Análise: Scott Pilgrim EX

Scott Pilgrim é uma daquelas propriedades culturais que parece recusar envelhecer. Nascido nas páginas da série de novelas gráficas criada por Bryan Lee O’Malley, o universo do jovem músico canadiano rapidamente ganhou estatuto de culto. Entre o humor absurdo, as referências constantes à cultura pop e uma história sobre imaturidade emocional e crescimento pessoal, Scott Pilgrim tornou-se um fenómeno que atravessou diferentes meios. Primeiro os livros, depois o filme realizado por Edgar Wright em 2010, mais tarde um videojogo beat ‘em up lançado nesse mesmo ano e, já recentemente, uma minissérie animada na Netflix. Scott Pilgrim EX surge agora como mais um capítulo nesta história.

Desenvolvido pela Tribute Games, um estúdio fundado por antigos membros da Ubisoft que participaram no jogo original de 2010, Scott Pilgrim EX assume-se como um regresso às origens. Nos últimos anos, a equipa ganhou notoriedade por revitalizar o género beat ‘em up com títulos como Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge, e aqui tenta aplicar essa mesma filosofia ao universo de Scott Pilgrim. O resultado é um jogo que mistura nostalgia, humor e pancadaria clássica, tentando simultaneamente agradar aos fãs de longa data e atrair novos jogadores.

Contudo, Scott Pilgrim EX também levanta uma questão interessante: até que ponto esta fórmula continua fresca? O jogo aposta fortemente na familiaridade e na celebração do passado, mas nem sempre consegue dar o salto que muitos poderiam esperar de uma nova entrada na série. Ainda assim, para quem cresceu com Scott e os seus amigos, há aqui muito para apreciar.

Jogabilidade

Scott Pilgrim EX mantém-se fiel às raízes do género beat ‘em up. A estrutura é simples e clássica: avançar pelos níveis, enfrentar hordas de inimigos e derrotar bosses que surgem no final de cada área. É uma fórmula que remonta às arcadas dos anos 80 e 90, e que aqui surge refinada com a experiência que a Tribute Games adquiriu ao longo dos últimos anos.

O jogo apresenta sete personagens jogáveis, cada uma com o seu estilo de combate próprio. Scott Pilgrim é o protagonista habitual, recorrendo a murros, pontapés e ao seu baixo como arma improvisada. Ramona Flowers, por sua vez, combate com o seu martelo característico, aplicando golpes exagerados que parecem saídos diretamente de um desenho animado. A variedade entre personagens ajuda a manter a experiência fresca, especialmente quando se joga em cooperativo.

Uma das novidades é a inclusão de Lucas Lee, antigo ex-namorado maléfico de Ramona, agora convertido em aliado. O seu estilo de combate combina artes marciais com manobras de skate, criando uma personagem bastante dinâmica e visualmente expressiva. A animação em pixel art destaca-se particularmente neste caso, com movimentos fluidos e exagerados que reforçam o tom humorístico do jogo.

Como seria de esperar num beat ‘em up, os jogadores podem utilizar armas improvisadas encontradas no cenário. Tubos metálicos, objetos do ambiente e até itens inesperados tornam-se ferramentas úteis para lidar com as multidões de inimigos. Além disso, cada personagem possui ataques especiais que ajudam a controlar situações mais caóticas. Alguns destes golpes são bastante eficazes, enquanto outros funcionam mais como bónus temporários que aumentam estatísticas.

Os níveis estão recheados de pequenas referências ao género. Comer comida encontrada no chão para recuperar energia, inimigos escondidos em caixotes do lixo ou a utilização de cenários destrutíveis são elementos que remetem diretamente para clássicos das arcadas. Scott Pilgrim EX não tenta reinventar a roda, mas executa esta fórmula com competência e energia.

Mundo e história

A história de Scott Pilgrim EX é deliberadamente leve e absurda. A aventura começa quando os colegas de banda de Scott, os Sex Bob-Omb, são raptados pouco antes de um concerto importante. Scott, Ramona e vários dos antigos ex-namorados maléficos de Ramona juntam-se então para os resgatar, recuperar os instrumentos da banda e garantir que o espetáculo pode acontecer.

No entanto, a situação complica-se quando Toronto é invadida por portais estranhos que distorcem a realidade. Estes portais espalham o caos pela cidade e trazem consigo novos gangues e inimigos improváveis. Ao longo do jogo, os protagonistas enfrentam demónios, robôs e até vegans com poderes especiais, numa sucessão de encontros cada vez mais absurdos.

Os cenários refletem essa mesma loucura narrativa. Os jogadores passam por castelos góticos, praias, ruas urbanas e até restaurantes com temática medieval. Esta variedade ajuda a manter o ritmo da aventura e reforça a sensação de que o mundo de Scott Pilgrim segue as suas próprias regras.

Apesar de a narrativa ter sido escrita pelo próprio Bryan Lee O’Malley, a história aqui apresentada é relativamente superficial. Ao contrário das novelas gráficas originais, que exploravam temas como insegurança, relacionamentos complicados e crescimento emocional, Scott Pilgrim EX opta por uma abordagem mais simples. O conflito principal serve sobretudo como pretexto para a ação, sem grande desenvolvimento dramático.

Os amigos de Scott aparecem ocasionalmente em participações rápidas, muitas vezes apenas para uma piada ou referência. Embora estas aparições sejam divertidas para fãs da série, também reforçam a sensação de que a história funciona mais como uma aventura paralela do que como um capítulo realmente significativo no universo da personagem.

Grafismo

Visualmente, Scott Pilgrim EX segue a estética pixel art que já caracterizava o jogo de 2010. No entanto, a Tribute Games demonstra claramente que aperfeiçoou a sua técnica ao longo dos anos. As animações são mais detalhadas, os cenários apresentam maior variedade e os efeitos visuais contribuem para dar mais impacto aos combates.

O estilo artístico continua a captar bem o espírito das bandas desenhadas originais. As personagens possuem expressões exageradas e movimentos caricaturais, reforçando o humor visual que sempre foi parte essencial da identidade da série. Cada golpe é acompanhado por efeitos visuais coloridos e exagerados, que transformam as batalhas em autênticos espetáculos.

Os cenários estão igualmente recheados de detalhes e referências. Há homenagens a videojogos clássicos, elementos da cultura pop e pequenos pormenores escondidos que recompensam os jogadores mais atentos. Desde ambientes que lembram plataformas de jogos retro até locais que evocam filmes e séries conhecidas, Scott Pilgrim EX vive muito desta celebração constante da nostalgia.

Essa abordagem resulta especialmente bem para quem reconhece essas referências, mas também funciona simplesmente como decoração divertida para quem não está familiarizado com todas elas. No fundo, o jogo consegue equilibrar homenagem e identidade própria, mantendo uma estética coerente e apelativa.

Som

Um dos elementos mais fortes de Scott Pilgrim EX é a sua banda sonora. O regresso da banda Anamanaguchi é um dos grandes destaques do jogo, e a sua presença volta a definir grande parte da identidade sonora da experiência.

Conhecidos pelo seu estilo que mistura rock com chiptune, os Anamanaguchi criaram uma banda sonora que combina perfeitamente com a estética retro do jogo. As músicas acompanham o ritmo frenético da ação, acrescentando energia às batalhas e ajudando a tornar cada nível memorável.

Ao mesmo tempo, há também alguma experimentação. Certos níveis apresentam estilos sonoros inesperados, incluindo faixas com influências industriais que evocam o ambiente musical dos anos 90. Esta diversidade ajuda a evitar que a banda sonora se torne repetitiva ao longo da campanha.

Além da música, os efeitos sonoros seguem a mesma filosofia retro. Golpes, explosões e interações com o cenário produzem sons que lembram os jogos clássicos das arcadas, contribuindo para reforçar a nostalgia que o título procura evocar.

Conclusão

Scott Pilgrim EX é, acima de tudo, um jogo para fãs. A Tribute Games demonstra claramente o carinho que tem pelo material original, criando uma experiência que celebra o universo de Scott Pilgrim com entusiasmo. A jogabilidade sólida, a estética pixel art bem executada e a excelente banda sonora garantem que o jogo seja divertido de jogar, especialmente em sessões cooperativas.

No entanto, também é evidente que o título joga demasiado pelo seguro. Em termos narrativos, a história não tem o mesmo impacto ou profundidade das obras que deram origem à série. Falta-lhe aquele toque de irreverência e desenvolvimento emocional que tornaram Scott Pilgrim tão memorável.

Ainda assim, Scott Pilgrim EX funciona bem como uma espécie de reencontro com personagens e ambientes familiares. Para quem cresceu com as bandas desenhadas, viu o filme ou jogou o título original, esta nova aventura oferece uma dose confortável de nostalgia.

Talvez a verdadeira questão seja se Scott Pilgrim ainda precisa de continuar a viver no passado. O universo criado por Bryan Lee O’Malley já tem idade suficiente para refletir sobre o tempo que passou. Scott Pilgrim EX prefere celebrar o que veio antes em vez de reinventar o futuro, mas para muitos fãs isso pode ser exatamente o que procuram.

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