segundo jogador pode juntar-se à partida. Com dois participantes, o campo passa a ter quatro cores ativas em simultâneo, tornando os combates bastante mais caóticos e dinâmicos.
Muitas cores possuem ainda efeitos especiais que são ativados ao realizar um lançamento perfeito. Curiosamente, este tipo de lançamento tende a ser mais fácil com cores pesadas, já que o ritmo mais lento facilita o timing.
Para além das cores, existem também três categorias adicionais de habilidades: tech, dodge e specials. As tech funcionam como ferramentas defensivas contra projéteis inimigos. As habilidades de dodge ajudam a evitar ataques e obstáculos. Já os specials ocupam todo o campo e produzem efeitos mais dramáticos durante as batalhas. Todos estes elementos apresentam quatro níveis de raridade, desde incomum até épico. À medida que são melhorados, podem ganhar efeitos adicionais como aumento de ataque, defesa ou até capacidade de cura.
Apesar da criatividade do sistema, o combate apresenta algumas limitações. Apontar as cores com um comando pode tornar-se complicado em certos momentos, especialmente durante batalhas mais movimentadas. Embora seja possível ajustar opções de assistência de mira, a sensação geral é que o sistema poderia beneficiar de algum refinamento adicional.
Existem ainda momentos em que ataques inimigos interrompem ações importantes, obrigando o jogador a largar a core que estava prestes a lançar. Quando se trata de cores pesadas, que demoram muito tempo a recarregar, esta situação pode tornar-se particularmente frustrante.
Outro elemento adicional é o chamado cool moves meter. Este medidor enche sempre que um ataque acerta num inimigo ou quando o jogador executa uma esquiva ou defesa com sucesso. Ao atingir certos níveis, permite usar ataques especiais ou quebrar as regras do dodgeball, atravessando temporariamente para o lado adversário do campo para realizar ataques corpo a corpo. Embora interessante no papel, o combate corpo a corpo nem sempre transmite uma sensação clara de impacto ou eficácia, o que reduz um pouco o incentivo a usar esta mecânica.

Mundo e história
A história de Ink Inside decorre num cenário bastante original: o interior de vários cadernos de desenho pertencentes a uma jovem chamada Hannah.
Sem que ela saiba, os seus desenhos ganharam vida dentro dessas páginas. Cada caderno funciona como um pequeno mundo próprio, com estilo visual, personagens e ambientes distintos. As várias criaturas desenhadas podem viajar entre estes mundos, criando uma espécie de rede de realidades interligadas.
Durante muito tempo, este universo funcionou de forma relativamente harmoniosa. No entanto, um evento conhecido como The Great Unfolding alterou drasticamente essa estabilidade. A partir desse momento, viajar entre os cadernos tornou-se muito mais difícil.
Ao mesmo tempo, uma ameaça chamada Sog começou a espalhar-se pelas páginas. Esta espécie de praga transforma os doodles em criaturas agressivas que atacam tudo o que encontram. Os habitantes destes mundos têm lutado para sobreviver, mas a batalha parece cada vez mais difícil. A esperança renasce com a chegada de Stick, um doodle inacabado que surge inesperadamente após muito tempo sem novos desenhos.
A sua existência pode representar a chave para alterar o destino destes mundos.
O jogo apresenta um conjunto de personagens bastante carismáticas, incluindo o excêntrico Detective Fuzz e a irreverente Traff. As interações entre estas figuras ajudam a dar vida ao universo e tornam a narrativa surpreendentemente envolvente.
Grafismo
Visualmente, Ink Inside aposta numa direção artística muito marcante.
Todo o mundo parece ter sido desenhado diretamente com marcadores ou lápis de cera. As texturas lembram folhas de caderno, com linhas visíveis, rasgos no papel e manchas de tinta que reforçam a sensação de estarmos literalmente dentro de um bloco de desenhos. Este estilo lembra outros jogos que apostaram em visuais artesanais, criando uma atmosfera muito acolhedora e distinta. Algumas sequências narrativas utilizam ainda cenas em imagem real. Estas representam as memórias dos doodles no momento em que foram desenhados por Hannah. Embora a utilização de vídeo real em videojogos nem sempre funcione bem, aqui acaba por reforçar a ligação entre o mundo real e o universo imaginário dos cadernos.
O resultado é um estilo visual muito expressivo, que transmite emoção de forma inesperada e reforça a identidade do jogo.

Som
O trabalho de som em Ink Inside é, na maioria dos casos, bastante sólido.
A banda sonora acompanha bem os diferentes ambientes e ajuda a reforçar o tom de aventura com um toque de fantasia. Os efeitos sonoros também contribuem para dar personalidade aos ataques, habilidades e interações entre personagens. Onde o jogo realmente se destaca é na dobragem das personagens. As interpretações de Stick, Traff e Detective Fuzz ajudam a transmitir o humor e as emoções do enredo, tornando estas figuras particularmente memoráveis.
Há, no entanto, pequenas inconsistências. Algumas personagens secundárias parecem ter sido gravadas em condições de áudio menos controladas, criando um efeito de eco que contrasta com a clareza das vozes principais. Não é um problema grave, mas torna-se percetível quando comparado com a qualidade geral da produção.
Conclusão
Ink Inside é um jogo peculiar, tanto pela sua origem como pelas ideias que apresenta. A mistura entre narrativa emocional, estética de caderno desenhado e combates baseados em dodgeball cria uma experiência que dificilmente se confunde com qualquer outro título.
A história é, sem dúvida, o elemento mais forte do jogo. As personagens são cativantes, o mundo é imaginativo e a narrativa aborda temas de criatividade, identidade e crescimento de forma surpreendentemente tocante. A jogabilidade, por outro lado, apresenta algumas fragilidades. O sistema de combate tem boas ideias, mas por vezes torna-se frustrante ou pouco intuitivo. Felizmente, as opções de dificuldade ajudam a suavizar esses problemas e permitem apreciar melhor os restantes elementos da experiência.
Para quem aprecia jogos narrativos e universos visualmente criativos, Ink Inside tem muito para oferecer. Pode não ser perfeito, mas demonstra uma ambição artística rara e deixa a sensação de que este mundo ainda tem muito potencial para evoluir em futuras sequelas.