Análise: Neva: Prologue

Neva foi um dos jogos independentes mais marcantes do seu ano, não apenas pela beleza da sua direção artística, mas também pela forma como conseguiu construir uma ligação emocional forte entre a protagonista Alba e a pequena loba que lhe dá nome. Neva Prologue surge como uma pequena expansão que procura aprofundar esse universo, recuando no tempo para mostrar os acontecimentos que antecedem a aventura principal.

Tal como o próprio nome indica, esta expansão funciona como uma prequela. O foco está nos momentos que levam Alba a encontrar a pequena loba pela primeira vez. A história começa quando Alba segue um rasto de borboletas brancas que a conduz até pântanos corrompidos e perigosos. É nesse ambiente hostil que encontra uma pequena cria de lobo, perdida e aterrorizada. A partir daí começa uma relação de confiança que se irá desenvolver lentamente enquanto ambas tentam sobreviver num mundo devastado por uma força misteriosa e monstruosa.

Apesar de se tratar de uma prequela, o jogo recomenda que o DLC seja jogado apenas depois de terminar a campanha principal. Há inclusive um aviso importante antes de iniciar o conteúdo: ao começar Neva Prologue, a gravação anterior será apagada. Felizmente, o jogo alerta claramente para isso, evitando surpresas desagradáveis para quem regressa apenas para experimentar o novo conteúdo.

No fundo, esta expansão serve sobretudo como uma forma de revisitar o universo de Neva, oferecendo um pequeno capítulo adicional para quem ficou marcado pela aventura original. Não é um conteúdo longo, mas procura compensar essa brevidade com novos desafios, novos cenários e uma abordagem mais focada na personagem de Alba.

Jogabilidade

Em termos de jogabilidade, Neva Prologue mantém a mesma base do jogo original. Continuamos perante uma aventura de ação e plataformas em duas dimensões, com níveis que se desenrolam de forma fluida e que combinam exploração, combate e resolução de pequenos puzzles ambientais.

A expansão está dividida em três capítulos distintos. Cada um apresenta novos cenários e desafios específicos, mantendo sempre a estrutura que alterna entre combate, plataformas exigentes e momentos mais pausados de exploração. Ao longo destes níveis também existem alguns segredos escondidos para descobrir, incentivando os jogadores a explorar os cenários com atenção.

Embora o jogo possa lembrar superficialmente um metroidvania, na prática a estrutura é bastante mais linear. Não existe regresso a áreas anteriores nem a obtenção de novas habilidades que desbloqueiem zonas inacessíveis. Desde o início temos acesso a todo o nosso conjunto de movimentos e capacidades, o que torna o progresso mais direto e focado na superação dos desafios presentes em cada nível.

O sistema de combate mantém-se simples mas eficaz. Alba luta com uma espada e possui apenas um tipo de ataque principal. Não existem golpes carregados nem contra-ataques elaborados, o que faz com que os confrontos dependam sobretudo do timing e da precisão do jogador. Também é possível executar uma esquiva através de um rolamento, essencial para evitar os ataques dos inimigos. A gestão da vida também é bastante direta. Alba possui apenas três pontos de vida e cada golpe recebido remove um deles. Não existem poções ou itens de cura tradicionais. Em vez disso, a vida pode ser recuperada ao atingir inimigos consecutivamente sem sofrer dano, incentivando uma abordagem agressiva mas controlada.

Uma das habilidades importantes continua a ser o ataque descendente executado no ar. Este movimento não serve apenas para combate, mas também para interagir com elementos do cenário, quebrando superfícies ou ativando mecanismos específicos. Curiosamente, estas situações são ainda mais frequentes em Neva Prologue do que no jogo base.

O DLC também introduz novos inimigos e algumas mecânicas adicionais de plataformas, aumentando ligeiramente o grau de dificuldade. Algumas criaturas apresentam comportamentos mais traiçoeiros e obrigam o jogador a observar cuidadosamente os seus padrões antes de atacar.

Mundo e história

Narrativamente, Neva Prologue tem um objetivo bastante claro: mostrar como começou a relação entre Alba e a pequena loba. O DLC acompanha os primeiros momentos dessa ligação num mundo já profundamente marcado pela corrupção que domina a natureza. A história começa quando Alba segue um conjunto de borboletas brancas que a conduzem até aos pântanos corrompidos. Esse ambiente serve como cenário inicial para a descoberta da jovem loba, uma criatura frágil e assustada que precisa de proteção. A partir desse momento, Alba assume o papel de guardiã e tenta ganhar a confiança do animal.

Ao contrário do jogo principal, em que Neva desempenha um papel mais ativo durante a aventura, aqui o foco está muito mais centrado em Alba. Durante grande parte do DLC, a jovem loba ainda não participa diretamente nos combates e o jogador precisa primeiro de a encontrar e salvá-la do ciclo de destruição que domina o mundo. Existe ainda a possibilidade de chamar a loba através de um botão específico, algo que serve principalmente para guiar a sua movimentação em determinados momentos. No entanto, estas situações são relativamente raras e surgem sobretudo nas fases mais avançadas da expansão.

Apesar da curta duração, o DLC consegue acrescentar algum contexto interessante ao universo do jogo. Ao mostrar os primeiros encontros entre Alba e a pequena loba, ajuda a reforçar a ligação emocional que já era central na narrativa original.

Grafismo

Tal como no jogo base, um dos grandes destaques de Neva Prologue é a sua apresentação visual. A direção artística continua absolutamente impressionante e mantém a identidade visual que tornou o jogo tão memorável.

Os cenários apresentam uma utilização muito cuidada das cores e das formas geométricas. Cada ambiente possui uma identidade própria, desde os pântanos corrompidos até às zonas dominadas pela presença da corrupção. A combinação de cores e iluminação cria paisagens que parecem verdadeiras pinturas em movimento.

O DLC também introduz novos ambientes que expandem o mundo do jogo. Mesmo que a duração seja relativamente curta, cada área apresenta detalhes visuais suficientes para manter a sensação de descoberta. Curiosamente, alguns jogadores notaram que a paleta de cores nesta expansão é ligeiramente mais escura e contida quando comparada com a aventura principal. Essa escolha estética ajuda a reforçar o tom mais sombrio deste prólogo, sugerindo um mundo ainda mais dominado pela corrupção.

No geral, Neva Prologue mantém o nível de qualidade visual que se esperava do estúdio. Continua a ser um jogo que impressiona constantemente pelo cuidado colocado na composição das suas paisagens.

Som

O trabalho sonoro continua igualmente forte nesta expansão. A banda sonora, novamente composta pelo grupo Berlinist, acrescenta novas faixas que complementam perfeitamente o ambiente melancólico e contemplativo do jogo.

No total, o DLC apresenta cerca de quinze novas músicas que acompanham os diferentes momentos da aventura. As composições mantêm o estilo atmosférico e emocional que caracterizava o jogo original, reforçando a sensação de isolamento e beleza que define este universo. Os efeitos sonoros também continuam muito bem integrados na experiência. O som do vento, da água e das criaturas presentes nos cenários contribui para criar uma sensação constante de imersão.

Embora os textos estejam disponíveis em francês e outras línguas, o jogo utiliza muito pouco diálogo. A narrativa continua a ser transmitida sobretudo através das imagens, da música e da interação entre as personagens.

Conclusão

Neva Prologue é uma expansão pequena mas competente. Em cerca de uma hora, ou pouco mais se decidirmos procurar todos os segredos, oferece um novo capítulo que aprofunda a relação entre Alba e a pequena loba.

Do ponto de vista da jogabilidade, mantém praticamente todas as bases do jogo original, acrescentando alguns novos inimigos, novos desafios de plataformas e um boss adicional. Embora não traga mudanças radicais, consegue oferecer momentos intensos e interessantes. A curta duração é talvez a maior limitação deste conteúdo. Muitas das ideias introduzidas poderiam ter sido exploradas com mais profundidade se o DLC fosse um pouco mais longo. Ainda assim, tendo em conta o preço bastante acessível, acaba por ser uma adição justa ao jogo base.

Visualmente e sonoramente continua a ser uma experiência impressionante. A direção artística mantém-se de grande qualidade e a nova banda sonora reforça ainda mais a atmosfera única do jogo.

Para quem gostou de Neva, esta expansão funciona como uma oportunidade de regressar a esse mundo e revisitar o início da história de Alba e da sua companheira. Pode ser breve, mas continua a demonstrar o talento do estúdio e a beleza singular deste universo.

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